quarta-feira, 7 de maio de 2014

Recuperando alguns textos de posts antigos

Quem seria eu?

Se eu tivesse um olhar
Se eu tivesse uns lábios
Se eu tivesse um corpo
que fossem só meus e me amassem ...

nem que fosse por pouco tempo

mas eu sou quem sou
e não quem eu queria

apenas me olho no espelho
e imagino alguém ao meu lado

mas, qual nada
apenas o vazio
ocupa minhas vizinhanças

Sou um terreno baldio
que restou em meio aos prédios
e das janelas me atiram seus restos

-x-
CREDO

creio
piamente
em tua boca
e no céu
que lá existe

(único céu
que ainda me resta
: o outro
para sempre
jaz perdido)

creio no santo poder
dos teu olhos
sobre meu ser
(dos meus
inconfessáveis pecados
faz be-atos)

sob a luz
que emanas
em meu caminho
tudo é sagrado
mas se na escuridão
de tua lamentada ausência
trevas

(só a luz do teu olhar
acende meus faróis)

creio sobretudo
na divindade
de tua pélvis

(apaixonadamente
ali mergulho
: batismo de sangue)

teus olhos são-me guias
abrem olhos antes cegos
a verdade que mora em teu ser
dissipa nuvens eternas
do contumaz ceticismo
que me anuvia
derrete seu calor
neves sempre brancas do meu gelo

trocaria a eternidade
por um breve momento ao teu lado

e todas as minhas idades
vividas ou ainda por viver

todos beijos que já sonhei
por um único beijo teu

resignar-me-ia até à eterna dor
para ter um breve instante do teu amor 

-x-

LUANA é LUZ


Luana é a Luz da Lua.

Luana na noite, a prata dos olhos ardentes sob a luz da Lua, o prato prateado reflete seu rosto.

Luana ao Luar a pensar em dar seu corpo a qualquer seu súdito. Luana a sonhar que é rainha. Ter os homens aos seus pés submissos aos seus caprichos.

Luana sonha se dama, mas na verdade é piranha, é o prêmio maior de quem a queira, pois Luana é a Lua e andam juntas suas luzes. A luz da Lua, tomada ao Sol, a luz de Luana furtada aos seus sonhos.

Luana na rua, Luana na Lua, Luana é meu sonho e seu sonho é também ser sua a Lua . Luana é luz da inocência, na indecência da noite, na excrescência das ruas, na avidez de escuridão que tem a Lua. Qual queres das duas? A Lua e seu romantismo ou a a falta de decoro de Luana?


O que responde a vida: a morte, pois sua inclemência não perdoa!


Mas Luana é eterna e não morre (e no fundo este é seu desejo). Dá só para quem é especial e ela bem descobriu que todos o são.


Luana é cheia de graça, mas não é de graça, ... bom, é quase isso...


Luana na rua, Luana na noite, ela é minha ou é tua? Luana é nossa assim como o é a Luz da Lua, pois sua luz é democrática e vadia e se projeta igualmente sobre todos.

-x-

Argemira
Toda vez que Argemira tinha uma decepção amorosa, ela fazia um bolo diferente. Descontava na culinária as decepções do coração e o amor que lhe fervia nas veias, o desejo pelo amor desfeito e contrafeito, a poesia desengonçada, esquecida e abandonada ao lado do abajur sobre o criado mudo dos tempos passados, a memória de tudo que poderia ter sido bonito e não foi, jogava tudo isso e muito mais como se fossem ingredientes na massa informe do bolo.
O bolo crescia em tamanho e sabor e todos corriam para provar o bolo de Argemira que era uma delícia. Toda vez que Argemira terminava um caso, o povo fazia fila para esperar o seu bolo do desamor. Ela não comia seus bolos, pois seria amar e sofrer tudo de novo. O bolo servia para ela se livrar das dores, já que estas se desprendiam de Argemira e partiam junto com o amor, ligando-se definitivamente à massa do bolo. Do coração de Argermira para a pança de seus clientes fluíam inesgotáveis os amores vencidos.
Vendia o bolo. Vendia o amor. E ganhava dinheiro com isso, uma banal compensação. Acabou ficando rica de tanto vender bolos e muitos pretendentes apareceram. Uns a amavam de verdade e ela, cansada de amar, os ensinava a fazer um bolo do amor sem esperança que sentiam. Viveu para sempre sozinha. Nunca mais amou, mas seus bolos ficaram famosos e viraram uma franquia famosa e lucrativa.

2 comentários:

ᄊム尺goん disse...

[0 importante é saber que
tudo é um processo
e não um acontecimento....n´h]


...boloterapia??? já fiz. rs


beij0

Maria Emilia Moreira disse...

Olá Benno!
Li os seus textos e na impossibilidade de comentar todos digo que adorei o seu CREDO.Bela musa essa que inspira de forma tão maravilhosa...tanto amor...tanta paixão. Sempre que a saúde mo permitir e o tempo der...virei ler os seus poemas. Abraços.

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