segunda-feira, 28 de outubro de 2013


a lâmina cortante
deste seu pungente olhar

(e o mar.. e o mar ! e o mar?
tsunami que varreu o meu andar
e também a praia e a serra
será que o terremoto é a terra que berra?
berra também meu coração por tanto lhe amar)

o gume agudo e ávido
destes seus fartos seios

(e os meios? e os meios! e os meios
mútuas extremidades
pelos quais meus veios
se arrepiam e se partem ao meio)

a ferida ampla e escarlate
da voluptuosa boca

(tão oca.. tão oca! tão oca
de hipotéticos beijos, de apopléticos desejos
tão quentes e duradouros que lhe queimariam a alma
boca de falar amargo mas de lábios doces
boca oca desta língua dura, sádica, sarcástica
que se pudesse, lhe perturbaria a calma)

eis enfim, a fenda escura e úmida
deste seu desejo

(fenda por onde adentro
em você, que aflita, grita! e grita!
fenda pela qual desapareço
caindo por uma vertente infinita)

todos elementos que lhe constituem
cortam, penetram, sangram e fluem
e me fazem me perder
ebulir e então ferver
como num vulcão
numa imensa escuridão
um breu, azeviche e fumaça de caminhão
é estrupício e  puro cesão,
é pura emoção,
que é pura pureza
e também pura impureza


e dormem ardentes
nos meus sonhos mais profundos
retratos diapositivos
dos meus antros mais imundos
aparecem e somem
e cintilam por segundos
ardem na chama intensa
dos desejos mais secretos
são a ponte balouçante e pensa
dos segredos mais discretos




quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Eu não sei se foram os olhos profundos, o toque da pele, a textura da cútis ou seu cheiro que me seduziram. Talvez tenha sido o conjunto da obra.
Os seus olhos, de um negro absurdo, redondos, gigantes, hipnóticos, aveludados, neles vislumbrei a síntese dos tempos e, como num poço sem fim, mergulhei para sempre e ainda estou caindo.
O contato da pele, a um simples primeiro contato,  me arrepiou. A textura da cútis parecia uma continuidade de mim.
Certamente, aquele tecido em que deitei meu corpo me foi concedido por encomenda. Literalmente rolei pelos seus meandros senti a sua extensão como uma verdadeira conquista, como aquela dos navegantes que ousaram e tomaram para si o Novo Mundo. O cheiro há de restar para sempre em minha memória. Vivo os dias em sua lembrança, inebriado, bêbado e enlouquecido.
Enquanto tirava sua roupa, cada peça por vez e lentamente, foi esculpindo em mim uma ereção universal. Ela tinha um jeito de se despir descortinando aos poucos um espetáculo escondido que era seu corpo.
E aí então fui todo língua e dedos. Re-esculpi inteiramente o contorno do seu corpo com o cinzel agudo e escarlate de minha língua. Escalei o cume ereto de seu seio, lentamente, como que fingindo ser difícil a escalada, mas não era. A única dificuldade era como a do desvendar de um mistério. E quando a penetrei, não havia mais eu ou ela, pois nos fundimos e viramos um só corpo, uma só emoção. Meu coração pulsava compassado com o seu coração. E nos desvencilhamos do nosso passado, para sermos só o presente dos nossos corpos interpenetrados, na língua, no sexo, na emoção e nos poros.
E eu explodi e ela explodiu. Explodimos ao mesmo tempo como um Vulcão grandioso que irrompe sobre si mesmo. Derramei minhas lavas quentes em seu vale. A partir daí, fomos um e mesmo sempre.

-x-

ai, quem dera. nossos corpos
bailassem encantados
numa dobra
do continuo espaço-tempo
e assim
neste hiato
enfim pudessem
vencerem incólumes
as muralhas
do tempo e da distância
e se fundissem
e se embalassem
e se enrolassem
mutuamente abraçados
e se fundissem nossas belezas
numa só e única beleza
num só verbo e substância
e que o meu rosto em teu rosto
o meu corpo em teu corpo
minha pele em tua pele
minha boca em tua boca
se mesclassem num só corpo
numa só boca, num só rosto e numa só pele
e eu já nem soubesse
onde termina meu braço
onde começa teu colo
onde começa tua lingua
onde termina meu peito
ai, quem dera
fossemos únicos e mesmos
e fossemos dois em um enfim

-x-

Outro dia, escutando rádio, coisa que não fazia há tempos, pude relembrar um samba que eu gostava muito quando era jovem. E ainda gosto, posso dizer.
Andava meio esquecido, mas como pude esquecer. Ela fala de coisas muito bonitas, que já eram bonitas naquele tempo em que eu era jovem, imagina agora, que já morreram em mim, os
sonhos de menino e já se foi meu pai? Pois ele fala justamente disso, dessas coisas que só a idade faz entender, mas que eu já entendia naquele tempo.

Para ouvir é só procurar no youtube ou ir ao endereço www.youtube.com/watch?v=Xm7VJMtZdZY‎

Mesmo que não goste de samba, não pode deixar de gostar de algo como "...pois me beijaram a boca e me tornei poeta..."

Espelho

Autor : João Nogueira

Nascido no subúrbio nos melhores dias
Com votos da família de vida feliz
Andar e pilotar um pássaro de aço
Sonhava ao fim do dia ao me descer cansaço
Com as fardas mais bonitas desse meu país
O pai de anel no dedo e dedo na viola
Sorria e parecia mesmo ser feliz

Eh, vida boa
Quanto tempo faz
Que felicidade!
E que vontade de tocar viola de verdade
E de fazer canções como as que fez meu pai (Bis)

Num dia de tristeza me faltou o velho
E falta lhe confesso que ainda hoje faz
E me abracei na bola e pensei ser um dia
Um craque da pelota ao me tornar rapaz
Um dia chutei mal e machuquei o dedo
E sem ter mais o velho pra tirar o medo
Foi mais uma vontade que ficou pra trás

Eh, vida à toa
Vai no tempo vai
E eu sem ter maldade
Na inocência de criança de tão pouca idade
Troquei de mal com Deus por me levar meu pai (Bis)

E assim crescendo eu fui me criando sozinho
Aprendendo na rua, na escola e no lar
Um dia eu me tornei o bambambã da esquina
Em toda brincadeira, em briga, em namorar
Até que um dia eu tive que largar o estudo
E trabalhar na rua sustentando tudo
Assim sem perceber eu era adulto já

Eh, vida voa
Vai no tempo, vai
Ai, mas que saudade
Mas eu sei que lá no céu o velho tem vaidade
E orgulho de seu filho ser igual seu pai
Pois me beijaram a boca e me tornei poeta
Mas tão habituado com o adverso
Eu temo se um dia me machuca o verso
E o meu medo maior é o espelho se quebrar (Bis)

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Renatinha era dessas mulheres para as quais tudo é temporário. A roupa, o marido, o carro e a casa. Até o filho.
Ela gosta das coisas que os outros têm e logo cansa das suas. Já trocou de marido cinco vezes ... e de filhos também. E todos já tinham dona e ficaram depois ao léu... uns além. Se foram sob as nuvens da tempestade.
Seus momentos eram breves, cintilavam como diamante, mas eram apenas gota d'água que encandece ao ser tocada pela luz do Sol, mas que logo se evapora.
Ela não entendeu que certas coisas são permanentes, especialmente a solidão e foi assim que terminou os seus dias.
Elvira era dessas mulheres para as quais tudo é permanente. Tinha que ser, mas não foram. Ela perdeu o marido, os filhos e tudo o que tinha para Renatinha, que também ficou sem ninguém, assim como todos nós, por não entender a permanente impermanência das coisas, neste ciclo infindável de criação, destruição e perda, solidão e abandono.
Ora, esqueçamos de todos os males e mergulhemos lábios doces em vinho e façamos de conta ser o momento do encontro eterno - sussurram os amantes mutuamente sob os lençóis.

Foi apenas um comentário no blog da Ana, mas talvez tenha sido um pouco mais que isso:

a solução para todos os problemas que não existem é ser como a chuva, que não escolhe onde molhar e todo lugar é lugar para cair

a solução é fazer como o vento, que passa pela fresta das portas sem pedir licença e sai sem perguntar

a solução é ser como a primavera que não escolhe jardim pra florir, colore o mundo por igual, sem fazer distinções

a solução é ser como o mar, que apenas deita placidamente e faz através de seu corpo os continentes distantes se tocar

Desculpem pelo terceiro verso, eu copiei de uma canção que tenho na ponta da língua, mas não recordo o autor... mas que tenho tão aprofundado na alma que sinto como se fosse meu...rs

 Acrescentando
Lembrei... é  uma canção interpretada pelo MPB 4. composta pelo cubano Silvio Rodrigues e traduzida por Miltinho do MPB 4, chamada Por quem merece amor.

A letra abaixo com a passagem que imitei em negrito.

Por Quem Merece Amor


Te perturba esse amor?
Amor de juventude
Meu amor é amor de virtude
Te perturba esse amor?
Sem máscaras por trás
Meu amor é uma arte de paz
Te perturba esse amor?
Amor de humanidade
Meu amor é amor de verdade
Te perturba esse amor?
Com todos ao redor
Meu amor é uma arte maior
Meu amor, minha prenda encantada
Minha eterna morada
Meu espaço sem fim
Meu amor não aceita fronteira
Como a primavera
Não escolhe jardim

Meu amor, não é amor de mercado
Esse amor tão sangrado
Não se tem pra lucrar
Meu amor é tudo quanto tenho
E se eu vendo ou empenho
Para que respi-ra- a- a- ar
¿Te molesta mi amor?
Mi amor de juventud
Y mi amor es un arte en virtud
¿Te molesta mi amor?
Mi amor sin antifaz
Y mi amor es un arte de paz.
¿Te molesta mi amor?
Mi amor de humanidad
Y mi amor es un arte en su edad
¿te molesta mi amor?
Mi amor de surtidor
Y mi amor es un arte mayor
Meu amor, alivia e acalma
É o remédio da alma
Pra quem quer se curar
Meu amor é humilde é singelo
E o destino mais belo
É torná-lo maio- o- o- or
Meu amor, o mais apaixonado
Pelo injustiçado
Pelo mais sofredor
Meu amor abre o peito pra morte
E se entrega pra sorte
Por um tempo melho-o- o- or
Meu amor, esse amor destemido
Arde em fogo infinito
Por quem merece amor...