quarta-feira, 9 de setembro de 2009

O poeta e o romancista

Eram dois amigos. Conheceram-se ainda infantes. Um sonhava voar no mundo da poesia, o outro, caminhar de pés descalços o mundo dos romances.

O poeta tinha sonhos de ser famoso, reconhecido pela crítica e pelo público, enfim, ser bem sucedido. O romancista não se preocupava com isso. Queria escrever seus pensares, colocar o seu viver, sua experiência, suas sensações. Não se preocupava muito com o que diziam.

Eles eram amigos, tinham obejtivos semelhantes, mas eram de fato opostos. Não que a oposição impedisse de serem amigos, mas, ao par da mútua admiração que se tinham, faziam questão de criticar a visão futura de seus trabalhos. O poeta dizia ao romancista que ele devia escrever alguma coisa mais do agrado dos leitores e o romancista dizia ao poeta que ele deveria expressar tudo o que desejava doesse a quem doesse. A arte literária não pode medir palavras, acrescentava o romancista.

O poeta queria escrever o que as pessoas desejam, queria atender o anseio dos seus leitores, realizar seus sonhos, ser o gênio da garrafa e satisfazer seu anseios. Era feliz quando conseguia. Mas se sentia um fracassado ante a menor crítica. Vagava ao sabor dos ventos, seus escritos singravam pelos mares alheios, errando sem direção por caminhos desconhecidos.

Jamais conseguiu ser ele mesmo. O romancista, mais feliz, desejava apenas escrever seu próprio livro. Ficava insatisfeito também, mas apenas quando o que escrevia não correspondia aos seus anseios e não o contentava. Ficava até mais feliz quando o criticavam, sentia que sua escrita tinha força e isso fazia com quem lesse discordar. A mente se ilumina e reflete sobre si mesma quando se vê frente ao desafio. A mente adormece quando tem seus anseios atendidos.

O poeta ficou famoso. Seus versos vendiam, mas o poema era cada vez menos do poeta e mais dos leitores.

O romancista sofreu críticas pesadas, discordavam de seu métodos, o público ficava perplexo e chocado com seus romances. A fama do poeta foi efêmera. Começou a ficar repetitivo. As pessoas se cansaram dele rapidamente.

O poeta foi ficando triste, de extrovetido que era, passou a ficar ensimesmado e cabisbaixo, pois não conseguia mais atender os anseios do público nem escrever uma coisa original em que revelasse a sua própria alma.

Sua poesia foi virando coisa comum, feita de lugares comuns. O romancista, sem jamais conspurcar sua obra em prol da fama e do sucesso , foi enfim reconhecido. Os leitores, em geral, são maria-vai-com-as-outras, e só sabem avaliar se o que lêem está na moda ou não. Mas sempre acaba aparecendo um bom leitor, que presta muita
atenção ao que se diz. Que sabe reconhecer no passado, que consegue adivinhar o futuro.

O leitor que dá a chance ao escritor de ser ele mesmo e sabe reconhecer a originalidade. E o renomado crítico era um desses leitores. Viu que o romancista escrevera muita coisa especial. Agora seria o seu momento. O romancista, por sua vez, não se deixou iludir por este falso conceito : o sucesso. E esperou alguém reconhecer o que ele mesmo via em sua obra. O sucesso, tal como se propala por aí, não existe, ele bem o sabia. Nem o fracasso. Eles são duas mentiras, e faz bem o criador que não dá bola para eles.

O verdadeiro sucesso é escrever o que se deseja escrever e não o que os outros desejavam que se escrevesse. A vida é muito curta para se ser apenas uma marionete. Para ser de fato é preciso esquecer esses dois vilões que amaldiçoam as artes e viver sua própria vida.


Benno Assmann

3 comentários:

Índia disse...

"O romancista não se preocupava com isso. Queria escrever seus pensares, colocar o seu viver, sua experiência, suas sensações. Não se preocupava muito com o que diziam."

Adorei! Me identifico com o que vc escreveu.

Gostei demais da sua estória.

Beijosss

Benno disse...

India.
Bom saber disso. Eu, diferentemente da personagem do conto, me importo ainda menos, pois tenho outra profissão para me dedicar e considero escrever apenas um diversão. Aliás, nem seu muito bem porque escrevo, pois não pretendo ser descoberto, nem mesmo ser lido. Mas muitas vezes fico me perguntando porque o faço e já tenho a resposta: alguém lê, e isso já o bastante.
beijos e obrigado por ser minha assídua leitora.

Ava disse...

"A mente se ilumina e reflete sobre si mesma quando se vê frente ao desafio. A mente adormece quando tem seus anseios atendidos.)

Benno, um intricado emaranhado de palavras...

Voce expõe muito bem a necessidade que temos de críticas... De um olhar que procure nos apontar onde podemos melhorar...

Isso acontece ater em nosso dia-adia...

No trabalho, nas amizades, na familia...

Se não temos uma cobrança, um puxão de orelha, um remprimenda, temos a tal tendência a se acomodar, e achar que está tudo ´timo... Qaundo na verdade, estamos cheios de falhas..

Buscar o melhor de nós mesmo... Assim como o romancista buscava o melhor de seus escritos... Apenas pelo prazer de fazê-lo...não de agradar, ou satisfazer quem quer que seja...

Simplificando, depois de tantas palavras...


Está lindo e verdadeiro...


E eu sei quem é esse romancista... Com certeza! rsrsrss


Beijos e carinhos...

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