sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Tudo começou em um frio dia de inverno na cidade de Juvencia, pacata cidade situada no vale do rio Jequinhoá, cravada entre belas montanhas, cercada de florestas, cascatas e lagos. Eu passo minhas férias de inverno nesta remota localidade para descansar do barulho, da fumaça e da multidão da grande cidade. Nada como amanhecer com o canto dos pássaros.
Estava bem friozinho, mas mesmo assim fui dar uma volta pelos arredores do vilarejo. Fui admirar a beleza das florestas que se estendiam plácidas nas paredões vetustos das faldas das montanhas quando, de repente, a luz do Sol incendiou um objeto metálico que descansava em uma dessas pirambeiras verticais. Fiz uma pequena escalada e observei um objeto enterrado. Após escavar por um tempo, percebi se tratar de objeto antigo, coisa que contradizia o brilho intenso com que me chamara a atenção. Uma tampa de cabeça esférica, muito enferrujada, bloqueava através dos séculos o antigo gargalo.
Destemido, como sempre fui, abri a tampa.
Saiu um gás laranja que tinha um cheiro forte de enxofre. Por um momento desmaiei. Quase em seguida, abri os olhos e estava em outro lugar. O gás havia me teletransportado para outro lugar, outro tempo, outra dimensão, sei lá, só sei que era longe. Já havia aquele gigantesco palácio construído no cume de uma portentosa montanha nas páginas do livro de ouro da mitologia. A localidade era Asgard e o palácio era Valhala, onde vivem os deuses imortais dos povos nórdicos.
Ante mim, um discípulo deserdado de Odin estendeu sua gigantesca mão e, na língua ancestral dos escandinavos trovejou as seguintes palavras que entendi automaticamente apesar de não tê-las jamais escutado antes :
Ajoelhe-se ante mim, Torrance, senhor das cachoeiras e dos prados, controlador do ventos e das chuvas que preparam as colheitas!
Você libertou o hálito de Odin que estava preso no mais antigo vaso escandinavo. Ao fazê-lo, reviveu os deuses e semi-deuses de Asgard, que foi soterrada ao fim da guerra dos Titãs.
Como prêmio, irá receber uma benesse para o resto dos seus dias.
Terá o dobro da sorte dos seu inimigos, eles terão em dobro o azar que lhe era destinado.
Diga o nome dos seu inimigos e sua benesse será realizada!
Daí pensei nas pessoas que tinha atravessadas na garganta.
Renilson, que me havia tomado a noiva há anos atrás e tomara também minha promoção, em outra oportunidade.
Rebeca, que me traira com Renilson. 
Gotardo era outro a ter me passado a perna, tendo tomado, na confiança,  dinheiro emprestado e nunca me pagou.
Pronunciei os três nomes bem alto e ele as repetiu com sua voz de trovoada.
Feito!
Acordei após o desmaio ao lado da garrafa certo de que fora tudo um sonho.
Recolhi a garrafa que descobri, mais tarde, ao consultar um arqueólo, que era provavelmente a lendária garrafa perdida de Torrance usada nos rituais de adoração do Deus escandinavo. Ora, ora, o mesmo nome do sonho, Torrance, teria sido mesmo um sonho?
A partir desse dia, comecei a me sentir muito bem . Começou a dar tudo certo, no amor, nos negócios, em tudo. Uns meses depois soube que Rebeca estava gravemente enferma e, o mais estranho, é que ela, que estava casada com Renilson, me procurou para dizer que eu tinha sido o amor da sua vida, que se arrependia de ter me traído e, agora que sabia que ia em breve morrer, resolveu contar tudo para mim e para Renilson.  
Isso fez muito bem ao meu ego, mas não me fez ter pena. Ela tinha sido terrível comigo.
Logo em seguida, soube que o próprio Renilson estava internado. Devido ao baque que teve ao saber que Rebeca estava arrependida de ter ficado com ele e não comigo. Entrou em depressão, passou muitos dias bebendo continuamente, até entrar em coma alcoólico. Teve alta, voltou a beber. Acabou sofrendo um desastre fatal ao bater de frente com uma carreta.
Quando soube da morte acidental por enforcamento de Gotardo durante a prática de parapente, seu esporte de sempre, comecei a me arrepender de ter dito aqueles nomes ao Deus da garrafa.
Mas, seria tudo uma grande coincidência e Torrance era apenas o produto da minha imaginação?
Durante meus sonhos, Torrance aparecia de novo e sempre e me dizia para esquecer da garrafa e apenas curtir o momento de glória de vingança e que não importava que eu tivesse feito por ganância ou sede de vingança. A vida é para se viver do jeito que ela se apresenta, ele sempre completava.
Acabou me convencendo.

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