Quem diz sempre sim
na verdade diz não
pois o sim infinito é impossível
assim como o amor é sozinho
e o apressado é quase vizinho
do cru e do desencontro
assim como o ódio é a dois
do dia a dia o feijão com arroz
e a represa transbordada dos sentimentos
assim como o dois é sempre um
a soma de todos uns é sempre um
assim como um pode ser três
e o três jamais pode ser mais
Quem diz sempre não
na verdade diz sim
pois o infinito não é a negação do infinito
(o infinito pode ser de saudade
o infinito pode ser de dor
o infinito pode ser de tanto te amar)
assim como a verdade pode ser singela
como o feijão que há de queimar na panela
a fruta verde que pende do galho
o cheiro de cebola, coentro e alho
que vem lá do fundo da cozinha
é assim que a coisa caminha
-x-
O doce é doce, muito doce
mas teus lábios são
o doce do doce
o algodão doce da minha infância
o doce de coco
que alimenta o meu sorriso
é o doce da sobremesa
da refeição que eu preciso
no fim de cada dia
o doce que há na melancia
o doce que é o doce do meu ser
o doce de cada afazer
o doce de cada cocada
que eu vejo no tabuleiro
da baiana da saia rendada
que fica no fim da ladeira
é o doce que há na madeira
o açúcar que edulcora minha emoção
o sal é salgado
mas o sal de tuas lágrimas
é o sal do Sol
o sal que enche de sabor
a carne que como
é o sal do mar
e do amar
o sal da terra
e da serra
que brota na flor
do meu amor
é o sal dos sabores
um vulcão de cores
que mina na ótica
da pele que há nas pétalas
nas batatas e nas féculas
e que germinam
do fundo dos séculos
enchendo meus olhos
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
Como não houve leitores no post anterior, me sinto mais seguro para postar de novo.
-x-
asas da noite
volutas do vento
sombras na lua
a rua deserta
o outro lado da estrada
tudo escuro
eu sozinho
relembrando a história
solidão em pensar-me
solidez da rocha fria
meu corpo deitado na noite
a noite dormindo sobre meu corpo
sob o silêncio da Lua
sobre a gelidez da rua
na escuridão da memória
solitário e ausente
das pessoas amadas
eu lutei bravamente
esta inútil cruzada
vivi semi-morto que semi-vive
um morto-vivo que geme e vive
um zumbi entre os vivos
tenho tudo que preciso
(mas um zumbido no ouvido
perturba o meu pobre juizo)
para fugir dos perigos
e não sofrer lentamente
a dor cruel e pungente
daqueles que estão vivos
agora peço perdão
pelos meus versos insanos
que sem passado ou presente
pelo sim e pelo não
escondi sob panos
o que me foi indiferente
expor-se a dor é amar
o medo de amar é morte
a morte de amor é o medo
morrer meu viver foi meu azar
azar em meu viver foi morrer
a vida é que de fato é sorte
a sorte do fato é que é a vida
a sorte é ainda respirar
respirar a sorte é ainda
resta-me tempo para me salvar
nunca é tarde para recomeçar
o começo é um certo terminar
o fim de tudo é o recomeço do nada
o fim do nada é o recomeço de tudo
o fim do recomeço é o recomeço do fim
o tudo que há em nada é o nada que há em tudo
-x-
asas da noite
volutas do vento
sombras na lua
a rua deserta
o outro lado da estrada
tudo escuro
eu sozinho
relembrando a história
solidão em pensar-me
solidez da rocha fria
meu corpo deitado na noite
a noite dormindo sobre meu corpo
sob o silêncio da Lua
sobre a gelidez da rua
na escuridão da memória
solitário e ausente
das pessoas amadas
eu lutei bravamente
esta inútil cruzada
vivi semi-morto que semi-vive
um morto-vivo que geme e vive
um zumbi entre os vivos
tenho tudo que preciso
(mas um zumbido no ouvido
perturba o meu pobre juizo)
para fugir dos perigos
e não sofrer lentamente
a dor cruel e pungente
daqueles que estão vivos
agora peço perdão
pelos meus versos insanos
que sem passado ou presente
pelo sim e pelo não
escondi sob panos
o que me foi indiferente
expor-se a dor é amar
o medo de amar é morte
a morte de amor é o medo
morrer meu viver foi meu azar
azar em meu viver foi morrer
a vida é que de fato é sorte
a sorte do fato é que é a vida
a sorte é ainda respirar
respirar a sorte é ainda
resta-me tempo para me salvar
nunca é tarde para recomeçar
o começo é um certo terminar
o fim de tudo é o recomeço do nada
o fim do nada é o recomeço de tudo
o fim do recomeço é o recomeço do fim
o tudo que há em nada é o nada que há em tudo
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
Senhor Pintor
Por que queres imitar o mundo
se tendes coração e olhos
e o mundo formas e cores?
Ah, sim, entendo
Não queres imitar
mas sobre tela
como eu ao escrever na folha em branco
reinventar o mundo
Por que queres imitar o mundo
se tendes coração e olhos
e o mundo formas e cores?
Ah, sim, entendo
Não queres imitar
mas sobre tela
como eu ao escrever na folha em branco
reinventar o mundo
-x-
“Dois homens olharam através das grades de uma prisão. Um viu a lama; o outro, as estrelas” (Santo Agostinho)
Um homem dormia num determinado canto do planeta. Chovia à cântaros. Enquanto isso, seu antípoda do outro lado da Terra estava acordado. Fazia um belo dia. O Sol refulgias esplendoroso no céu. Dois homens, dois destinos. Um deles sonhava, o outro vivia. Um era feliz, outro triste. Um amava, mas não era amado. O outro era amado, mas não amava. Um estava desempregado o outro trabalhava demais e por isso andava cansado. Um chorava. o outro sorria. Um gozava de plena saúde. O outro andava meio adoentado.
Um dia, eles iam se encontrar e a sorte deles se inverteriam. O mundo gira e, volta e meia, vira de ponta cabeça. Não há porque desesperar. Não há porque só ver a lama. Há tantas estrelas por despontar no céu. Há tantos céus por clarear nos planetas. A lama é só um detalhe. Os charcos e os pântanos também. Sem falar nos brejos. Mas só importa o Sol, a estrela mais próxima.
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