domingo, 8 de junho de 2014

Tudo começou quando, numa bela manhã, bem no centro da praça central, num canteiro de flores, bem em meio a petúnias e bromélias, surgiu uma caixa de som misteriosa. Veio assim, do nada. Alguém a colocou lá ou então caiu do céu. Uns diziam ter vindo do espaço, outros que tinha sido importada da Mongólia, mas ninguém tinha qualquer prova do que dizia, sendo, portanto, mera especulação.

A caixa era desprovida de maiores atrativos. Cor de madeira nua, sem qualquer identificação, nem sua forma tinha nada de especial, sendo meramente retangular como normalmente são as caixas de som. Entretanto, ela tinha algo de muito especial. Movida por alguma misteriosa e potente bateria, ela, vez por outra, emitia um som estridente e logo depois de suas entranhas saia uma voz entre tuberculosa e rouquenha que dizia uma verdade. Era simples assim. O que dizia era quase inacreditável, alguma coisa absurda de contraditória, mas verdadeira.

A primeira verdade avassaladora e retumbante, é a de que a Sra. De Vitalla, famosa e respeitada dama da sociedade, impávida, arrogante, fina, bela, exótica e rigorosamente conservadora, líder inconteste em saber da vida dos outros e a todos condenar implacavelmente como grosseiro ou desonesto, ela, o exemplo a ser seguido, a inigualável, benemérita e respeitada esposa do prefeito, o estava traindo com um mero serviçal, seu motorista particular, famoso entre as putas do baixo meretrício por seu membro descomunal.

Todos já sabiam disso, mas ninguém tinha a coragem de confessar.

A segunda e terrível verdade é a de que o prefeito já sabia há muito tempo das escapadelas úmidas, tórridas, barulhentas e escandalosas de sua digníssima, mas preferiu se calar e várias vezes assistiu escondido as peripécias que já não conseguia realizar, nem mesmo com a sua rechonchuda, jovem e psicodélica amante, a secretária, por sua vez também casada. Falou também qual a elevada porcentagem que ele desviava da merenda escolar.

Muitos desconfiavam há algum tempo dele, bastava reparar na baixa consistência da sopa que as crianças eram obrigadas a engolir.

O editor chefe do bombástico jornal da oposição, só escrevia mentiras. Ele preferia acusar o prefeito de ter desviado dinheiro em obras realizadas dentre dos moldes mais perfeitos de lisura, ao invés daqueles em que o prefeito e os seus asseclas se locupletavam, pois não queria desestruturar os esquemas montados, para que pudesse locupletar-se por sua vez quando chegasse a sua hora de ocupar o sonhado cargo. Era essa a razão de suas denúncias nunca implicassem em condenação, o que fazia que os eleitores ficassem ainda mais irritados pela impunidade. Tolos e ingênuos, preferiam acreditar em alguém tão parcial como o líder da oposição do que prestar atenção ao fato de nunca terem sido as denúncias acompanhadas de qualquer prova.

Disso aqui ninguém sabia, mas os argumentos eram tão poderosos e coerentes que não puderam questionar. Afinal, só o ser humano pode mentir, uma máquina não (esqueciam que a voz, apesar de metálica e impessoal deveria ser provavelmente de alguma pessoa, não sei se do além ou do aquém, se era voz de morto ou de vivo, mas que era voz, era voz, certamente)

As verdades iam sendo vertidas pela altisonante caixa de som. Enquanto isto, desmascarados, uns fugiam, os outros os perseguiam, sendo que boa parte fugia e perseguia ao mesmo tempo. Nesta hora, ninguém era de ninguém. Alguns aproveitadores não deixaram escapar a oportunidade. Alguns aproveitavam para furtar, outros para depredar, outros ainda para pegar as mulheres traídas ou as mulheres que traiam, todas essas fáceis nessa hora.

Por fim, assim como veio, a maldita máquina partiu. Entre mortos  e feridos todos sobrevivam, mas não sobreviveu ninguém. A cidade, alterada para sempre, nunca mais foi a mesma. Uns tinham saudades dos velhos tempo, aqueles tempos de antes da máquina, como diziam a boca miúdas nas esquinas e becos mais sombrios. Outros achavam que agora, diante do império da verdade que se estabelecera, apesar das mágoas e feridas que só as verdades produzem tão profundas, era tudo melhor. Pelo menos se sabia em que tipo de lama se poderia assentar o pé antes de seguir seu caminho. Ainda havia uma parte que não sabia se ficara melhor ou pior depois que a caixa de som da verdade pousara e partira misteriosamente da praça daquela não tão pacata cidade.

1 comentários:

Vanuza Pantaleão disse...

A caixa da verdade e O Alienista de Machado de Assis, pode haver uma relação entre tudo isso? Só pensei...
A cidade pacata que esconde segredos sombrios, sempre é assim, é o lado obscuro do ser sendo desenterrado dos porões empoeirados da mentira e da sordidez política.
Andas tristonho, Benno. Por que será? Tenho o direito de sabê-lo? Abraço fraternal...

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