Tudo começou em um frio dia de inverno na cidade de Juvencia, pacata cidade situada no vale do rio Jequinhoá, cravada entre belas montanhas, cercada de florestas, cascatas e lagos. Eu passo minhas férias de inverno nesta remota localidade para descansar do barulho, da fumaça e da multidão da grande cidade. Nada como amanhecer com o canto dos pássaros.
Estava bem friozinho, mas mesmo assim fui dar uma volta pelos arredores do vilarejo. Fui admirar a beleza das florestas que se estendiam plácidas nas paredões vetustos das faldas das montanhas quando, de repente, a luz do Sol incendiou um objeto metálico que descansava em uma dessas pirambeiras verticais. Fiz uma pequena escalada e observei um objeto enterrado. Após escavar por um tempo, percebi se tratar de objeto antigo, coisa que contradizia o brilho intenso com que me chamara a atenção. Uma tampa de cabeça esférica, muito enferrujada, bloqueava através dos séculos o antigo gargalo.
Destemido, como sempre fui, abri a tampa.
Saiu um gás laranja que tinha um cheiro forte de enxofre. Por um momento desmaiei. Quase em seguida, abri os olhos e estava em outro lugar. O gás havia me teletransportado para outro lugar, outro tempo, outra dimensão, sei lá, só sei que era longe. Já havia aquele gigantesco palácio construído no cume de uma portentosa montanha nas páginas do livro de ouro da mitologia. A localidade era Asgard e o palácio era Valhala, onde vivem os deuses imortais dos povos nórdicos.
Ante mim, um discípulo deserdado de Odin estendeu sua gigantesca mão e, na língua ancestral dos escandinavos trovejou as seguintes palavras que entendi automaticamente apesar de não tê-las jamais escutado antes :
Ajoelhe-se ante mim, Torrance, senhor das cachoeiras e dos prados, controlador do ventos e das chuvas que preparam as colheitas!
Você libertou o hálito de Odin que estava preso no mais antigo vaso escandinavo. Ao fazê-lo, reviveu os deuses e semi-deuses de Asgard, que foi soterrada ao fim da guerra dos Titãs.
Como prêmio, irá receber uma benesse para o resto dos seus dias.
Terá o dobro da sorte dos seu inimigos, eles terão em dobro o azar que lhe era destinado.
Diga o nome dos seu inimigos e sua benesse será realizada!
Daí pensei nas pessoas que tinha atravessadas na garganta.
Renilson, que me havia tomado a noiva há anos atrás e tomara também minha promoção, em outra oportunidade.
Rebeca, que me traira com Renilson.
Gotardo era outro a ter me passado a perna, tendo tomado, na confiança, dinheiro emprestado e nunca me pagou.
Pronunciei os três nomes bem alto e ele as repetiu com sua voz de trovoada.
Feito!
Acordei após o desmaio ao lado da garrafa certo de que fora tudo um sonho.
Recolhi a garrafa que descobri, mais tarde, ao consultar um arqueólo, que era provavelmente a lendária garrafa perdida de Torrance usada nos rituais de adoração do Deus escandinavo. Ora, ora, o mesmo nome do sonho, Torrance, teria sido mesmo um sonho?
A partir desse dia, comecei a me sentir muito bem . Começou a dar tudo certo, no amor, nos negócios, em tudo. Uns meses depois soube que Rebeca estava gravemente enferma e, o mais estranho, é que ela, que estava casada com Renilson, me procurou para dizer que eu tinha sido o amor da sua vida, que se arrependia de ter me traído e, agora que sabia que ia em breve morrer, resolveu contar tudo para mim e para Renilson.
Isso fez muito bem ao meu ego, mas não me fez ter pena. Ela tinha sido terrível comigo.
Logo em seguida, soube que o próprio Renilson estava internado. Devido ao baque que teve ao saber que Rebeca estava arrependida de ter ficado com ele e não comigo. Entrou em depressão, passou muitos dias bebendo continuamente, até entrar em coma alcoólico. Teve alta, voltou a beber. Acabou sofrendo um desastre fatal ao bater de frente com uma carreta.
Quando soube da morte acidental por enforcamento de Gotardo durante a prática de parapente, seu esporte de sempre, comecei a me arrepender de ter dito aqueles nomes ao Deus da garrafa.
Mas, seria tudo uma grande coincidência e Torrance era apenas o produto da minha imaginação?
Durante meus sonhos, Torrance aparecia de novo e sempre e me dizia para esquecer da garrafa e apenas curtir o momento de glória de vingança e que não importava que eu tivesse feito por ganância ou sede de vingança. A vida é para se viver do jeito que ela se apresenta, ele sempre completava.
Acabou me convencendo.
sexta-feira, 14 de outubro de 2016
sexta-feira, 9 de setembro de 2016
-I-
para sempre há de ser e será
teu olhar no meu olhar
minhas pernas entre as tuas pernas
sob um só lençol nossos corpos
-II-incompleto
por mais que te escreva e descreva
sempre restará um poema a ser escrito
um enigma a ser decifrado
uma palavra por ser dita
uma lágrima que eu ainda não tenha vertido
ou que não tenha te feito verter
um sorriso que ainda não tenhas me me feito
uma declaração que não ousei
uma ousadia que jamais haverei de declarar
-III-tola vingança
pedaços de mim
espalhados no chão em que pisas
sujam de sangue teus saltos
sem desviar teus passos
-IV-De tantas verdade e mentiras
Sou uma verdade
que um dia me menti
e de tanto repetir
acabei acreditando
és um mentira
que julguei ser verdade
pois só o tempo abre os olhos
velados pela luz
-V- Desencontro
Ela tanto me esperou
que virou pó
dissolveu-se no vento
depôs-se em meu caminho
e sujou meu sapato
(Meu reino por um engraxate)
-VI-
Neste túmulo
muitos sonhos
jazem
enterrados
-VII-
Quero a ventura
de três amanheceres
: o Sol despontando no horizonte
e seu reflexo duplicado
nos teus olhos despertos
VIII- CREDO
creio
piamente
em tua boca
e no céu
que lá existe
(único céu
que ainda me resta
: o outro
para sempre
jaz perdido)
creio no santo poder
dos teu olhos
sobre meu ser
(dos meus
inconfessáveis pecados
faz be-atos)
sob a luz
que emanas
em meu caminho
tudo é sagrado
mas se na escuridão
de tua lamentada ausência
trevas
(só a luz do teu olhar
acende meus faróis)
creio sobretudo
na divindade
de tua pélvis
(apaixonadamente
ali mergulho
: batismo de sangue)
teus olhos são-me guias
abrem olhos antes cegos
a verdade que mora em teu ser
dissipa nuvens eternas
do contumaz ceticismo
que me anuvia
derrete seu calor
neves sempre brancas do meu gelo
trocaria a eternidade
por um breve momento ao teu lado
e todas as minhas idades
vividas ou ainda por viver
todos beijos que já sonhei
por um único beijo teu
resignar-me-ia até à eterna dor
para ter um breve instante do teu amor
-IX-
não há mais flores
em teu sorriso
pois o inverno do tempo
abateu-te na primavera da vida
...em pleno vôo
asas engessadas
pendem inertes em cada lado
de teu corpo
prendem teus braços inermes os remos
nas aleivosias e escolhos do mar
a água cristalina
de teus olhos-lagos secou-te as margens
o que ainda resta de ti
fora um deserto escaldante
o frio congelante das geleiras
o brilho eterno e frio
de estrelas extintas?
-X-
Montanhas
Montanhas entortando o horizonte, entortando o céu que é plano. Deixando curvas nas dobras do mundo, criando vales e torrentes, recortando a terra, derrotando o igual, violando o tédio, violentando a esfera.
Esfera oca cheia de pontas, espinhos, carrapicho. Ali, nas montanhas, é que nascem os rios! E os rios transportam os sedimentos que adubam os solos, Solos com sede de sedimentos. Seres com sede de sentimentos. Eu com sede de ti. Nós com sede uns dos outros. Seres vivos com sede de vida.
Filhos! Resultado da sede que a vida tem de si mesma. Eu amo porque sou um rio com sede de rios, vida com sede de vida, rio e sede da vida, dos peixes, peixe com sede de peixes.
Sorvo cardumes de um só gole. Rios que são serpentes que se estendem nas planícies para tomar Sol.
Montanhas! Saiam da frente do meu Sol. O Sol é meu! O Sol é teu, é nosso.
Mas aqui, nesta parte que estou da Terra, pega uma luz do Sol que vem de uma parte do Sol que é minha, pois se sou dono da luz, sou dono da fonte desta luz. Sou dono de uma parte do Sol! Sol que ilumina montanhas escuras, florestas sombrias. Pelas frestas de tuas copas, floresta, deixas passar um pouco da luz do Sol. Mesmo que seja uma nesga, perdes um pouco de tuas sombras e o Sol perde uma da luz que o consome, mas os seres que te habitam ganham um pouco mais de vida.
Esta estranha relação que tens com o Sol me ensina que quando se perde algo em algum lugar, em algum tempo, necessariamente alguma outra coisa se ganha em algum outro lugar em algum outro tempo.
Não há ganho sem perda, nem perda sem ganho. Isto me faz conter meu desejo de ganho, por não querer provocar uma perda, isto me faz aceitar minhas perdas, pois houve ao mesmo tempo um ganho.
As montanhas desafiam com suas escarpas os alpinistas à escalada. Escalar montanhas, subir degraus, este nosso destino. Somos todos alpinistas. Havia uma montanha que nunca um alpinista ousara escalar. Mas aquele alpinista, ah, aquele alpinista, ousou. Suas chances de voltar eram mínimas, mas o que não é arriscado? Contra tudo, contra todos ele ousou. E fracassou na primeira tentativa, mas, depois daquele fracasso, ficou mais fácil escalar montanhas que antes eram difíceis.
Quem tenta o inalcançável pode conquistar outras coisas. Mas, se pensam que ele desistiu da escalada, estão enganados. Aquela montanha era a montanha da sua vida. Por nada deixaria escapar aquela conquista. Nem que fosse à custa de ossos quebrados ou da vida.
Se ele não tentasse de que valeria a vida. E errar não era problema. Ele errara outras vezes, nem por isto desistira, nem por isto se sentira derrotado. Haveria de chegar o momento da definitiva conquista. E ele tudo fazia, tudo conseguia, por ter um propósito.
Por isto mesmo nem vou dizer se ele conseguiu escalar ou não a montanha da sua vida. Nestas histórias vale mais a luta do que a conquista. Vencedor é aquele que enfrenta suas montanhas, não aqueles que a conquistam. A grande conquista é a conquista de si mesmo.
para sempre há de ser e será
teu olhar no meu olhar
minhas pernas entre as tuas pernas
sob um só lençol nossos corpos
-II-incompleto
por mais que te escreva e descreva
sempre restará um poema a ser escrito
um enigma a ser decifrado
uma palavra por ser dita
uma lágrima que eu ainda não tenha vertido
ou que não tenha te feito verter
um sorriso que ainda não tenhas me me feito
uma declaração que não ousei
uma ousadia que jamais haverei de declarar
-III-tola vingança
pedaços de mim
espalhados no chão em que pisas
sujam de sangue teus saltos
sem desviar teus passos
-IV-De tantas verdade e mentiras
Sou uma verdade
que um dia me menti
e de tanto repetir
acabei acreditando
és um mentira
que julguei ser verdade
pois só o tempo abre os olhos
velados pela luz
-V- Desencontro
Ela tanto me esperou
que virou pó
dissolveu-se no vento
depôs-se em meu caminho
e sujou meu sapato
(Meu reino por um engraxate)
-VI-
Neste túmulo
muitos sonhos
jazem
enterrados
-VII-
Quero a ventura
de três amanheceres
: o Sol despontando no horizonte
e seu reflexo duplicado
nos teus olhos despertos
VIII- CREDO
creio
piamente
em tua boca
e no céu
que lá existe
(único céu
que ainda me resta
: o outro
para sempre
jaz perdido)
creio no santo poder
dos teu olhos
sobre meu ser
(dos meus
inconfessáveis pecados
faz be-atos)
sob a luz
que emanas
em meu caminho
tudo é sagrado
mas se na escuridão
de tua lamentada ausência
trevas
(só a luz do teu olhar
acende meus faróis)
creio sobretudo
na divindade
de tua pélvis
(apaixonadamente
ali mergulho
: batismo de sangue)
teus olhos são-me guias
abrem olhos antes cegos
a verdade que mora em teu ser
dissipa nuvens eternas
do contumaz ceticismo
que me anuvia
derrete seu calor
neves sempre brancas do meu gelo
trocaria a eternidade
por um breve momento ao teu lado
e todas as minhas idades
vividas ou ainda por viver
todos beijos que já sonhei
por um único beijo teu
resignar-me-ia até à eterna dor
para ter um breve instante do teu amor
-IX-
não há mais flores
em teu sorriso
pois o inverno do tempo
abateu-te na primavera da vida
...em pleno vôo
asas engessadas
pendem inertes em cada lado
de teu corpo
prendem teus braços inermes os remos
nas aleivosias e escolhos do mar
a água cristalina
de teus olhos-lagos secou-te as margens
o que ainda resta de ti
fora um deserto escaldante
o frio congelante das geleiras
o brilho eterno e frio
de estrelas extintas?
-X-
Montanhas
Montanhas entortando o horizonte, entortando o céu que é plano. Deixando curvas nas dobras do mundo, criando vales e torrentes, recortando a terra, derrotando o igual, violando o tédio, violentando a esfera.
Esfera oca cheia de pontas, espinhos, carrapicho. Ali, nas montanhas, é que nascem os rios! E os rios transportam os sedimentos que adubam os solos, Solos com sede de sedimentos. Seres com sede de sentimentos. Eu com sede de ti. Nós com sede uns dos outros. Seres vivos com sede de vida.
Filhos! Resultado da sede que a vida tem de si mesma. Eu amo porque sou um rio com sede de rios, vida com sede de vida, rio e sede da vida, dos peixes, peixe com sede de peixes.
Sorvo cardumes de um só gole. Rios que são serpentes que se estendem nas planícies para tomar Sol.
Montanhas! Saiam da frente do meu Sol. O Sol é meu! O Sol é teu, é nosso.
Mas aqui, nesta parte que estou da Terra, pega uma luz do Sol que vem de uma parte do Sol que é minha, pois se sou dono da luz, sou dono da fonte desta luz. Sou dono de uma parte do Sol! Sol que ilumina montanhas escuras, florestas sombrias. Pelas frestas de tuas copas, floresta, deixas passar um pouco da luz do Sol. Mesmo que seja uma nesga, perdes um pouco de tuas sombras e o Sol perde uma da luz que o consome, mas os seres que te habitam ganham um pouco mais de vida.
Esta estranha relação que tens com o Sol me ensina que quando se perde algo em algum lugar, em algum tempo, necessariamente alguma outra coisa se ganha em algum outro lugar em algum outro tempo.
Não há ganho sem perda, nem perda sem ganho. Isto me faz conter meu desejo de ganho, por não querer provocar uma perda, isto me faz aceitar minhas perdas, pois houve ao mesmo tempo um ganho.
As montanhas desafiam com suas escarpas os alpinistas à escalada. Escalar montanhas, subir degraus, este nosso destino. Somos todos alpinistas. Havia uma montanha que nunca um alpinista ousara escalar. Mas aquele alpinista, ah, aquele alpinista, ousou. Suas chances de voltar eram mínimas, mas o que não é arriscado? Contra tudo, contra todos ele ousou. E fracassou na primeira tentativa, mas, depois daquele fracasso, ficou mais fácil escalar montanhas que antes eram difíceis.
Quem tenta o inalcançável pode conquistar outras coisas. Mas, se pensam que ele desistiu da escalada, estão enganados. Aquela montanha era a montanha da sua vida. Por nada deixaria escapar aquela conquista. Nem que fosse à custa de ossos quebrados ou da vida.
Se ele não tentasse de que valeria a vida. E errar não era problema. Ele errara outras vezes, nem por isto desistira, nem por isto se sentira derrotado. Haveria de chegar o momento da definitiva conquista. E ele tudo fazia, tudo conseguia, por ter um propósito.
Por isto mesmo nem vou dizer se ele conseguiu escalar ou não a montanha da sua vida. Nestas histórias vale mais a luta do que a conquista. Vencedor é aquele que enfrenta suas montanhas, não aqueles que a conquistam. A grande conquista é a conquista de si mesmo.
sexta-feira, 5 de agosto de 2016
Réstia de luz repousa
sobre o pó de mil dias
iluminando a cinza apagada
das memórias esquecidas
roupa de luz
sobre corpo de sombras
luz que guia
nas noites escuras
vestindo a roupa de luz
vou escutando os silêncios
das horas perdidas
cada sonho que se vive
é um dia que se ganha
cada sonho esquecido
é uma hora que se perde
- esquecer os pesadelos pode nos salvar -
o que é a prudência de recuar
ante a ventura de se seguir adiante?
sobre o pó de mil dias
iluminando a cinza apagada
das memórias esquecidas
roupa de luz
sobre corpo de sombras
luz que guia
nas noites escuras
vestindo a roupa de luz
vou escutando os silêncios
das horas perdidas
cada sonho que se vive
é um dia que se ganha
cada sonho esquecido
é uma hora que se perde
- esquecer os pesadelos pode nos salvar -
o que é a prudência de recuar
ante a ventura de se seguir adiante?
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