Tuas pernas
labirinto
: nelas me perdi
teu sexo
absinto
: em que me verti
(ali eu fui todo
bocas e líquidos)
teus seios
: o vale
...
(que o verso aqui se cale)
era o fio de Ariadne
(teu coração
exsudava uma corrente indômita
que me arrastou)
e me levou
a tua boca
eis ,enfim a saída,
e, mirando teus olhos,
(que me olhavam cândidos)
por fim sorri
Há que se perder
antes de se encontrar
(intessante:
os parênteses,
que quase nunca lemos,
dizem o mais importante)
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

ESPERANÇA
A duração breve de nossas vidas proíbe-nos de alimentar uma esperança longa. Os sonhos são distantes, mas a morte está próxima. As esperanças quando projetadas ao futuro inalcançável nos fazem menos esperançosos. As esperanças devem parecer realizáveis e seus frutos saborosos devem parecer estar ao alcance das mãos.
Os frutos nos galhos mais altos parecem mais apetitosos, mas a difícil escalada os amarga. Porém, mesmo nas circunstâncias mais adversas, não percamos a coragem. O que é impossível deve nos parecer facilmente alcançável assim como o que é fácil nos deve parecer difícil de alcançar.
A esperança é a única coisa que pode dar a energia necessária para vencer o invencível. Quando a esperança nos falta, de tudo desistimos e, assim, desistimos de nós mesmos. Abdicar das esperanças e dos sonhos é de certa forma morrer.
Por isto, guarde a esperança: só a esperança não abandona o homem mesmo na hora da morte. Sorte a nossa que a desavisada Pandora, alertada a tempo por Epimeteu, ainda conseguiu conservar na caixa de todos males a desesperança, deixando-nos ainda suportar os outros males que libertara.
Companheira eterna e musa inspiradora, a esperança é a única que fica quando tudo o mais nos abandona. Com quem contar quando, como em Jó, até os amigos nos tivessem abandonado? Eu contaria com estes meus derradeiros amigos: os sonhos. Um sonho é feito de esperança. Se ao menos tivesse Jó sonhado, talvez tivesse resitido à todas as suas inúmeras perdas.
Além disto, a esperança é veloz e voa com asas ligeiras. De reis faz deuses e, de seres menores, faz reis. Só ela faz brotarem os ídolos, os santos e os heróis do seio humilde da terra, pois eles são feitos do mesmo pó dos quais todos viemos, mas foram regados pela benção da mais extremada esperança. Quem chegou ao ápice da glória, o fez pois não deixou morrer os sonhos que o acompanhava desde a infância.
É a esperança que faz povoar a imaginação das crianças de fadas, princesas e cavaleiros. As crianças são os príncipes dos sonhos. Observá-los é aprender a sonhar e sonhar é ser um tanto menino. Que nunca morra o pouco de criança que há em mim.
É a esperança que, ao fervilhar nas mentes imaginosas dos escritores, faz nascer os grandes romances e os poemas mais belos. A poesia e as artes são os frutos mais tentadores da esperança e dos sonhos.
A esperança brota eternamente no peito do homem. É quase inumano não sonhar. E só deixar-se de ser para deixar de sonhar. Mas o ser humano nunca é, mas sempre espera ser feliz. Pois a felicidade, tal como existe na imaginação, é mais bela que a felicidade vivida. Quem ainda não se decepcionou com um sonho concretizado? Diga-me e te mostrarei alguém que não sonha.
Vivemos continuamente em esperanças, e quando alguma nos deixa e nos engana, logo nos deixamos nos enganar por outra. Não podemos viver sem o gostoso engano com que os sonhos nos alimentam. Parece um instinto inato no homem este de sempre viver esperando e a sonhar. Espera-se e se é feliz neste esperar. Se as esperanças nos abandonam, tudo fica triste e sem cor.
É a esperança de que tudo poderá vir a ser melhor que faz com que não abandonemos o barco mesmo quando a ventania o faz fremir e, entre rangidos de tábuas e suspiros, a nau ameaça sossobrar. Que seria de nós se passássemos a pensar que a forma que é o mundo, a luta selvagem em
que se transformou a sobrevivência, fosse a única forma do mundo existir?
É a esperança de que tudo poderá mudar, de que se a semente do amor germinar e o ódio não tiver forças para parasitá-la o mundo poderá vir a
ser melhor que nos faz perseverar e continuar vivendo. A esperança não morre, pois parece claro que tudo está ao alcance das mãos dos homens. Ela é a ponte entre o impossível e o possível. Basta aos homens perceberem que o mundo melhor para todos é melhor para si próprios para começarem a construir esta ponte. A esperança e o sonho são a semente da luta incançável.
A esperança está sempre ao nosso lado. A esperança é que nos introduz na vida. Acalenta o bebê choroso e envolve o menino alegre. Seu brilho mágico entusiasma o moço e não é enterrada com o ancião, pois quando este encerra, cansado, a corrida, planta ainda a esperança sobre o túmulo e ainda faz germinar, da degeneração de suas células, uma flor. Não a abandonemos como não abandonamos a amada que não deixa nunca de estar ao nosso lado, seja na glória, seja no desespero.
Já vi flores nascerem em lugares pedregosos e as coisas mais gentis nascerem das mãos de pessoas de feio rosto, e, ainda, a taça de ouro conquistada pelo pior cavalo nas corridas. Por isto eu ainda tenho esperança. A esperança dos homens é sua razão de viver e morrer.
Só ela pode nos mover na direção da vida e do bem.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

vivo mais quando rio
o rio caudaloso desse riso
que me leva
por lugares onde nunca estive
pois é sonho o riso
e o riso alucinação
o abraço escarlate
dos teus lábios
deixa manchas de baton
e cicatrizes no coração
assim de saudade eu morro
morre úmida a tarde lenta
em lentes embaçadas
vejo o Sol a se por
ponho a mão sobre a tua
imaginária mão
e tenho a súbita impressão
de que és minha
mas logo vejo que não
tudo é sonho e fantasia
só me resta então que eu ria
ou que chore em silêncio
meu sofrido coração
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