domingo, 3 de julho de 2016

Encontro fatal

Dalva era solteira. Já com trinta anos, nunca fora atraente. Isso não a impedia de sonhar os beijos ardentes e úmidos de um príncipe encantador qualquer que por acaso lhe aparecesse.
Ronildo era um inveterado assassino de mulheres solteironas. Ele se aproximava especialmente das solteironas sem encanto e se aproveitava de sua fragilidade, jogando sua irresistível boa conversa e as envolvendo com facilidade.
Cada um vivera sua vida de forma apartada.
Pois não é que Ronildo entrou na vida de Dalva, para a infelicidade de ambos.
Ela nem bebia, mas certa noite, não se sabe muito bem porque, mas, enfim, essas são coisas do destino, este falastrão cômico e brincalhão pois  vive nos aplicando peças, resolveu tomar uma cervejinha no bar.
Quem dera tivesse sido só uma, mas uma primeira cerveja chama uma segunda e esta uma terceira e eis que resta o coração desprotegido e, então, as já frágeis resistências se afrouxam.
Acompanhando, com olhos ávidos e gananciosos, Ronildo já urdia seu plano sinistro.
Quando os olhos de Dalva passearam, distraídos, sobre os seus, ele sorriu seu melhor e mais sedutor sorriso e piscou levemente um dos olhos. Ela, bastante desacostumada a ser alvo de paqueras, logo se encantou. Não era para menos. Ronildo era bonito e simpático, seu olhos transmitiam infinita segurança de si mesmos, um indício perigoso, mas extremamente sedutores às mulheres, ainda mais quando estão carentes.
Começaram a conversar e, em pouco tempo, pareciam se conhecer há muito tempo. Ficaram logo íntimos, amigos e não demorou muito para Dalva estar caidinha de amores pelo seu nefasto namorado. 
Começaram a se encontrar regularmente e, enfim, chegou o dia do casório. Ela tinha suas posses, um renda garantida, além de trabalhar como professora de História na universidade. Além do apartamento, ela possuía quatro lotes de terreno no subúrbio e uma chácara na região serrana, frutos de uma herança.
Não havia passado um mês e ela começou a desconfiar. Em especial de sua atividade. Ele dizia ser representante de aparelhos para surdez. Mas ela nunca viu ele abrir sua valise, sempre trancada. O que ele fazia o dia todo? - perguntava-se Dalva. Ele dizia visitar médicos fonoaudiólogos, fazer apresentações do funcionamento dos aparelhos, dar manutenção nos aparelhos. Haviam poucos fonoaudiólogos na cidade e ela nunca o viu receber nada pelo correio. Estranho, muito estranho.
Um dia, ela aproveitou uma de suas muitas ausências e resolveu procurar a polícia.
Detetive Leverton é experiente e tem renome. Já foram vários casos por ele deslindados. Dentro os quais o célebre caso da testemunha arrependida que recentemente ocupou as manchetes dos jornais Ele ficou encarregado de saber mais sobre Ronildo. Com a foto e o nome ele enviou consultas aos banco de dados das mais diversas delegacias, estendendo sua consulta a uma área de vasta abrangência.
Enquanto isso, Ronildo planejava o "acidente" do qual Dalva seria vítima. Fora com acidentes forjados que se livrara das mais de dez esposas que já tivera Nenhuma delas sequer desconfiara de Ronildo o que facilitou bastante os seus planos. Uma delas caiu da escada, outra foi eletrocutada, outra ainda caiu do décimo andar de um prédio tentando limpar uma mancha do lado de fora da janela. O acidente de carro forjado foi outra alternativa utilizada. Mas, dessa vez, pois ele gostava de variar para não criar um padrão que pudesse ser rastreado, ele queria utilizar o artificio da sufocação por esgasgamento.  A idéia seria pegar ela de surpresa e causar o sufocamento com um travesseiro e depois emular o engasgue introduzindo um pedaço de alimento em sua traquéia.
Enquanto isso, o detetive Leverton recebia informações sobre o suspeito. Ele havia se envolvido em mais de um caso com a policia. Fotos mostravam que era a mesma pessoa, mas com identidades variadas. Temendo por Dalva, o detetive contactou policiais para deterem o sujeito. A força policial chegou a casa de Dalva, pouco tempo depois de sua morte, mas a tempo de prender o finório, que desta vez se deu mal.

Foi assim que do encontro fez o desencontro, que da junção dos corpos e das intenções opostas partiram as almas cada qual para o seu lado.
Ora, não fique triste. Nem sempre as histórias acabam bem. Esta acabou meio mal e meio bem, e, portanto, não tão mal assim.

1 comentários:

Vera Lúcia disse...

Olá Benno,

Tudo bem com você? Pensei que não retornaria mais. Dizem que a blogosfera é um vício. Veremos!rsrs.
O conto está mais para a vida real do que fictícia. Pelo menos, nos filmes de suspense, a polícia chega a tempo ou, na pior das hipóteses, quando algum mocinho, por si só, já foi o herói da mocinha.
Gostei de ler.

Abraço.

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