terça-feira, 29 de dezembro de 2009

A Arte da Separação

Um dos momentos mais cruciais na vida de uma pessoa é a hora de dizer adeus. Há um momento certo para cada adeus que se dá.

Temos que perceber que quando tudo já acabou, quando já não adianta juntar os cacos e que os cacos que restam espalhados pelo chão já não se encaixam. É um momento dolorido, mas necessário. Enfrentar de peito aberto a dor de dizer adeus a alguém e a quem se amou loucamente é ter a coragem e sabedoria de suportar uma grande dor em detrimento do prolongamento de uma dor muito maior, que é a de viver um mundo de aparências.
Não há dor maior que estampar um sorriso falso quando está sangrando o coração.

E
ntretanto, nem todo tipo de adeus é definitivo. É triste ver tanta gente aprisionada a amores que se extinguiram. É como estar aprisionado na cratera de um vulcão extinto. A dor aguda da separação é menos dolorosa que a dor velada e continua da vida em disfarce. O ser que não é ele mesmo, que representa um papel que, no fundo, não desejaria representar, é menos que um ser, é quase um não-ser. Ser negado e ser que se nega. Negação mútua. O nada se relacionando a coisa nenhuma através de um relacionamento inexistente. E perde-se as oportunidades de voltar a amar. Mortos insepultos aqueles que vivem relações de aparências e desistem para sempre de amar.

Quantos amores ainda nos restam por serem amados! Quem sabe na próxima esquina não te depares com uma nova paixão. A nova paixão é sempre a paixão! Quem ama, ama como se fosse a primeira vez. Quem ama, ama como se fosse a última vez.

Há, além da arte da separação necessária e definitiva, a arte da separação provisória. A dor de uma separação provisória, se encarada do devido ângulo, não é uma dor, mas alegria. É que a dor da separação provisória é uma tempero da felicidade futura. Uma breve separação excita e apimenta os amores que, de estarem tanto tempo juntos, já sofreram certo desgaste.

Além do mais, quando nos afastamos provisoriamente de alguém, estamos fazendo uma longa caminhada cujo ponto de partida e o ponto final são os mesmos. Uma caminhada em círculos é assim: quando mais se afasta mais se aproxima. A cada passo que se dá, se afasta o ponto de partida, mas se aproxima o ponto da chegada. Quando digo até logo e me afasto, não estou indo, mas, desde já, voltando. E digo assim para o meu amor: cada passo que dou para longe, estou mais perto de ti, pois mais se aproxima a minha volta.. E assim, nos separamos felizes da vida! E, na volta, nosso amor engrandeceu-se na proporção da distância e do tempo que nos afastamos.

Tudo que é bom dura pouco

Tudo que é bom dura pouco
o prazer é um momento louco
um orgasmo que leva um instante
Já estou velho porém fui infante
mas a paixão é um curto pavio
arde intenso depois resta frio
o ocaso é átimo colorido
mas não é muito comprido
e a flor quando desabrocha
reverbera fulgurante qual tocha
mas logo a seguir sempre murcha
após ela só fica a aridez da rocha
a iguaria mais tenra e gostosa
comemos em parte por ser cheirosa
sofregos como nunca acabar fosse
mas eis que acaba-se o que era doce
da beleza noturna os matizes
tinge sombrios de amantes os deslizes
mas são logo quebrados pelo brilho solar
quando a manhá rompe pelo ar
As cores do dia são as atrizes
que as da noite torna infelizes
vãos beijos que de um segundo não passam
momentos sublimes que logo fracassam
toda felicidade é efêmera e fugaz
a tristeza um inimigo invencível e audaz
Só a amizade e o verdadeiro amor
em meio a tanta tristeza e dor
hão de para todo sempre perdurar
se cultivados seja do jeito que for
as feridas do tempo haverão de curar

Benno Assmann

terça-feira, 15 de dezembro de 2009



me vejo no espelho, me sinto um rei
o olhar dominador, a juba imponente
o porte assustador, me vejo um Leão
mas, no fundo, eu sei que sou só um gato



Uma tarde na praça



O velhinho na praça, sentado no banco, pensa com seus botões:

"Eita, casalzinho descarado. Olha só! A vadia se esfrega no marido
como fosse transar com ele aqui mesmo, em plena praça!"

"E o marido, sem-vergonha, passando a mão na bunda da esposa? Tão sem-vergonha
que não respeita nem a própria esposa."

Neste pensar do velhinho, havia dois erros.

Primeiro: apesar de condenar, ele bem que queria estar lá!

Segundo: os dois eram casados, mas não um com o outro!!!


Valtencir


Valtencir era uma garoto genial que extraía raiz quadrada sem pensar. Ele desenvolveu um tipo de vegetal geneticamente modificado que tinha raízes quadradas, e ele não precisava pensar quando extraía suas raízes. Aliás, não pensar era um de suas atividades preferidas. Desenvolvera uma verdadeira arte de não pensar e obtinha grandes frutos deste não-pensar. Por exemplo, pouco importava a ele que uma guerra estava neste mesmo momento sendo disputada e que a morte ceifava diariamente um enorme número de vidas inocentes da face da Terra. A ataraxia (nos vocabulários céptico e estóico, estado em que a alma, pelo equilíbrio e moderação na escolha dos prazeres sensíveis e espirituais, atinge o ideal supremo da felicidade: a imperturbabilidade) era seu grande produto. Ele simplesmente não tinha defeitos. Era perfeito! Perfeito, mas nem tanto. Tinha um pequeno defeito na língua que o impedia de falar corretamente. Trocava a letra “a” por asurbanipalnabucodonosor. Assim, quando ia falar uma palavra simples como banana, por exemplo, invariavelmente saía:

- basurbanipalnabucodonosornarsurbanipalnabucodonosornasurbanipalnabucodonosor.

Era realmente muito difícil entender, ainda que muito divertido, o que Valtencir dizia quando o que dizia envolvesse a letra “a”, mas isto não queria dizer grande coisa, já que não há grande interesse em saber o que pensa alguém que não pensa. Outro defeitinho, me lembrei ainda agora. Matou seu irmão com uma bala por causa de uma bala. Brigaram por conta de uma bala de menta já meio chupada. Não sei se era de menta ou de anis ( Erva da família das umbelíferas -Pimpinella anisum- originária do Egito, a qual fornece a essência de anis, usada na fabricação de licores e xaropes; erva-doce, pimpinela), mas não importa. Cada um dizia, por sua vez, que a bala de menta (ou de anis?) era sua. Não chegaram a um entendimento. Valtencir não mais se controlou e, se valendo da própria bala de menta (ou de anis?), surrou seu irmão. Não se sabe muito bem como se pode surrar até a morte outra pessoa com uma simples bala de anis (ou de menta?), mas esta é a estória que contam. por aí Morrer assim é terrível, tão terrível como morrer de qualquer outro jeito. Afora isso, Valtencir era de morrer de rir!



Coração de Pedra


Vai-te embora e leva contigo meu coração. Ele já não me servirá de nada sem você. Você o roubou de mim e a ti pertence.

Sei que não te servirá de nada, sei que te fará pesar a bagagem, mas se não o queres, livre-se dele e o atire nas correntezas de um rio, para servir de alimento aos peixes, ou o enterre no campo para adubar a terra. Quem sabe as suas carnes enrugadas se tornem um lindo peixe dourado ou um maravilhosa e colorida flor. Será uma última chance de vê-lo sorrir, acostumado ao pranto e a dor que tem sido.

Acho que o melhor para mim é ter uma cavidade vazia no peito no lugar de um coração que só me dá desconsolo. Ou, então, transplanto um pedra fria e sem vida para substituir o seu pulsar.

Me confortaria a quietude da rocha no lugar do impaciente e intranqüilo pulsar desta posta de carne retalhada e indócil.

Acho que vou melhor sem sentimentos do que tê-los todos não correspondidos. Talvez seja melhor ser um objeto sem préstimo, inerte e coberto de musgos do que ter a ânsia a me corroer as entranhas. Jamais vi uma pedra coberta do limo do tempo chorar. Nunca vi um lago sofrer e das estrelas nunca ouvi os lamentos. É essa vida que, ao mesmo tempo que nos empurra e retrai, que faz correnteza nas veias, que faz palpitar o coração, que nos faz o sofrer e chorar. Livre da alma serei coisa e encontrarei, enfim, a paz que nunca tive.

Quem sabe você saiba conviver melhor com teus sentimentos, pois eu já desisti deles e prefiro ser só uma pedra de sal.


segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Weeping nude - Edward Munch


imagino teu pranto
imagem que é-me feita
na espreita
de anos tantos
meus dedos largos
em tua fenda estreita
à força de um carinho
alargavam o caminho
desbravando tuas matas
(pensava eu então
-"no aperto delas
ainda me matas")
distante meu ninho
este estranho vinho
adocicado e carente
que brotava inocente
pelas vertentes
de tuas estranhas
e profundas entranhas
entre os gemidos mais vagos
agora liquefazem-se
meus desejos em lagos
e os roucos cantos
de esmaecidos encantos
nos músculos rijos das tuas coxas
de meus apertos ainda tão roxas
e que ainda me expulsam e afagam
depois derretem-se e alagam
este é um passado que não me deixa
esta lembrança que agora é uma queixa
és agora, imagino,
de outro qualquer a nova gueixa
esta imagem é a que rumino
quisera-te antes sozinha
chorosa no orvalho sereno
da tua boca carmim
do que teres cravado em teu seio
um outro qualquer ao invés de mim

Benno Assmann

terça-feira, 24 de novembro de 2009



escalar com língua voluptuosa a íngreme vereda que serpenteia em
direção ao cume agudo do teu seio
esculpir meu coração sangrado e perfurado pela seta afilada da paixão
no contorno do aveludado do teu ereto mamilo
incandescer meus olhos e ocultar minha face no vale exótico e tropical
que pulula de vida entre as tuas coxas
recolher-me das bravias intempéries na gruta santa e saciar nas tuas
umidades a sede com que me castigam as secas
enveredar meu tronco pela ravina receptiva a úmida com que me esperas
ousada e serena


Benno

terça-feira, 10 de novembro de 2009

INTEMPÉRIE



u
m tufão
passou em minha vida
e me deixou molhado
(de desejo e de prazer)

mas depois
me deixou inclemente
sem remédio e sem bandeira
(acabou-se a brincadeira)

eu a lembrar entristecido
que nunca nada parecido
me castigou tão cruamente
intempérie em meu caminho
um mau tempo em meu destino

e agora
esta nua tempestade
que encharca as ruas da cidade
foi molhar em outros mares
foi olhar que mais havia
por tantos outros continentes

fui apenas mais um penitente
no caminho de um tornado
que erode o coração da gente

hoje sou um tronco arriado
de uma antiga azaléia
retorcido e desenraizado
que um vento arrancou da aléia

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

estes meus olhos...


estes meus olhos
cansados
de tanto ler
já não te enxergam
eis-me então
encharcado de tanto saber
mas privado
de toda beleza

estes meus dedos
atrevidos
exploram tuas reentrâncias
e compensam
o descuido dos meus olhos

Benno

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Lembranças de mim


Não sei o que dizer
Mas sei o que fazer
Não me ouça
apenas me veja
E o que digo
não siga
pois não há mais
que eu consiga
falar de mim
Meu exemplo
é meu templo
e o dia a dia
meu dever
de ficar em
nada a dever
pois saiba meu amigo
que a minha história
é a minha oratória

Benno

Lembranças de mim


As nuvens mergulhavam no horizonte como gaivotas neuróticas e ensandecidas. Se seguiam o Sol ou perseguiam a Lua nem sei dizer ao certo, mas sei que formavam um espetáculo estarrecedor, num bailado sem propósitos.
Como todos os dias, eu fazia minha eterna caminhada ao longo da praia, contanto caramujos e chutando conchas. Os tórridos grãos de areia, ainda lembrados do calor do desfalescente Sol, acariciavam-me e ao mesmo tempo queimavam-me as solas dos cansados pés.
Eis que mais um dia findava e eu nem sabia qual a razão de tê-lo vivido. Os dias são assim, mesmo os inesquecíveis como o bailado anoitecescente das gaivotas. Toda vez que eu via o céu assim, desabando na noite, eu lembrava de um dia quase noite igual a tantos outros, igual a este mesmo dia de agora, em que eu me perguntava - será que daqui há muitos anos eu ainda lembrarei deste momento? E foi assim que ele se gravou indelével em minha memória. Aquele momento, que nada tinha de especial, ficou ali gravado como uma fotografia para sempre e talvez perdure mesmo além da minha morte.
Dali, daquele momento lembrado, vem minha mania de colecionar momentos aleatórios. Numa hora qualquer do dia, eu resolvo me lembrar daquele momento para jamais me perder de mim. Então, eu procuro uma coisa qualquer, um graveto, um seixo, uma tampinha de garrafa, qualquer coisa que esteja por ali, uma referência menmônica daquela lembrança, que depois guardo num cofre. Este é meu cofre onde guardo as lembranças que tenho de mim. Não das lembranças dos meus grandes momentos, mas daqueles momentos comuns, pequenas fotos do meu dia a dia, que, num dia desses comuns caminhando pela praia eu tive medo de perder na noite do esquecimento.


Benno

Ps: Meu conto "O Oitavo Casamento" foi publicado na excelente revista on-line Germina. Agradeço às editoras da revista, em especial à Mariza Lourenço, a honra que me foi concedida.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

A Pintura Inesperada

A Pintura Inesperada

Aquilo era inteiramente inesperado. Ele não sabia que tinha um tio morando na Europa, mais precisamente na Holanda, nem que este havia se casado com uma Holandesa e muito menos que, por não terem filhos, ele e tornara o único herdeiro necessário deste tio.

O seu tio, falecera há pouco, soube através de um telegrama, alguns meses antes, era viúvo e, por não ter deixado herdeiros, tiveram que procurar o parente vivo genealogicamente mais próximo. E este parente era ele.

Deixou poucos bens. Não era rico, mas possuia uma maravilhosa pintura, nada em dinheiro, alguns livros comuns, nenhuma propriedade imobiliária, pouca coisa realmente.

Recebeu tudo num pacote algum tempo depois.

Chamava a atenção apenas a pintura. Assinada por um tal de Jan Vermeer. Depois ele foi descobrir que Vermeer é um dos pintores mais famosos que já existiram. Uma tela de sua autoria poderia valer milhões de dólares, mesmo porque só haviam apenas algumas dezenas delas.

Levou a pintura a escola de Artes mais próxima para que um especialista analisasse a obra.

Infelizmente, não era um autêntico Vermeer apesar de ser uma excelente imitação. Como era uma pintura muito bonita e bem feita, ele poderia vendê-la por alguns milhares de reais.

Afinal, havia sido um bom negócio ter herdado a pintura. Vendeu e com o dinheiro apurado pode comprar um carro. Nada mal.

Qual não foi sua surpresa ao descobrir que o seu Vermeer, na verdade, era uma falso Vermeer, porém um autêntico Van Megueren , pintor que executou obras originais no mais puro estilo Vermeer, e, para facilitar a venda de seus quadros, assinava como o famoso pintor. O quadro fora vendido por algumas centenas de milhares de dólares.

Afinal, ele aprendeu que uma coisa que por um lado é falsa ainda pode ser uma coisa original por outro.

Benno Assmann

Aviso 1 : Fui vencedor do primeiro lugar no concurso Prata da Casa na categoria contos com o meu conto o Oitavo Casamento.

Aviso 2: Completei 50 anos no sábado dia 10 de outubro.

domingo, 27 de setembro de 2009

Nasceu no bosque uma pequena flor. Pétalas singelas, cores suaves como nenhum pintor jamais seria capaz de combinar, em perfeita harmonia com paisagem que lhe cerca. Escondida sob as gramíneas e distante dos olhares, dela ninguém se dá conta, pois germinou longe do caminho dos homens. Mas ela, por sua vez, também não se dá conta de quem vai pela estrada. Ela não precisa de olhares. Ela se basta. Lhe basta o simples amor de uma errante abelha que atrevida roube seu néctar e leve seu pólen a outras paragens. Talvez se vá em breve, pois uma flor dura pouco, sem que jamais tenha sido vista. Mas, que lhe importa ter sido esquecida?

Assim é também o destino do verso que nunca foi publicado. Nasceu na alma do poeta apaixonado para traduzir seu sentimento único e morreu em seu esquecimento. Parece triste, mas na verdade o verso, quando iluminado pela verdade do sentimento, basta em si por sua luz, assim como a flor que desabrocha isolada dos olhares e desaparece sob as folhas secas do campo.

Os olhares são apenas intrusos.

Benno Assmann

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Lia e as Musas

menina lendo de Berthe Morisot -(1841- 1895)


LIA



Lia não vivia, mas sonhava que vivia somente quando lia. Lia contos, lia a mão, lia romances de montão. Lia lia. Lia a não mais poder e tinha o poder de assim viver a vida que não vivia. E, quando lia, Lia sonhava ser rainha, estrela, puta ou guerrilheira, qualquer coisa que não fosse de verdade e não tinha a sua idade, mas a idade do sonho em que ardia. Lia veio, Lia foi, não disse a que veio, nem para aonde foi. Passou pela vida sem ser, mas foi tudo o que queria.



Benno Assmann


As Musas

As musas são personagens da mitologia grega, e tem sua origem nos poemas homéricos Ilíada e Odisséia. Elas cantavam para os Deuses e faziam parte do séquito de Apolo, o Deus das Artes. As musas são filhas de Zeus e de Mnemosyne, referidas por HESÍODO com as seguintes mágicas e mistérios:


Clio, a musa mágica da História; Euterpe, a musa musical; Talia, a musa da poética cômica; Melpômene, a musa da poética trágica; Terpsícore, a musa dançante e cantante; Erato, a musa da poesia amorosa; Polímnia, a musa da oratória e da poesia sacra; Urânia, a musa dos seres celestes. Calíope, a musa da poesia épica e eloqüente. Outras musas eram adoradas e inspiravam outros poetas, como a popular Melete, para meditar, Menme, para lembrar, Acide, para cantar e compor músicas, sendo o popular herói artístico e lendário Orfeu filho de uma delas.

O que ficou de importante para nós deste passado distante, porém ainda influente, é sua ligação direta com as artes e as ciências, especialmente a poesia. Na realidade a palavra perdeu seu sentido mitológico e hoje é usado na acepção de inspiração. A poesia gira em torno da inspiração, portanto, gira em torno de musas. As musas são seres diáfanos e ambíguos. Não se sabe se amam ou não o poeta que inspiram. Pois o poeta, falando de todos sentimentos, ora a ela se refere como traidora ou como ser lânguido desfalecido em seus braços, capaz de romper o coração do poeta ou fazer revivê-lo, mistura de morte e ressurreição, paixão e desespero, vida e morte.


No prólogo da Teogonia de Hesiodo, A Origem dos Deuses, marcado pela ambigüidade do mito, as musas cantam: "sabemos dizer coisas enganosas, semelhantes à realidade, mas sabemos, também, quando queremos, dizer coisas verídicas". As Musas são amigas da verdade, mas também da mentira, assim como a poesia. Nas palavras de Pessoa, “ o poeta é um fingidor” que “finge que é dor a dor que deveras sente”. Muitas vezes o amor, a paixão, a musa que inspira, são falsas, mas ainda assim inspiram. O poeta canta um amor imginado ou verdadeiro e sua musa existe ou é só imaginação.

O que cabe ao poeta não é dizer verdades, mas imitar as verdades e despertar sentimentos com estas verdades, não importando se os sentimentos doem na alma do poeta, mas que doam na alma do leitor. O poeta faz o leitor lembrar dos amores e sentimentos que teve, ou faz incandescer as emoções que em sua alma já ardiam. Hume já disse ser impossível mentir. Tudo é fruto da experiência e o amor que a poesia mente, quando mente, é inspirado em um amor havido e guardado na lembrança do poeta e dos seus leitores. Nem os seres mais estranhos criados pela imaginação são inteiramente mentirosos, mas recombinações de realidades. Assim são as Hidras e Quimeras e todos os monstros, ou deuses que a imaginação criou.


Eu, como poeta sem sê-lo, preciso me dirigir a alguém e este alguém tem que ser uma musa. Bem bonitinha, de preferência. Beleza do coração. Beleza da razão. Beleza, qualquer beleza. Quando estou falando de olhos, ou de madeixas, ou do perfume, é da musa que falo. E se falo de outra coisa que não a musa, é para musa que falo. Só a musa é poesia. Eu tenho uma musa e que poeta não tem uma? Minha musa, sabedora de que é minha musa, há de sentir o coração palpitar ao ler este meu ensaio sobre as musas. Vai se sentir nas nuvens como eu me sinto. Nossos corações distantes vão se encontrar lá, naquele espaço etéreo e inalcançável que a poesia criou para este estado idílico.


As musas sabem dizer a Alétheia (verdade) e a Ápate (engano) que se assemelham, confundindo-se, mesmo, uma com a outra. Muitos poetas se referem ao enigmático olhar da musa, o misterioso semblante, se perguntam quais seus mais recônditos pensamentos e o mais poético é imaginar respostas fantasiosas que se afastam dos reais e indevassáveis pensamentos. Ser poeta não é profissão, mas estado de espírito. Não se é poeta, mas se está poeta. A poesia é um encantamento provisório que nos enfeitiça. Muitas vezes fui curado deste vírus que nos contagia e nos poros respiram palavras. Mas a musa é sempre centro da poesia. Não há poeta sem musa. A musa, dizem uns, é qualquer coisa que inspira o poeta. Pode ser o Sol ou a Lua, o mar ou os rios, as flores ou as árvores. Mas não concordo com esta versão. A musa é alguma entidade sobrenatural, ou terrena. Muitos pensaram que a musa se dissolveria ao contato físico, qual um éter.


Mas toda esta teoria se desfaz e se perde ao simples olhar da musa. Quando estou diante da musa, restam ela, eu, ela de novo e a poesia.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

O poeta e o romancista

Eram dois amigos. Conheceram-se ainda infantes. Um sonhava voar no mundo da poesia, o outro, caminhar de pés descalços o mundo dos romances.

O poeta tinha sonhos de ser famoso, reconhecido pela crítica e pelo público, enfim, ser bem sucedido. O romancista não se preocupava com isso. Queria escrever seus pensares, colocar o seu viver, sua experiência, suas sensações. Não se preocupava muito com o que diziam.

Eles eram amigos, tinham obejtivos semelhantes, mas eram de fato opostos. Não que a oposição impedisse de serem amigos, mas, ao par da mútua admiração que se tinham, faziam questão de criticar a visão futura de seus trabalhos. O poeta dizia ao romancista que ele devia escrever alguma coisa mais do agrado dos leitores e o romancista dizia ao poeta que ele deveria expressar tudo o que desejava doesse a quem doesse. A arte literária não pode medir palavras, acrescentava o romancista.

O poeta queria escrever o que as pessoas desejam, queria atender o anseio dos seus leitores, realizar seus sonhos, ser o gênio da garrafa e satisfazer seu anseios. Era feliz quando conseguia. Mas se sentia um fracassado ante a menor crítica. Vagava ao sabor dos ventos, seus escritos singravam pelos mares alheios, errando sem direção por caminhos desconhecidos.

Jamais conseguiu ser ele mesmo. O romancista, mais feliz, desejava apenas escrever seu próprio livro. Ficava insatisfeito também, mas apenas quando o que escrevia não correspondia aos seus anseios e não o contentava. Ficava até mais feliz quando o criticavam, sentia que sua escrita tinha força e isso fazia com quem lesse discordar. A mente se ilumina e reflete sobre si mesma quando se vê frente ao desafio. A mente adormece quando tem seus anseios atendidos.

O poeta ficou famoso. Seus versos vendiam, mas o poema era cada vez menos do poeta e mais dos leitores.

O romancista sofreu críticas pesadas, discordavam de seu métodos, o público ficava perplexo e chocado com seus romances. A fama do poeta foi efêmera. Começou a ficar repetitivo. As pessoas se cansaram dele rapidamente.

O poeta foi ficando triste, de extrovetido que era, passou a ficar ensimesmado e cabisbaixo, pois não conseguia mais atender os anseios do público nem escrever uma coisa original em que revelasse a sua própria alma.

Sua poesia foi virando coisa comum, feita de lugares comuns. O romancista, sem jamais conspurcar sua obra em prol da fama e do sucesso , foi enfim reconhecido. Os leitores, em geral, são maria-vai-com-as-outras, e só sabem avaliar se o que lêem está na moda ou não. Mas sempre acaba aparecendo um bom leitor, que presta muita
atenção ao que se diz. Que sabe reconhecer no passado, que consegue adivinhar o futuro.

O leitor que dá a chance ao escritor de ser ele mesmo e sabe reconhecer a originalidade. E o renomado crítico era um desses leitores. Viu que o romancista escrevera muita coisa especial. Agora seria o seu momento. O romancista, por sua vez, não se deixou iludir por este falso conceito : o sucesso. E esperou alguém reconhecer o que ele mesmo via em sua obra. O sucesso, tal como se propala por aí, não existe, ele bem o sabia. Nem o fracasso. Eles são duas mentiras, e faz bem o criador que não dá bola para eles.

O verdadeiro sucesso é escrever o que se deseja escrever e não o que os outros desejavam que se escrevesse. A vida é muito curta para se ser apenas uma marionete. Para ser de fato é preciso esquecer esses dois vilões que amaldiçoam as artes e viver sua própria vida.


Benno Assmann

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

A Paixão, a crença e a Carne

A Paixão, a crença e a Carne

como se fosse o elemento mais estranho
me invade este
e se interpõe ante meus olhos
é que desejo tanto
(e o desejo é tudo que há em mim)
a fronte bela, os olhos meigos
a doce boca, a língua tonta,
e os lábios ...

(destes nem sei o que dizer)

fruta carnuda e doce esta
em que se veste o meu desejo
o túnel estreito
que me espreita em ânsia louca

encravo o dente firme em tua boca
mordo os lábios e devoro a tua língua
mas entre uma mordida e outra
veste uma lágrima a tua face
será de ventura ou de tristeza ?
segredo mais que inviolável este que escondes!

a candidez dos olhos teus não deixa pista

a lágrima tua
é mais em mim
que diamante
é minha improvável cura

(saúde vale mais que riqueza)

tresloucado e trêmulo
freme meu corpo inteiro

(como a fina haste
do mais pífio arbusto
que ao tufão se enverga
e atônito resiste)

ante a visão dos teus seios
tão duros, excitados e hirtos

o âmbar que reverbera os teus desnudos braços
ai! a gruta úmida e sombria que repousa no vão obscuro
existente entre a alvura sem mácula das tuas coxas!
e nesta vertente do prazer que me acabo

sou este apaixonado ser
este tolo ente
este crente que não crê
e que sente o calor
puro e verdadeiro
(aquele que vem das tuas carnes)


Calvário

entre a cruz
e o pus
desfaz-se o corpo

entre nós e o pós
se estende o morto

sob os pés
os pós
sobre as mãos
os nãos
vislumbra a vista
de cima de um monte
um horizonte
enfim
encontro o sim
e então o fim
da triste sina
a dor da vida
descolorida
a morte é a vacina

na estrada
acima
o Sol que guia
à frente

- o improvável -

deixando atrás
esquecimentos

- é só de saudade o frêmito de meu corpo -

asceta
digo não
à tua boca

lágrimas que o dia
verte em minha face
misturam-se às minhas

tristezas fundidas

O Quadro Negro

a lisa
negra
lousa

o rugoso
e branco
giz

encontram-se
formando
um traçado branco

rompe-se
a escuridão
do quadro-negro
ilumina-se
no estudante
atento a mente
mas só o ranger
estridente e gutural
de embate
desses contrários
desperta
o estudante
adormecido

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Num mercado do oriente

Bernardo enfim realizava seus sonhos.

Formara-se com distinção e já tinha um bom emprego.

Encontrou uma mulher a quem amar e viver a dois. Parecia ser para sempre.

Casamento de cinema. Tinha condições de bancar. Patrícia, a doce Pat, era decidida e dedicada.

A Lua de Mel, feita de mel, vinho e sonhos, adocicaria ainda mais a existência.

Todo aquele esforço não tinha sido em vão.

O destinho escolhido, o oriente médio, as Pirâmides, a esfinge, Petra, Istambul a antiga Bizâncio de Roma, a antiga Constantinopla dos Otomanos. O idílio dos mercados persas.

Certa vez, andando pelas ruas do Cairo, um senhor, encantando pelas formas e o rosto angelical de Pat ofereceu dez camelos por ela. Bernardo, é claro, não aceitou. O sujeito então aumentou a oferta para vinte camelos e duas de suas melhores mulheres. Bernardo pediu para não mais insistir e disse que em sua terra a mulher era considerada gente. O senhor, desconsolado, foi embora, voltando-se ainda uma vez ou outra com o olhar cheio de desejo em Pat.

Num mercado típico do oriente que parecia saído das mil e uma noites, mil tecidos coloridos, mil tapetes (quem sabe alguns até voadores), mil delicias.

Pat olhava uns artesanatos, ele uns tapetes decorados com arabescos intrincados.

Nunca tirava os olhos de Pat, mas distraiu-se por um momento e, quando olhou para onde ela estava, não mais a viu. Perguntou, entre gestos e um inglês que não entediam, se alguém a vira.

Ninguém sabia de nada. Rodou o mercado de cima a baixo, e nada de Pat.

A policia foi taxativa. Ela havia sido sequestrada. Traficantes de mulheres operavam na área. As turistas, especialmente louras e bonitas como na descrição da Pat, eram as preferidas.

O terrível destino que as aguardava era se tornarem escravas dos beduínos, prostituta num porto qualquer ou mesmo servir um sheik imperador de um recanto qualquer do deserto. O mais provável era a manterem constatemente drogada e vender a posse momentânea de seu corpo por um bom preço para o maior número possível de homens. Ela acabaria se acostumando a nova vida e, aí, viciada, teria que vender seu corpo para manter o vicio a que lhe teriam forçado. Poucos anos de vida lhe restariam. Com o corpo avassalado pela droga, pelas doenças venéreas e pelas más condições de higiene, ela não duraria mais do que dois ou três anos, no máximo cinco se fosse forte para suportar. Não haveria como recorrer a ninguém, pois estaria bem longe. Não havia esperança, podiam garantir.

Ele procurou em todos os lugares até ficar sem dinheiro e sem esperança e nunca mais a encontrou. Em toda parte ele via o rosto do homem que lhe oferecera dez camelos. Uma sombra que o acompanhou pelo resto da vida.

O dinheiro acabou, ninguém prestou muita ajuda. O máximo que diziam as autoridades eram palavras de consolo.

Foi assim que terminou sua ventura. Para sempre.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Repouso a fronte no teu farto colo
afago raso teu ventre e então me calo
o calor que evola do túrgido teu vale
faz silente em mim o amâgo e meu talhe
evaporando as lágrimas nas nascentes
faz angélicos meus olhos indecentes
repousa agora o falo saciado
canta a língua trôpega este fado
rompida a noite o dia ainda germina
prorroga em ti o escuro e não termina
o Sol apaga lentamente minhas vãs estrelas
mas o sonho não me impede de ainda vê-las

Benno Assmann

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Poemas Antigos

Rembrandt - Jeremias lamentando a destruição de Jerusalém


-1- Quando eu morrer, não chores

Quando eu morrer

não chores

deixa a última lágrima

que por mim verteres

sobre meu túmulo

diga amém e me esqueça

pois lá no seio da terra

enquanto meu corpo se corrompe

te quero feliz de novo

pois bela és feliz

e tua luz se alimenta

de tua beleza

Não quero que te feches

em teu castelo

e que tua beleza fique escondida

do mundo

Por isto, quando eu morrer, não chores

e enquanto minha carne

devorada pelos vermes

se transmuta em húmus

hei de alimentar as flores

em razão de teus olhos

e quando olhares

as flores do campo

se abrirem coloridas

veja ali apenas

uma homenagem que te presto

por isto, quando eu morrer

não chores


-2- Folha Serena


A folha serena

que cai de seu galho

se desfaz do orvalho

seu brilhante vestido

e nua se atira à sarjeta

sem esmola ou gorjeta.

De verde antes vestia

o teto da aléia

hoje é estranho tapete

de insetos banquete

despedaçada e velha

do relento objeto

sujo, miserável e abjeto

lembrando que todas as coisas

pela morte ou ainda em vida

por memoráveis que sejam

mesmo as que brilham e vicejam

são sempre esquecidas.


-3- Sem Maquiagem Exangue, pálida

e esquálida,

no atáude,

perdida saúde,

reluz a tez,

qual corpo branco

de vela,

extinta a chama,

que a lágrima de cera

percorre

pela última vez.


-4- Escorre o Sol

Escorre o Sol

resplandescente

sobre o mar

e o colorido

que da corola exsuda

as ondas

violentas

de violetas adorna

como a lágrima de amor

que o céu do teu corpo

percorre

e descansa muda

entre as duas ondas

que a junção

de tuas pernas forma.


-5- ABORTO


Olhos úmidos

Seios túrgidos

Ventre seco

história mal começada

já terminada

(era uma vez...)

coração partido

esperança falta

pela promessa de vida

que se desfez

(a pior saudade

é a de quem sequer existiu)

Benno Assmann

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009




o ouro
a prata
e o ferro

o silêncio
a palavra
e o berro

o infinito
a unidade
e o zero

não necessariamente nessa ordem

Benno
Soneto de Shakespeare
Quando eu morrer não chores mais por mim
Do que hás de ouvir triste sino a dobrar
Dizendo ao mundo que eu fugi enfim
Do mundo vil pra com os vermes morar.

E nem relembres, se estes versos leres,
A mão que os escreveu, pois te amo tanto
Que prefiro ver de mim te esqueceres
Do que o lembrar-me te levar ao pranto.

Se leres estas linhas, eu proclamo,
Quando eu, talvez, ao pó tenha voltado,
Nem tentes relembrar como me chamo:

Que fique o amor, como a vida, acabado.
Para que o sábio, olhando a tua dor,
Do amor não ria, depois que eu me for.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

O Destino das Borboletas

Cabe a uma borboleta
desabrochar lindamente
de um casulo que antes fora
uma horrorosa lagarta

Balançando suas asas coloridas
encantar o olhar de toda gente
entre as flores dos campos,
por cachoeiras e cascatas

Viver uma vida tão curta
mas vivê-la intensamente
tal como os gênios e os santos
suas vidas nada pacatas

Depois, despojada da vida
como lhe anunciaram tristemente
os elementos pelos quatro cantos
hirtas e duras suas asas e patas

E ser alimento dos vermes
que atrevidos e inermes
vão germinar no seu fim
as flores que brotam no capim

Benno Assmann
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Soneto - Shakespeare

Quando a hora dobra em triste e tardo toque
E em noite horrenda vejo escoar-se o dia,
Quando vejo esvair-se a violeta, ou que
A prata a preta tempora assedia;

Quando vejo sem folha o tronco antigo
Que ao rebanho estendia a sombra franca
E em feixe atado agora o vejo trigo
Seguir o carro, a barba hirsuta e branca;

Sobre tua beleza então questiono
Que há de sofrer do Tempo a dura prova,
Pois as graças do mundo em abandono

Morrem ao ver nascer a graça nova.
Contra a foice do tempo é vão combate
Salvo a prole, que o enfrenta se te abate.

William Shakespeare

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Uma verdade de luz tênue
de cor adocicada e branda
em mim agora brilha intensamente
pois o passado me ensinou
que o futuro pode ser meu
quando este for presente

(é que ele ainda não tem dono)

o passado é um longo apredizado
que no presente é a semente do futuro
mas entre eles há um grande muro
que impede que ele seja realizado

(este muro pode ser o sonho ou o sono)


pois descobri em minha vida um grande muro
intransponível, obscuro e impenetrável
pois qualquer coisa que se vive intensamente
é esquecimento e a transição fica intratável

pois me atirei nos seus braços com eternidade
sem resquícios de pudores ou cuidados
o ponteiro do tempo parou no esquecimento
o dia e noite agora estão paralisados

para mim o Sol nunca mais voltou a nascer
e, distraído, jamais voltou a se pôr novamente
a Lua tímida e escondida sob as nuvens lamentou
nunca ter sido assim tão feliz como a gente

foi assim que esqueci de todo meu passado
e das dores que lancinaram meus momentos
e agora estou para sempre neste hiato
sem futuras esperanças ou antigos lamentos

sábado, 3 de janeiro de 2009


AS NUVENS

As nuvens, quando flutuam ao sabor do vento tépido das tardes, trazem em seu bojo um mundo, trazem em si as sementes que fazem brotar o universo. Afinal, sua forma indefinida, sua tênue textura, moldada ao sabor e capricho dos ventos, deixa margem a imaginação fazer seu papel, ou seja, preencher os espaços e formas faltantes. Por isto, gosto de observar as nuvens e ver de tudo nelas. Ver a beleza das flores que se espalham nos campos, ver os sorrisos que brotam das faces felizes e ver os teus olhos serenos fitarem o horizonte, perdidos, sonhadores, leves e apaixonados. Fico horas vendo as nuvens que passam na minha janela de formas vadias e vazias que meu pensamento dá forma, conteído, cor e luz e fico orgulhoso do que vejo, pois sei que quando observo uma nuvem, o fundo eu vejo a mim mesmo. São meus pensamentos, meus sentimentos, meus amores que se projetam nas nuvens e cada forma bonita que lá observo no fundo fui eu que criei sobre uma indistinta massa sem peso e flutuante. Quando sinto falta de tuas curvas, dos teus protuberantes seios pontudos, teus cacho que caem sob a macia tez do teu rosto, olho as nuvens para matar a saudade. É nas nuvens que te vejo finalmente te encontrando comigo e é nas nuvens que vejo todos meus sonhos remotos realizados. Não me canso de olhar nas nuvens pois nelas te vejo. Acho que as nuvens são belas por trazerem em si a alma sonhadora dos poetas.

A DOR DO BEIJO

Sofro
quando me beijas
pelo vazio
que a tua língua
entre meus lábios
depois deixa