segunda-feira, 9 de janeiro de 2017


A caverna

A espeleologia é uma ciência que estuda as cavernas e foi fundada por Martel. Edourd Martel era advogado, mas amante da natureza, foi o primeiro a explorar uma caverna sob uma perspectiva espeleológica, tendo explorado pela primeira vez com sucesso as cavernas de Abime Bramabiau e Grotte de Dargilan na França. O termo, entretanto, foi criado depois por Emile Rivière a partir dos termos gregos spelaion (caverna) e logos (palavra) no sentido de descrição das cavernas.

Eu sou estudante na universidade e estou fazendo um curso de espeleologia. O assunto é realmente fascinante, pois as cavernas foram guardam diversos segredos da Terra. Podem conservar formações antigas, vestígios de animais e plantas fossilizadas e também foram habitação dos seres humanos em sua pré-história. É como se fossem verdadeiros baús repletos dos mais reluzentes e variados tesouros.
A atividade biológica forma, ao longo do tempo,  depósitos calcários e estes são soterrados pelos aluviões dos rios, da atividade lacustre e da erosão. Estes depósitos, quando são per-colados por substância ácidas, são dissolvidos e criados espaços vazios no seio da terra. Esta a é origem das cavernas.
Meu professor de espeleologia é muito divertido. Ele fala das cavernas como se elas fossem seres vivos e seu amor pelas cavernas é tão grande que ele as trata como se fossem suas namoradas ou companheiras. Seu nome é Tirso e ele é muito popular entre os alunos, apesar de ser tão estranho. Suas aulas despertam grande interesse entre os alunos e desfruta de certo renome na comunidade acadêmica também, por algumas relevantes e consistentes contribuições à ciência.
Tenho uma amiga chamada Daisy que conheço desde o primeiro grau e que já foi minha vizinha. Ela está matriculada no curso de espeleologia também e gosta das cavernas tanto ou mais do que eu.  Eu sempre fui apaixonado por ela, mas nunca me declarei, pois sempre fui muito tímido. Seus olhos além de inteligentes são de um azul que não se encontra nem nos lagos que dormem esquecidos nos fundos das cavernas.
A pergunta mais frequente que nós, amantes das cavernas, fazemos, é que mistérios as cavernas podem esconder. São mapeadas mais de quatro mil cavernas só aqui no Brasil, mas calcula-se que devam existir oitenta mil, Isto dá uma dimensão do quanto se desconhece ainda sobre as cavernas, apesar de tanto que se tem estudado. A caverna de Mamooth, no estado de Kentucky nos Estados Unidos, é a mais extensa do mundo com seus 640 quilômetros de túneis explorados.
O nosso professor marcou uma excursão para explorar uma caverna próxima. Eu sonho há tempos com isso. As cavernas alimentaram meus sonhos de criança desde o tempo em que li uma adpatação do romance de aventuras Viagem ao Centro da Terra de Julio Verne, em que o famosos geólogo Oto Lidenbrock, junto com seu sobrinho Axel e sua afilhada Grauben, procura repetir os passos do alquimista medieval Arne Saknussem, que deixara um manuscrito encontrado dentro de um livro antigo, descendo ao centro da terra a partir da garganta do vulcão adormecido Sneffels na Islândia e expelido, tempos depois, em uma erupção do vulcão Stromboli na Sicilia.
Porém, apesar dos atrativos e charme, uma excursão para uma caverna pode ser algo bastante perigoso. As cavernas escondem perigos tais como as paredes instáveis e risco de desabamento, animais assustadores, perigosos ou desconhecidos, tais como morcegos, aranhas, escorpiões e  serpentes, e, ainda, pode ser esconderijo de pessoas excluídas da sociedade, tais como assassinos, foragidos da justiça, bandoleiros e outras figuras perniciosas. A gruta dos quarenta ladrões que Aladim, nas Mil e Uma Noites, desafiou violar, é coisa sempre presente no imaginário popular.
O professor nos alertou desses riscos que ele diz serem administráveis até certo ponto, mas as cavernas nunca podem ser totalmente administráveis, pois quase como seres vivos independentes e imprevisíveis. E, lembrava ele, a incerteza, a beleza e o mistério andam sempre de mãos dadas. Assumir o risco é, de certa forma, viver, estar seguro é sempre se internar num túmulo antes da hora.
Começamos os preparativos para explorar a caverna do Diabo, umas das maiores existentes nos arredores.
Muitas lendas se contavam sobre a caverna, que era habitada, que era antiga, que nela existiam animais desconhecidos e ainda contavam histórias de vampiros, de lobisomens, de seres abissais, mortos vivos, gases venenosos e alucinógenos, vestígios de civilizações desaparecidas, túmulos de antigos reis e ancestrais de tribos extintas, cidades enterradas sob toneladas de depósitos piroclásticos e coisas assim, mas um bom cientista não acredita nessas coisas sobre naturais.
Uma das partes mais importantes da exploração de cavernas é o seu planejamento. Isso parece chato e aborrecido, mas é a parte mais importante e que exige conhecimento e técnica. É preciso se cercar de cuidados, tais como providenciar capacetes com lanterna, além de lanternas adicionais e bateria para muitas horas. A caverna é o império da escuridão e não se pode deixar a iluminação de lado. Além disso, por ser um lugar bastante inóspito, é preciso levar água e alimentos abundantes.Um mapa da caverna é extremamente importante para visitar lugares já conhecidos, mas na exploração de uma área desconhecida de uma caverna caverna convém usar uma bússola e levar material para ir construindo um mapa durante a explora. Ressalte-se que o GPS não funciona dentro de uma caverna, pois lá dentro ele não consegue enxergar os satélites que servem de referência. Como também não se enxerga as estrelas, nem o Sol, resta apenas os mapas e a bússola para servir de orientação.
Tudo pronto partimos. Com Tisso sempre à frente e seguido de perto por mim e por Daisy, atravessamos tortuosos caminhos, alguns até bem até bem íngremes, mas todos bem conhecidos e mapeados. Entramos por uma passagem extremamente estreita e entramos num salão extremamente grande com um lago no centro. Contornamos o lago e entramos em outra passagem estreita. Por uma estranha distração, acabamos entrando em passagem que não estava mapeada e, sem querer, começamos a invadir o desconhecido. Já andávamos por esta passagem estreita quando percebemos que esta não era a passagem que pensávamos ser, muito mais curta e que deveria desembocar em um novo salão famoso por suas estalagmites e estalactites douradas e por cascatas de águas esverdeadas que se derramam sobre rochas de cores sanguineas com incrutações violáceas, resultados de antigos depósitos vulcânicos superpostos.
Ao nos darmos conta do equívoco, o professor Tisso juntou a turma e avisou:
- Erramos o caminho e entramos por um túnel não mapeado e isso pode ser muito perigoso, pois não sabemos o que pode haver pela frente; vamos voltar.
Assim que começamos a retroceder, sentimos um tremor seguido por um grande barulho, assemelhado ao de um trovão, vindo do caminho que havíamos passado. Pouco tempo depois, vimos que um abalo sísmico havia fechado nosso caminho. O teto cedera e toneladas de pedra tornavam impossível a nossa volta. Como não tínhamos trazido picaretas e pás, por serem muito pesadas, não tínhamos como desobstruir a passagem.

A única alternativa seria seguir pelo túnel desconhecido, pois havia grande chance de existir interligação com passagens e salões mapeados.
- Vamos pessoal, agora não vai ter jeito, temos que seguir em frente - falou o professor.
 Eu já estava bastante assustado. Por outro lado, a aventura era tanta, que seria uma oportunidade inigualável de explorar o desconhecido, uma aventura emocionante como nunca tivéramos a chance de viver. Por isso, apoiei o professor dizendo:
- Coragem! Vamos seguir em frente, pode ser uma oportunidade de realizarmos uma grande descoberta.
Poderíamos mesmo, pensei cá comigo, dar nomes ao locais futuramente, por termos sido os primeiros exploradores dessas passagens e inscrevermos nossos nomes na eternidade. Andamos muito tempo e, enquanto isso, a passagem ia ficando cada vez mais estreita. A partir de um certo ponto, um ruído de correnteza se ouvia em alguma câmara paralela. Era provavelmente algum rio subterrâneo.
Finalmente tivemos que passar por um túnel tão estreito que só podia passar um por vez agachado, rastejando, pois era muito baixo. Ainda bem que todos estavam em forma.
- Quem se arriscaria a ir primeiro? - perguntou o professor.
Eu, mas do que depressa, me ofereci.
- Eu, professor, pode deixar comigo - falei com a voz altissonante e segura.
Era essa uma oportunidade de mostra minha coragem para Daisy. Corri o olhar pelos seu olhos azuis que brilhavam num misto de medo a admiração. 
Me enchi de coragem, estufei o peito e segui adiante, rastejando em meio às rochas escarpadas e, como merecida recompensa, tive o privilégio de ser o primeiro a admirar uma maravilha totalmente inesperada. Pois ao final desta passagem havia um grande salão que não estava no mapa e tinha uma construção de porte em seu meio. Olhei admirado sem saber se aquilo era um túmulo, uma habitação ou vestígio de uma antiga civilização. Ajudei os outros a atravessarem o túnel estreito e ao vislumbrarem a construção ficaram todos admirados por tão notável descoberta. Investigando melhor a construção, diversos aspectos curiosos e mesmo mórbidos, tais como a inscrições feitas em uma linguagem desconhecida que não era formada nem por ideogramas, nem por hieroglifos, nem por caracteres cuneiformes, acho que nem mesmo Champlion os poderia decifrar, além de diversos desenhos de seres estranhos, muito deles alados e parecendo zumbis, de ossos e de caveiras em profusão decorando as inscrições em extensas molduras filigranadas e  esculpidas nos muros externos e internos do estranho edifício. Bem no cetro da construção, uma colossal tampa cobria um buraco, tudo nos levando a crer que se tratasse de uma tumba antiga. Esta pedra era ornada com figuras estranhas pois de suas cabeças despontavam pontudos chifres. A primeira impressão que tive é de que a tampa cobria o buraco do diabo ou então alguma passagem direta ao inferno de Dante. Parecia ser a tumba do próprio demônio, uma tumba erigida para servir de templo de cultos sinistro de antigas civilizações bárbaras na qual se evocavam as forças malignas a agirem contra os inimigos.
O mais impressionante aconteceu quando o professor esbarrou em uma alavanca sem querer, tendo acionado algum mecanismo automático. Um terrível rangido de engrenagens enferrujadas e sem lubrificação, foi acompanhado pelo movimento lateral da tampa e uma buraco sem fundo começou a
se mover e um gás esverdeado começou a evolar de dentro do abismo negro e este gás
invadiu nossas narinas. O que senti de imediato foi uma espécie de tontura, seguida de um incontrolável medo. Vozes começaram a sussurrar nos meus ouvidos, falando palavras de ódio, ameaças mortais, vozes que, sabíamos mesmo sem entender uma palavra, nos amaldiçoavam. A única coisa que consegui pensar foi em correr dali, indo para o lado oposto de onde tínhamos vindo, os outros, não soube na hora  o porque. Ali, na outra extremidade, um novo túnel, este bem maior nos levou para outra câmara bem menor.
- Salve-se quem puder - gritou o professor, e seguiram todos correndo para a mesma direção.
Enquanto corríamos, as vozes nos seguiam, assim como passos tenebrosos que emitiam rugidos tais que se pareciam trovões. Nesta câmara havia um lago , no qual mergulhei, pois alguma coisa me dizia que era a única forma de escapar e na lateral desde lago avistamos uma luminosidade dentro a água. Era uma passagem que, possivelmente, nos levaria para fora da caverna. Mergulhei e nadei desesperadamente até sair em outro lago de águas iluminadas. Só pensei em subir, pois o ar estava no fim. Saímos em um lago fora da caverna e a céu aberto e nos salvamos todos, já que os outros me seguiam.
- Quando cheguei a margem do lago, só pensei em Daisy, pois me preocupava com sua segurança. Mas ela sabia se virar sozinha e a avistei em segurança. Corri em sua direção e perguntei como estava.
- Estou bem, assustada, é bem verdade, mas  estou bem.
Eu a abracei apertado e senti sua respiração contra meu peito.
Depois disso, acabamos encontrando o caminho de volta para casa, mas nunca mais conseguimos identificar a passagem pela qual entramos na caverna do túmulo, como a batizamos, por mais que tentássemos. Muita gente não acreditou na história, mas não havia razão para termos mentido. Alguns diziam que tínhamos aspirado o gás estupefaciente evolado da rocha que isso havia nos levado a uma alucinação coletiva, mas ainda está bem presente em minhas memórias tudo que vi na escuridão da caverna. Por outro lado, a aventura me ajudou a me aproximar de Daisy, e hoje somos lados da mesma moeda. O professor foi nosso padrinho de casamento.
Parecia que ia tudo bem para todos nós;
Porém, um noite, senti um tremor estranho. E começou a dar tudo errado. No fundo, desde de o inicio eu sabia : Estávamos amaldiçoados.

-FIM - 






quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Levanto da poltrona
tomo uma xícara de café
folheio novamente o livro
a aflição que me toma
não sei bem o que é
(o sabor dos teus lábios ainda adoça minha língua)
é um calor que me toma
é frio que me anoitece
é torpor que me assoma
é um trovão que me estremece
(ribomba em meu peito, o pulsar de tuas veias)
É que tem dias que a gente para
e espera que o mundo pare também
esperando que fugacidade do tempo
diga ao nosso tempo amém
mas a máquina invencível da vida
que em  arrojada flexão se estupora
não para e nos desafia mais uma vez
como o veleiro audaz e  cartaginês
que no fundo da enseada não se ancora
Ah! se eu pudesse
deixar de partir e  segurar enfim
o ponteiro intrépido do e arredio do tempo
e ao meu comando imponente dissesse
- Pare tempo naquele mesmo tempo que ocorreu ainda agora
atendendo minha voz altitruante
congelasse o fluir do universo
no instante incomensurável do encontro de nossas bocas
estrépitas, arreganhadas, caudalosas e ocas.
e eu pudesse perdurar apenas na fugaz ventura
que é a um tempo tanto a enfermidade como a  cura
e nunca chegasse o dia fatídico da separação
do desencanto, do desalento e da dor
pois que só num breve momento
pode perdurar a eternidade do amor
pois nada que em nós germina
sob ondas de adrenalina
a fluir pelas nossas veias
há de jamais vicejar
entre palavras inteiras e meias
pois o tempo que vem  é o que vai
e o que entra pela porta é o que sai
e ele com suas garras possantes
destrói os séculos em instantes
e  sempre erode
mesmo as paredes mais sólidas
e ao mesmo tempo explode
restos de paixões insólitas
paredes que jamais tenhamos construído
paixões que nunca tenhamos sentido

é que foi em vão toda nossa luta
e de nada valeu nossa dupla ser astuta
pois o elo mais sólido que um dia nos amarrou
foi o cadarço frouxo do sapato que desenlaçou
o estreito nó que nos unia pelo coração
era fraco pois que feito de pura separação
é por isso que me prendo a um mero instante
como quem se agarra a um sonho delirante
e lamento tanto o triste avançar dos ponteiros
que inclementes avançam inteiros
segundo a segundo a me empurrar para frente
com seu vagar monótono e intransigente
para longe do momento que fui mais que um folhetim
dissipando o pouco de mim que ainda havia em mim
pois só fui de fato o quanto em ti eu me derramei
se meu  sangue flui  é apenas por que te amei
Mera ilusão, tanto o antes como o depois
um que eu era, um que eu serei, ficam dois



é na verdade tão verde
o verde olhar que há nas matas
por outro lado
laivos rosáceos que do por do Sol se espalham
pelo negrume do mar que anoitece
enquanto nas nuvens o branco vestido de noiva da Lua
e as estrelas companheiras o sonhador que sou agradece
aracnídeo noturno que versos tece por amor a ti
Para que se dizer isso ou aquilo, tipo
onde está o dia? Foi por ali ou por aqui
Ninguém sabe ao certo onde está o dia?
por conta de escuridão que agora reina
Por que dizer isso se se podia dizer muito bem outra coisa
mas o que se disse é apenas o que disse e nunca poderia ser o que não se disse
nem a respeito do dia, nem a respeito da noite
de outra forma, não haveria assunto
e nada haveria a ser dito, ficando vazias as palavras
e brancas as páginas dos livros e brancas capas
tornariam vazias as prateleiras das bibliotecas
será que tudo o que já foi escrito foi em vão e por nada?
ou será que na se disse apenas para se esconder a verdade
ou será que sou eu, apenas eu, que nada entendo

terça-feira, 1 de novembro de 2016

arredio
     etéreo
    fugaz
um gás que infinito me percorre
um canto
    um poema
        uma flor
este amor que por dentro me colore


responda
    por favor
        o que dizer
diante da eterna proeza
do amanhecer de iluminar qualquer dia
silêncio
    não diga
        nada mais
o silêncio é melhor
que e palavra que se diz e que esvazia



amei, porém amei demais
e demais a mais
e por demais de menos
o amor em nada em si
a mim me fora ameno
desfez-se o amor em mim
ao dizer-se o além
aliás o mais velado amém
de amor infinitamente sofri
e  nunca mais sorri
e por ter amado tanto assim
ao amor não mais dissera um sim

(de amor meu coração não basta
a carne miúda a solidão tão vasta)

de amor morri a morte mais dolorida
a dor eternamente comprida
a pena perpétua a ser cumprida
de manhãs tolas e  descoloridas
prometo de eterno amor não mais sofrer
e a falta de amar será o agora meu doer

pois a alma e o corpo morrem de amor
quando o amor termina
mas nesse sofrer infinito

te,,,

amar-te e nada mais além
é tudo e simplesmente que te faço
que queres mais de mim
do que o imenso amor que te dedico?
se o amor é mais
que qualquer outra tanta coisa
se é tudo e no entanto
não te parece tanto
que queres ainda mais
que todo amor que em mim possuo?
porque o amor a me doer
e que é meu ser e conteúdo
não te parece tudo
que mais eu te pudera conceder?
por que me pedes este pedido indecente
e meu amor não te parece suficiente?
se insistes no pedido atroz com que me feres
então, vai, leva meu ser contigo
que isto é tudo que eu consigo
e faça dele o que quiseres

leva contigo e alma e o corpo
pois que um flutua o outro jaz morto
se meu coração já não te basta
vai, leva em paz a mim e me devora
se esta paixão que tanto desarvora
não te parecer tão casta e vasta