sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Eu não sei se foram os olhos profundos, o toque da pele, a textura da cútis ou seu cheiro que me seduziram. Talvez tenha sido o conjunto da obra.
Os seus olhos, de um negro absurdo, redondos, gigantes, hipnóticos, aveludados, neles vislumbrei a síntese dos tempos e, como num poço sem fim, mergulhei para sempre e ainda estou caindo.
A pele, a um simples primeiro contato,  me arrepiou. A textura da cútis parecia uma continuidade de mim.
Certamente, aquele tecido em que deitei meu corpo me foi concedido por encomenda. Literalmente rolei pelos seus meandros, senti a sua extensão como uma verdadeira conquista, como aquela dos navegantes que ousaram e tomaram para si o Novo Mundo. O cheiro há de restar para sempre em minha memória. Vivo os dias em sua lembrança, inebriado, bêbado e enlouquecido.
Enquanto tirava sua roupa, cada peça por vez e lentamente, foi esculpindo em mim uma ereção universal. Ela tinha um jeito de se despir descortinando aos poucos um espetáculo escondido que era seu corpo.
E aí, então, fui todo língua e dedos. Re-esculpi inteiramente o contorno do seu corpo com o cinzel agudo e escarlate de minha língua. Escalei o cume ereto de seu seio, lentamente, fingindo ser difícil a escalada (mas não era). A única dificuldade era como o desvendar de um mistério. E quando a penetrei, não havia mais eu ou ela, pois nos fundimos e viramos um só corpo, uma só emoção. Meu coração pulsava compassado com o seu coração. E nos desvencilhamos do nosso passado, para sermos só o presente dos nossos corpos interpenetrados, na língua, no sexo, na emoção e nos poros.
E eu explodi e ela explodiu. Explodimos ao mesmo tempo como um Vulcão grandioso que irrompe sobre si mesmo. Derramei minhas lavas quentes em seu vale. A partir daí, fomos um e mesmo sempre.




-x-
ai, quem dera. nossos corpos
bailassem encantados
numa dobra
do continuo espaço-tempo
e assim
neste hiato
enfim pudessem
vencerem incólumes
as muralhas
do tempo e da distância
e se fundissem
e se embalassem
e se enrolassem
mutuamente abraçados
e se fundissem nossas belezas
numa só e única beleza
num só verbo e substância
e que o meu rosto em teu rosto
o meu corpo em teu corpo
minha pele em tua pele
minha boca em tua boca
se mesclassem num só corpo
numa só boca, num só rosto e numa só pele
e eu já nem soubesse
onde termina meu braço
onde começa teu colo
onde começa tua lingua
onde termina meu peito
ai, quem dera
fossemos únicos e mesmos
e fossemos dois em um enfim

-x-

é tão mais fácil

(e mais gostoso)

se surpreender
do que buscar
uma inútil explicação

exultei ao ver teus olhos
mas não soube dizer o que significavam

derreti-me
em teu semblante
mas não soube determinar
a origem do fogo que ali ardia

uma aura de mistério
separa tua visão
do teu estulto comportamento

feliz sou enquanto fluo na correnteza da vida
totalmente infeliz entretanto
quando busco a direção e em vão tento nadar

teu seio ereto me aponta e provoca
mas corres na oposta direção

só me resta fugir
errar de novo
(como tantas vezes errei)
e me perder em outros olhos
(como tantas vezes ousei)

-x-

como negar a poesia
que existe no leve voejar de uma borboleta
no bailado rodopiante de uma folha ao vento
ou nas carícias que se fazem os amantes?

sem poesia não há vida
e não fora o colorido dos versos
bem áridas e descoloridas

(e tristes também)

seriam as bibliotecas e as estantes

-x-

a poesia que nasce em mim
nasce como a relva que graceja nas planícies
sem pedir licença ou aplauso
se oferece sem saber de si

-x-

Diz-se através da poesia
tudo que se desejava ter vivido
mas que entretanto não se viveu
daí serem tão perfeitos os amores
ou tão lendárias e diáfanas as fontes
(e até mesmo etéreas e distantes as musas)
que são descritas nos poemas

como faunos ou quimeras
assim são os versos
e por isso nunca ultrapassaram
os limites intransponíveis que separam
a realidade da imaginação

-x-

pois eu tenho esse poder
que há poucos é dado
de amar em silêncio
e falar bem baixinho
o que tenho a dizer
e o que grita me fere os ouvidos
não acredito no amor
que é berrado aos quatro ventos
mas aquele que murmura a brisa
que farfalha nas folhas
que broteja nas fontes
e germina nas sementes da vida

3 comentários:

LUZ disse...

Esses olhos, de um negro ABSURDO já fazem parte de sua escrita. São seus.

Ereção universal! Talvez, nesses instantes, houvesse paz, em todo o mundo.

Você diz coisas que ninguém consegue dizer, desse jeito. Junta racionalidade, com muita sensibilidade e sensualidade.

Bom fim semana.

Beijos.

Menina Marota disse...

"...
a poesia que nasce em mim
nasce como a relva que graceja nas planícies
sem pedir licença ou aplauso
se oferece sem saber de si
"...


Um dia destes vou citar este excerto do poema. Dando os devidos créditos, claro.
Provavelmente no FB.

Bom fim de semana :)

© Piedade Araújo Sol disse...

gostei de tudo no post, o primeiro texto muito sensual, e bonito .

gosto.

:)

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