segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Repouso a fronte no teu farto colo
afago raso teu ventre e então me calo
o calor que evola do túrgido teu vale
faz silente em mim o amâgo e meu talhe
evaporando as lágrimas nas nascentes
faz angélicos meus olhos indecentes
repousa agora o falo saciado
canta a língua trôpega este fado
rompida a noite o dia ainda germina
prorroga em ti o escuro e não termina
o Sol apaga lentamente minhas vãs estrelas
mas o sonho não me impede de ainda vê-las

Benno Assmann

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Poemas Antigos

Rembrandt - Jeremias lamentando a destruição de Jerusalém


-1- Quando eu morrer, não chores

Quando eu morrer

não chores

deixa a última lágrima

que por mim verteres

sobre meu túmulo

diga amém e me esqueça

pois lá no seio da terra

enquanto meu corpo se corrompe

te quero feliz de novo

pois bela és feliz

e tua luz se alimenta

de tua beleza

Não quero que te feches

em teu castelo

e que tua beleza fique escondida

do mundo

Por isto, quando eu morrer, não chores

e enquanto minha carne

devorada pelos vermes

se transmuta em húmus

hei de alimentar as flores

em razão de teus olhos

e quando olhares

as flores do campo

se abrirem coloridas

veja ali apenas

uma homenagem que te presto

por isto, quando eu morrer

não chores


-2- Folha Serena


A folha serena

que cai de seu galho

se desfaz do orvalho

seu brilhante vestido

e nua se atira à sarjeta

sem esmola ou gorjeta.

De verde antes vestia

o teto da aléia

hoje é estranho tapete

de insetos banquete

despedaçada e velha

do relento objeto

sujo, miserável e abjeto

lembrando que todas as coisas

pela morte ou ainda em vida

por memoráveis que sejam

mesmo as que brilham e vicejam

são sempre esquecidas.


-3- Sem Maquiagem Exangue, pálida

e esquálida,

no atáude,

perdida saúde,

reluz a tez,

qual corpo branco

de vela,

extinta a chama,

que a lágrima de cera

percorre

pela última vez.


-4- Escorre o Sol

Escorre o Sol

resplandescente

sobre o mar

e o colorido

que da corola exsuda

as ondas

violentas

de violetas adorna

como a lágrima de amor

que o céu do teu corpo

percorre

e descansa muda

entre as duas ondas

que a junção

de tuas pernas forma.


-5- ABORTO


Olhos úmidos

Seios túrgidos

Ventre seco

história mal começada

já terminada

(era uma vez...)

coração partido

esperança falta

pela promessa de vida

que se desfez

(a pior saudade

é a de quem sequer existiu)

Benno Assmann

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009




o ouro
a prata
e o ferro

o silêncio
a palavra
e o berro

o infinito
a unidade
e o zero

não necessariamente nessa ordem

Benno
Soneto de Shakespeare
Quando eu morrer não chores mais por mim
Do que hás de ouvir triste sino a dobrar
Dizendo ao mundo que eu fugi enfim
Do mundo vil pra com os vermes morar.

E nem relembres, se estes versos leres,
A mão que os escreveu, pois te amo tanto
Que prefiro ver de mim te esqueceres
Do que o lembrar-me te levar ao pranto.

Se leres estas linhas, eu proclamo,
Quando eu, talvez, ao pó tenha voltado,
Nem tentes relembrar como me chamo:

Que fique o amor, como a vida, acabado.
Para que o sábio, olhando a tua dor,
Do amor não ria, depois que eu me for.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

O Destino das Borboletas

Cabe a uma borboleta
desabrochar lindamente
de um casulo que antes fora
uma horrorosa lagarta

Balançando suas asas coloridas
encantar o olhar de toda gente
entre as flores dos campos,
por cachoeiras e cascatas

Viver uma vida tão curta
mas vivê-la intensamente
tal como os gênios e os santos
suas vidas nada pacatas

Depois, despojada da vida
como lhe anunciaram tristemente
os elementos pelos quatro cantos
hirtas e duras suas asas e patas

E ser alimento dos vermes
que atrevidos e inermes
vão germinar no seu fim
as flores que brotam no capim

Benno Assmann
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Soneto - Shakespeare

Quando a hora dobra em triste e tardo toque
E em noite horrenda vejo escoar-se o dia,
Quando vejo esvair-se a violeta, ou que
A prata a preta tempora assedia;

Quando vejo sem folha o tronco antigo
Que ao rebanho estendia a sombra franca
E em feixe atado agora o vejo trigo
Seguir o carro, a barba hirsuta e branca;

Sobre tua beleza então questiono
Que há de sofrer do Tempo a dura prova,
Pois as graças do mundo em abandono

Morrem ao ver nascer a graça nova.
Contra a foice do tempo é vão combate
Salvo a prole, que o enfrenta se te abate.

William Shakespeare

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Uma verdade de luz tênue
de cor adocicada e branda
em mim agora brilha intensamente
pois o passado me ensinou
que o futuro pode ser meu
quando este for presente

(é que ele ainda não tem dono)

o passado é um longo apredizado
que no presente é a semente do futuro
mas entre eles há um grande muro
que impede que ele seja realizado

(este muro pode ser o sonho ou o sono)


pois descobri em minha vida um grande muro
intransponível, obscuro e impenetrável
pois qualquer coisa que se vive intensamente
é esquecimento e a transição fica intratável

pois me atirei nos seus braços com eternidade
sem resquícios de pudores ou cuidados
o ponteiro do tempo parou no esquecimento
o dia e noite agora estão paralisados

para mim o Sol nunca mais voltou a nascer
e, distraído, jamais voltou a se pôr novamente
a Lua tímida e escondida sob as nuvens lamentou
nunca ter sido assim tão feliz como a gente

foi assim que esqueci de todo meu passado
e das dores que lancinaram meus momentos
e agora estou para sempre neste hiato
sem futuras esperanças ou antigos lamentos

sábado, 3 de janeiro de 2009


AS NUVENS

As nuvens, quando flutuam ao sabor do vento tépido das tardes, trazem em seu bojo um mundo, trazem em si as sementes que fazem brotar o universo. Afinal, sua forma indefinida, sua tênue textura, moldada ao sabor e capricho dos ventos, deixa margem a imaginação fazer seu papel, ou seja, preencher os espaços e formas faltantes. Por isto, gosto de observar as nuvens e ver de tudo nelas. Ver a beleza das flores que se espalham nos campos, ver os sorrisos que brotam das faces felizes e ver os teus olhos serenos fitarem o horizonte, perdidos, sonhadores, leves e apaixonados. Fico horas vendo as nuvens que passam na minha janela de formas vadias e vazias que meu pensamento dá forma, conteído, cor e luz e fico orgulhoso do que vejo, pois sei que quando observo uma nuvem, o fundo eu vejo a mim mesmo. São meus pensamentos, meus sentimentos, meus amores que se projetam nas nuvens e cada forma bonita que lá observo no fundo fui eu que criei sobre uma indistinta massa sem peso e flutuante. Quando sinto falta de tuas curvas, dos teus protuberantes seios pontudos, teus cacho que caem sob a macia tez do teu rosto, olho as nuvens para matar a saudade. É nas nuvens que te vejo finalmente te encontrando comigo e é nas nuvens que vejo todos meus sonhos remotos realizados. Não me canso de olhar nas nuvens pois nelas te vejo. Acho que as nuvens são belas por trazerem em si a alma sonhadora dos poetas.

A DOR DO BEIJO

Sofro
quando me beijas
pelo vazio
que a tua língua
entre meus lábios
depois deixa