segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Lia e as Musas

menina lendo de Berthe Morisot -(1841- 1895)


LIA



Lia não vivia, mas sonhava que vivia somente quando lia. Lia contos, lia a mão, lia romances de montão. Lia lia. Lia a não mais poder e tinha o poder de assim viver a vida que não vivia. E, quando lia, Lia sonhava ser rainha, estrela, puta ou guerrilheira, qualquer coisa que não fosse de verdade e não tinha a sua idade, mas a idade do sonho em que ardia. Lia veio, Lia foi, não disse a que veio, nem para aonde foi. Passou pela vida sem ser, mas foi tudo o que queria.



Benno Assmann


As Musas

As musas são personagens da mitologia grega, e tem sua origem nos poemas homéricos Ilíada e Odisséia. Elas cantavam para os Deuses e faziam parte do séquito de Apolo, o Deus das Artes. As musas são filhas de Zeus e de Mnemosyne, referidas por HESÍODO com as seguintes mágicas e mistérios:


Clio, a musa mágica da História; Euterpe, a musa musical; Talia, a musa da poética cômica; Melpômene, a musa da poética trágica; Terpsícore, a musa dançante e cantante; Erato, a musa da poesia amorosa; Polímnia, a musa da oratória e da poesia sacra; Urânia, a musa dos seres celestes. Calíope, a musa da poesia épica e eloqüente. Outras musas eram adoradas e inspiravam outros poetas, como a popular Melete, para meditar, Menme, para lembrar, Acide, para cantar e compor músicas, sendo o popular herói artístico e lendário Orfeu filho de uma delas.

O que ficou de importante para nós deste passado distante, porém ainda influente, é sua ligação direta com as artes e as ciências, especialmente a poesia. Na realidade a palavra perdeu seu sentido mitológico e hoje é usado na acepção de inspiração. A poesia gira em torno da inspiração, portanto, gira em torno de musas. As musas são seres diáfanos e ambíguos. Não se sabe se amam ou não o poeta que inspiram. Pois o poeta, falando de todos sentimentos, ora a ela se refere como traidora ou como ser lânguido desfalecido em seus braços, capaz de romper o coração do poeta ou fazer revivê-lo, mistura de morte e ressurreição, paixão e desespero, vida e morte.


No prólogo da Teogonia de Hesiodo, A Origem dos Deuses, marcado pela ambigüidade do mito, as musas cantam: "sabemos dizer coisas enganosas, semelhantes à realidade, mas sabemos, também, quando queremos, dizer coisas verídicas". As Musas são amigas da verdade, mas também da mentira, assim como a poesia. Nas palavras de Pessoa, “ o poeta é um fingidor” que “finge que é dor a dor que deveras sente”. Muitas vezes o amor, a paixão, a musa que inspira, são falsas, mas ainda assim inspiram. O poeta canta um amor imginado ou verdadeiro e sua musa existe ou é só imaginação.

O que cabe ao poeta não é dizer verdades, mas imitar as verdades e despertar sentimentos com estas verdades, não importando se os sentimentos doem na alma do poeta, mas que doam na alma do leitor. O poeta faz o leitor lembrar dos amores e sentimentos que teve, ou faz incandescer as emoções que em sua alma já ardiam. Hume já disse ser impossível mentir. Tudo é fruto da experiência e o amor que a poesia mente, quando mente, é inspirado em um amor havido e guardado na lembrança do poeta e dos seus leitores. Nem os seres mais estranhos criados pela imaginação são inteiramente mentirosos, mas recombinações de realidades. Assim são as Hidras e Quimeras e todos os monstros, ou deuses que a imaginação criou.


Eu, como poeta sem sê-lo, preciso me dirigir a alguém e este alguém tem que ser uma musa. Bem bonitinha, de preferência. Beleza do coração. Beleza da razão. Beleza, qualquer beleza. Quando estou falando de olhos, ou de madeixas, ou do perfume, é da musa que falo. E se falo de outra coisa que não a musa, é para musa que falo. Só a musa é poesia. Eu tenho uma musa e que poeta não tem uma? Minha musa, sabedora de que é minha musa, há de sentir o coração palpitar ao ler este meu ensaio sobre as musas. Vai se sentir nas nuvens como eu me sinto. Nossos corações distantes vão se encontrar lá, naquele espaço etéreo e inalcançável que a poesia criou para este estado idílico.


As musas sabem dizer a Alétheia (verdade) e a Ápate (engano) que se assemelham, confundindo-se, mesmo, uma com a outra. Muitos poetas se referem ao enigmático olhar da musa, o misterioso semblante, se perguntam quais seus mais recônditos pensamentos e o mais poético é imaginar respostas fantasiosas que se afastam dos reais e indevassáveis pensamentos. Ser poeta não é profissão, mas estado de espírito. Não se é poeta, mas se está poeta. A poesia é um encantamento provisório que nos enfeitiça. Muitas vezes fui curado deste vírus que nos contagia e nos poros respiram palavras. Mas a musa é sempre centro da poesia. Não há poeta sem musa. A musa, dizem uns, é qualquer coisa que inspira o poeta. Pode ser o Sol ou a Lua, o mar ou os rios, as flores ou as árvores. Mas não concordo com esta versão. A musa é alguma entidade sobrenatural, ou terrena. Muitos pensaram que a musa se dissolveria ao contato físico, qual um éter.


Mas toda esta teoria se desfaz e se perde ao simples olhar da musa. Quando estou diante da musa, restam ela, eu, ela de novo e a poesia.

9 comentários:

Ava disse...

Meu querido amigo...

Isso é um tratato, lindo, sobre mitologia...

E entremeado as palavras ténicas e explicações histórias, está a sua alma...

Essa alma, que até podemos querer desvendar, mas que está cercada de tantos mistérios, como os de suas musas...

E sua Musa, pode e deve, se sentir nas nuvens, ao ler algo assim, que vem carregado de uma energia faiscante...



Tive que ler duas vezes, para conseguir ir ao cerne do texto...rs



Beijos e carinhos!





PS: A quilômentros do polo norte...rsrs

Índia disse...

Benno,

Lia e o amor à leitura, à liberdade de sonhar, de voar, de imaginar. Seus versos parecem cantados. Perfeito!

As Musas - A mitologia tem um encanto, um encantamento, um mistério que nos envolve totalmente. Tenho certeza que vc é descendente direto dessas deusas. Um deus poeta de rimas encantadas.

Sua musa certamente é uma mulher feliz.

Beijosssss

Ava disse...

Voce me fez pensa na Lia o dia todo...rs

A uma forte ligação entre ela e eu... Quaquer dia te conto minha paixão pela leitura, quando e como começou...

"Passau pela vida sem ser, mas foi tudo que queria..."

Só a leitura... só os livros nos proporciona algo tão mágico!



Sobre as musas... Ah... essas musas... Já perdi a conta do tanto que li...
Em cada releitura, uma sensação diferente... Seu texto vai tomando vida, se agigantando... Começa a invadir os sentidos...



Sou assim mesma... exagerada!

Não é atoa que adoro Cazuza...


PS: O principal... Amei esse texto!

Mamis disse...

Enquanto eu lia eu me senti Lia!

Incrível, cada palavra, as musas. Fantástico. bjs

Branca disse...

Sou como a Lia, que lia, lia, lia...mas ainda estou 'passando' pela vida, ainda 'sou'!

Essa musa certamente adora 'ler' vc. Adorei a delicadeza do texto...parabéns por sua sensibilidade!

Ava disse...

Encontrei esse poema sobre Poetas...

Me lembrei de voce...





Sobre um certo coração....

Bate no peito um coração de poeta. Que além de louco é sonhador.
Visualiza cores, estridentes cores onde há neutralidade. Delira por uma aroma que nem no ar está. Confere sabor ao irreal. Idealiza. Fertiliza solos áridos. Irriga imensos vazios. Habita o improvável. Habilita-se sempre ao amor.
Por isso chora quando é para rir. Desarma-se ante um olhar. Gosta sem querer saber. Sente o que não é recomendável.
Ama, ama, ainda que isso doa. Quer, mesmo que seja um solitário querer. Segue por mares revoltos só para se saber vivo. Faz eco com a própria solidão.
É assim.
Vai, deixa-se ir. Chega onde não haverá de chegar. É abstrato, que seja. É abalado, que seja. Permite-se o arriscar.
Avesso a vacinas. Liberto do proteger.
Atirado. Transgressor.
Pede a ser abalado. Quer transpor, cruzar. Raro guardar lição.
É feliz?
Pode ser...
É de todo fascinante..
Corrompe suas próprias regras. Ignora o domínio.
Ama? Mais que é amado...
Livre?
É sem fronteira, terra avulsa, sem bandeira.
Vence?
Luta.... Quase sempre um regresso abatido, mas nunca de todo desistido.
Refaz-se,
Ao tempo...
Tempo de tentar ser apenas um simples coração....


Autora: Roseane

Ava disse...

Um pouco de Cora Coralina para voce...


"Não Sei

Não sei ... se a vida é curta
ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos tem sentido,
se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita.

Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
não seja curta,
nem longa demais
Mas que seja intensa
Verdadeira, pura ...
Enquanto durar.



Cora Coralina"

Vânia Sousa disse...

Olá Brenno,
Quanta alegria em receber sua visita novamente.
A sumida aqui sou eu...rs
E quanto a lembrar-me, impossível seria esquecer.
Maior prazer em ler novamente suas linhas, acho que muitas vezes sou como a Lia que descreveu.
Beijos. Até mais.
Grata surpresa.

J Alexandre Sartorelli disse...

Caro Amigo
Belo texto sobre as musas, nossas insondáveis companheiras na inspiração.
Um forte abraço
Sartorelli
(e claro que já sou um seguidor de seu blog)

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