quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Ainda lembro bem. Era moço ainda. Olhei bem o que via, mas não vi. Por não entender, errava pelos quatro cantos como um cego.
Agora, passados tantos anos, enfim acordei deste meu sono e entendi o que havia acontecido.
Não eram cores que eu via, era a minha própria mente. Engraçado que hoje, já não consigo enxergá-las. O entendimento acaba nos afastando.
O que é melhor? Estar aqui, como agora, fora de mim, dominando a situação? Ou ser eu mesmo como eu era,  descontrolado, autêntico, e sem ao menos me entender.

-x-

Riscadas em traços desleixados no caderno amarelecido pelo tempo, repousam aquelas
três palavras que jamais deveriam ter sido escritas, pois que só se escreve o que é para ser perene
e o tempo revelou a fugacidade do que parecia ser definitivo. A amargura estampa-se em meu olhar
sempre que este repousa triste sobre a declaração definitiva que revelou-se não mais que volátil.
Em todo meu ser espalha-se a vileza torpe e sombria da desesperança.
Talvez fosse melhor rasgar aquela página que guarda a última lembrança que de ti restou.
Talvez fosse melhor esquecer do que já deve ter sido esquecido por ti faz tempo.
Será que ainda lembras de ter escritos aquelas malditas palavras que, então, me pareciam tão benditas?
Talvez não te ocorra a sofrimento que daquilo ficou.
Olho o espaço vazio que preenche agora o teu lado da cama. Não é mais teu corpo que o preenche, mas a dor da saudade. E na seda macia, não mais teu cheiro, mas a tua falta.
Não sei o que dizer. As lembranças de alegrias que resultaram em tristezas são mais tristes que as lembranças de tristezas que só produziram tristeza, pela promessa que nelas viveu um dia. A promessa velada, a promessa fracassada, o pendão da lágrima que tripudia sobre o sorriso, a vergasta do tempo que desfaz coisas feitas, a prisão deprimente a uma passado que não fez futuro.
Resolvo-me então o picoto em mil pedaços a que me sobrou de tuas letras.

-x-

ai
o passar do tempo
ai
o passar das horas

vai o ponteiro inclemente
no seu lento e irremediável girar
giram lá fora
as nuvens, as sombras, as sobras, as cobras
e aqui dentro o nada em mim a girar
vai o tempo, vão as horas
no ralo do esquecimento a escoar

2 comentários:

Smareis disse...

Pois é Benno, senti falta da tua presença... que bom que apareceu! Disse que anda meio quieto, sem ânimo para escrever... Imagine! Tens o poder das letrinhas... Sabe enfatizar tão bem as palavras que uma completa a outra, coisa de mestre!...
Sobre o texto, cada idade tem seu lance, e seu entendimento. O tempo que tudo transforma, demuda também o nosso humor. O entendimento nos afasta de muitas coisas... E como nos afasta!!!! Autocontrole: Esse é o preço da sabedoria.

Gostei muito da sua postagem... Os escritos mais bonito são de fato os que falam em saudades, lembranças, porque realmente tocam profundamente quem os lês. Assim penso eu. A vida é um círculo de emoções, sentimentos.

Deixo um abraço Benno!

© Piedade Araújo Sol disse...

gostei de todos os textos e também do poema, com uma particularidade de o primeiro texto ser muito do meu agrado.
muito obrigada pela visita e pelos comentário sempre tão gentil.
uma boa semana e um beijo
:)

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