terça-feira, 23 de dezembro de 2008




ninguém leu
o poema de despedida
pois o poeta
jazia desconhecido
(foi o mesmo destino que teve
o seu poema de estréia)

ninguém ouviu
a canção
que falava de saudade
pois o compositor
já fora esquecido
(a voz dele embargada
por um nó apertado na traquéia)


ninguém rezou
na missa de sétimo dia
pois o morto morrera
antes mesmo de morrer
(nem um suspiro ou lágrima
nem mesmo uma única vela)

entre tantas coisas que florescem
há o destino bem triste
das coisas que morrem
antes mesmo de nascer
coisas que nunca existiram de fato
e nem perceberam não ter existido
coisas que passam pela gente
como um rumor que se confunde
com os sons que a gente não percebe
o canto dos grilos, o farfalhar do vento
a crepitar das folhas que se vão pisando
impiedosamente pelo caminho

pois há algumas frutas que germinam podres
e flores que desabrocham sem pétalas
elas nem precisam do castigo
do inevitável escoar dos tempos
para definharem e se perderem

será que eu sou assim?
será que alguém gosta de mim?
ou minhas palavras sibilam no vento
e se perdem para sempre
sem eco ou resposta?
que adianta eu gritar
se ninguém me ouve?
a solução para este me problema
está no eco dos desfiladeiros!
lá é só dizer o que se quer
e ouvir uma voz bem distante
repetir sempre a mesma coisa
que a gente disse
e fingir tolamente
que é outro alguém
que concorda com a gente

domingo, 21 de dezembro de 2008

O que é ser selvagem ou ser civilizado?

Outro dia estava passando um documentário na TV sobre os selvagens das ilhas Papua-Guiné. São selvagens por viverem em estado natural na selva, mas são seres humanos tão valiosos quanto qualquer outro ser humano. Alguém comentou comigo que não entende como alguém pode viver em situação tão miserável e precáriA, mas para mim eles pareciam felizes, nenhum me pareceu deprimido ou preocupado com o futuro como a maioria de nós. Acho que eles estão perfeitamente adaptados ao ambiente por viverem nas mesmas condições há milhares e anos, enquanto que nós, ocidentais, estamos em um ambiente em constante transformação e por isso nunca estamos adaptados e jamais parecemos estar bem apesar de toda aparente abastança material.
Pensei em qual seria a opinião inversa, ou seja, o que pensariam de nós os selvagens se conhecessem como vivemos. Será que nos invejariam ou será que lhes pareceria intolerável nossa maneira de viver. Daí, lembrei de um texto que li durante um curso a respeito da opinião de um selvagem da ocenia que havia conhecido a europa. Neste texto, ele criticava a maneira como lidamos com o tempo, sempre reclamando que ele nos falta, mas que quando deles dispomos ficamos entediados sem saber o que fazer. O texto nos fazia refletir sobre esta maneira absolutamente tola e insensata de tratar o tempo. Realmente, o tempo é um dado da realidade, é absurdo que ele possa faltar ou sobrar, as coisas é que necessariamente devem caber dentro dele. Lembrei que o texto se referia ao europeu como papalagui, procurei na internete e encontrei este e ainda outros textos do mesmo selvagem das ilhas Samoa. O texto foi compilado por um missionário a partir dos relatos do selvagem para seus conterrâneos. O selvagem não desejava que os europeus soubessem sua opinão, mas queria alertar aos seus sobre o perigo de cair na bonita conversa dos ocidentais.. Os outros textos falam de muitos outros aspectos da vida os ocidentais, sua relação com o ambiente, o excessivo materialismo, a vaidade e outros problemas que vivemos diariamente vistos pela ótica de uma pessoa apresentada recentemente a este estilo de vida como coisa inteiramente nova.
Obviamente, é impensável querer adotar o estilo de vida dos selvagens, tão arraigada que estão tantas coisas em nossas vidas, mas uma leitura nestes bonitos textos, cheios de inteligente crítica e sabedoria, nos leva cetamente a uma severa crítica de alguns valores que nos parecem tão importantes, mas que na verdade são pequenos.
O endereço do site onde encontrei os textos é :

O Papalagui

Na verdade, sempre devemos buscar mais de uma opinião sobre as coisas e compará-las sem nunca levar em conta o que alguém diz sobre si mesmo, por isso acho interessante este leitura. Por outro lado, não acredito em pessoas de um livro só.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Observo a mansidão das colinas, a tranqüilidade dos pássaros e a serenidade dos tempos.

As aves já não se lembram dos ares em que um dia voaram, nem as colinas sentem saudades das flores que lhes coloriram as encostas. Os tempos não sentem faltam de outros tempos. Estão todos tão ocupados sendo, que não lhes sobra tempo para sentir saudades.

Eu sinto falta dos mares em que nadei, das correntezas que enfrentei, dos amores que senti. As flores cujas pétalas um dia acariciei ainda me visitam a lembrança. Tantos amigos que tive e se foram levados que foram pela primeira ventania dos invernos. Ainda conversam mudos comigo. A copa da árvore sob cuja sombra descansei, hoje apenas galhos nus e ressequidos sustentados por um tronco morto, ainda refresca minha alma.

Acho que é do ser humano sentir saudades. Pensar que a felicidade pertence ao passado, nunca ao presente. Esquecemos de viver, revivendo o que um dia vivemos. O futuro é um fio de esperança que nos acalenta os sonhos, o passado, um desejo de ser revivido. E o presente, apenas o desejo de que fosse outro.

Fomos felizes e o seremos, mas nunca o somos. Talvez a felicidade seja só uma lembrança, ou, então, um desejo. Ou, ainda, a felicidade more num lugar distante e inalcançável onde nunca chegaremos.

Na busca de ser feliz, deixamos de sê-lo. Esquecemos da preguiça dos entardeceres e da profusão de cores dos pores-do-Sol. A brisa, que na lembrança nos faz carícias gostosas no corpo e nos cabelos, agora nos passa despercebida. Sonhando com tesouros escondidos nos mais remotos recantos, deixamos escapar os tesouros que nos passam ao alcance das mãos.

Nós, seres humanos cabeças-duras, insistimos em ignorar as lições que nos cercam. Preferimos pensar que somos os mais espertos na arte de viver e fazemos tudo à nossa maneira, com muito desespero e impaciência. Mas está ali escrito, no relevo das colinas, no vôo dos pássaros, no escoar irrevogável dos tempos, que tudo que buscamos é tudo que nos cerca, aqui e agora. E isso a mais insignificante coisa do universo sabe ao simplesmente ser do jeito que é. Um pequeno grão de poeira perdido no meio do vácuo intergaláctico infinito é apenas um grão de poeira perdido no meio do vácuo intergaláctico infinito e aí está sua mais nobre missão nesse mundo.