quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Eu não sei se foram os olhos profundos, o toque da pele, a textura da cútis ou seu cheiro que me seduziram. Talvez tenha sido o conjunto da obra.
Os seus olhos, de um negro absurdo, redondos, gigantes, hipnóticos, aveludados, neles vislumbrei a síntese dos tempos e, como num poço sem fim, mergulhei para sempre e ainda estou caindo.
O contato da pele, a um simples primeiro contato,  me arrepiou. A textura da cútis parecia uma continuidade de mim.
Certamente, aquele tecido em que deitei meu corpo me foi concedido por encomenda. Literalmente rolei pelos seus meandros senti a sua extensão como uma verdadeira conquista, como aquela dos navegantes que ousaram e tomaram para si o Novo Mundo. O cheiro há de restar para sempre em minha memória. Vivo os dias em sua lembrança, inebriado, bêbado e enlouquecido.
Enquanto tirava sua roupa, cada peça por vez e lentamente, foi esculpindo em mim uma ereção universal. Ela tinha um jeito de se despir descortinando aos poucos um espetáculo escondido que era seu corpo.
E aí então fui todo língua e dedos. Re-esculpi inteiramente o contorno do seu corpo com o cinzel agudo e escarlate de minha língua. Escalei o cume ereto de seu seio, lentamente, como que fingindo ser difícil a escalada, mas não era. A única dificuldade era como a do desvendar de um mistério. E quando a penetrei, não havia mais eu ou ela, pois nos fundimos e viramos um só corpo, uma só emoção. Meu coração pulsava compassado com o seu coração. E nos desvencilhamos do nosso passado, para sermos só o presente dos nossos corpos interpenetrados, na língua, no sexo, na emoção e nos poros.
E eu explodi e ela explodiu. Explodimos ao mesmo tempo como um Vulcão grandioso que irrompe sobre si mesmo. Derramei minhas lavas quentes em seu vale. A partir daí, fomos um e mesmo sempre.

-x-

ai, quem dera. nossos corpos
bailassem encantados
numa dobra
do continuo espaço-tempo
e assim
neste hiato
enfim pudessem
vencerem incólumes
as muralhas
do tempo e da distância
e se fundissem
e se embalassem
e se enrolassem
mutuamente abraçados
e se fundissem nossas belezas
numa só e única beleza
num só verbo e substância
e que o meu rosto em teu rosto
o meu corpo em teu corpo
minha pele em tua pele
minha boca em tua boca
se mesclassem num só corpo
numa só boca, num só rosto e numa só pele
e eu já nem soubesse
onde termina meu braço
onde começa teu colo
onde começa tua lingua
onde termina meu peito
ai, quem dera
fossemos únicos e mesmos
e fossemos dois em um enfim

-x-

Outro dia, escutando rádio, coisa que não fazia há tempos, pude relembrar um samba que eu gostava muito quando era jovem. E ainda gosto, posso dizer.
Andava meio esquecido, mas como pude esquecer. Ela fala de coisas muito bonitas, que já eram bonitas naquele tempo em que eu era jovem, imagina agora, que já morreram em mim, os
sonhos de menino e já se foi meu pai? Pois ele fala justamente disso, dessas coisas que só a idade faz entender, mas que eu já entendia naquele tempo.

Para ouvir é só procurar no youtube ou ir ao endereço www.youtube.com/watch?v=Xm7VJMtZdZY‎

Mesmo que não goste de samba, não pode deixar de gostar de algo como "...pois me beijaram a boca e me tornei poeta..."

Espelho

Autor : João Nogueira

Nascido no subúrbio nos melhores dias
Com votos da família de vida feliz
Andar e pilotar um pássaro de aço
Sonhava ao fim do dia ao me descer cansaço
Com as fardas mais bonitas desse meu país
O pai de anel no dedo e dedo na viola
Sorria e parecia mesmo ser feliz

Eh, vida boa
Quanto tempo faz
Que felicidade!
E que vontade de tocar viola de verdade
E de fazer canções como as que fez meu pai (Bis)

Num dia de tristeza me faltou o velho
E falta lhe confesso que ainda hoje faz
E me abracei na bola e pensei ser um dia
Um craque da pelota ao me tornar rapaz
Um dia chutei mal e machuquei o dedo
E sem ter mais o velho pra tirar o medo
Foi mais uma vontade que ficou pra trás

Eh, vida à toa
Vai no tempo vai
E eu sem ter maldade
Na inocência de criança de tão pouca idade
Troquei de mal com Deus por me levar meu pai (Bis)

E assim crescendo eu fui me criando sozinho
Aprendendo na rua, na escola e no lar
Um dia eu me tornei o bambambã da esquina
Em toda brincadeira, em briga, em namorar
Até que um dia eu tive que largar o estudo
E trabalhar na rua sustentando tudo
Assim sem perceber eu era adulto já

Eh, vida voa
Vai no tempo, vai
Ai, mas que saudade
Mas eu sei que lá no céu o velho tem vaidade
E orgulho de seu filho ser igual seu pai
Pois me beijaram a boca e me tornei poeta
Mas tão habituado com o adverso
Eu temo se um dia me machuca o verso
E o meu medo maior é o espelho se quebrar (Bis)

5 comentários:

ᄊム尺goん disse...

[morada boa aqui onde os desejos não se calam perante o que sente
e voam mesmo sem rede para lá do horizonte....]

beij0

Ana Carla disse...

Ui! Hoje a coisa está quente pra todo lado!

Ana Carla disse...

Fui ouvir o João Nogueira. Que delícia pra começar o final de semana! Obrigada pela dica!

Patrícia Pinna disse...

Boa noite, Benno. Você escreve muito bem, não preciso acrescentar tanto às metáforas do teu texto impecável, apenas dizer o quanto havia amor na relação dos seres amados, que fizeram-se um ao invés de dois, que deixaram a emoção fluir e falar com a essência da alma.
Parabéns!
Excelente semana de paz!
Beijos na alma.

Vera Lúcia disse...

Olá Benno,

Eu, de volta-rsrs.
Muito linda e intensa a sensualidade do primeiro texto.
O segundo eu achei delicioso. Desejo que nasce de seres apaixonados.
Também já havia me esquecido deste delicioso samba do João Nogueira. Fui lá curti-lo. Ele tem uma linda letra e também me remete à perda do meu pai.

Beijo.

PS: Parece que as dores que se sofre em silêncio ficam maiores do que são efetivamente. De alguma forma temos que tentar exorcizá-las.

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