sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Poemas Antigos

Rembrandt - Jeremias lamentando a destruição de Jerusalém


-1- Quando eu morrer, não chores

Quando eu morrer

não chores

deixa a última lágrima

que por mim verteres

sobre meu túmulo

diga amém e me esqueça

pois lá no seio da terra

enquanto meu corpo se corrompe

te quero feliz de novo

pois bela és feliz

e tua luz se alimenta

de tua beleza

Não quero que te feches

em teu castelo

e que tua beleza fique escondida

do mundo

Por isto, quando eu morrer, não chores

e enquanto minha carne

devorada pelos vermes

se transmuta em húmus

hei de alimentar as flores

em razão de teus olhos

e quando olhares

as flores do campo

se abrirem coloridas

veja ali apenas

uma homenagem que te presto

por isto, quando eu morrer

não chores


-2- Folha Serena


A folha serena

que cai de seu galho

se desfaz do orvalho

seu brilhante vestido

e nua se atira à sarjeta

sem esmola ou gorjeta.

De verde antes vestia

o teto da aléia

hoje é estranho tapete

de insetos banquete

despedaçada e velha

do relento objeto

sujo, miserável e abjeto

lembrando que todas as coisas

pela morte ou ainda em vida

por memoráveis que sejam

mesmo as que brilham e vicejam

são sempre esquecidas.


-3- Sem Maquiagem Exangue, pálida

e esquálida,

no atáude,

perdida saúde,

reluz a tez,

qual corpo branco

de vela,

extinta a chama,

que a lágrima de cera

percorre

pela última vez.


-4- Escorre o Sol

Escorre o Sol

resplandescente

sobre o mar

e o colorido

que da corola exsuda

as ondas

violentas

de violetas adorna

como a lágrima de amor

que o céu do teu corpo

percorre

e descansa muda

entre as duas ondas

que a junção

de tuas pernas forma.


-5- ABORTO


Olhos úmidos

Seios túrgidos

Ventre seco

história mal começada

já terminada

(era uma vez...)

coração partido

esperança falta

pela promessa de vida

que se desfez

(a pior saudade

é a de quem sequer existiu)

Benno Assmann

4 comentários:

A Itinerante - Neiva disse...

Benno!!!

Ah... Gostei tanto, tanto, tanto do poema que escreveu para meu aniversário!!!

Que nossa amizade seja sempre assim como vê: um clarão de luz afastando todas as trevas.

Obrigada. Conhecer você foi uma das coisas bacanas que a net me proporcionou.

Adorei também que tenha postado alguns de seus poemas antigos. Li todos e gostei de todos, mas mais de que todos, gostei do Escorre o Sol. Pareceu-me ver o sol refletido no mar, tal a riqueza poética empregada.

Beijos cheios de carinho.

Índia disse...

Seu presente pra Neiva foi um encanto, como tudo que vc faz.

Li os poemas, um mais lindo que o outro. Como a Neiva, gostei mais do "Escorre o Sol", vislumbrei um lindo dia.

Beijão e um ótimo fim de semana.

A Itinerante - Neiva disse...

Querido,

Pasando para dizer um oi. Saudades. Beijos

mariza disse...

lindos todos, Benno. nem o mote fúnebre da morte retira a beleza dos poemas.
beijos

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