segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Quando escritor sou poeta
quando poeta sou estrela
quando estrela sou luz

imaterial
sutil
veloz
multicor

da manhã quando nasce
a mágica
do encontro das águas
o turbilhão
do degelo da calota polar
sou o mar
onde mergulho e me perco
o rumor da multidão
o orgulho
dos sussuros da noite
os segredos


-x-
Acordou naquele dia sem saber o que o destino lhe reservava.
Seria aquele mais um dia, ou seria o dia cujo a lembrança se irradia e ilumina as noites?
Mal sabia ele que estaria num simples sorriso, no curvar leve dos ombros, no desbotado antigo das botas, no leve levantar de poeira do sopro do vento.
É que tudo se resume num breve instante, o vale que separa montanhas é uma fímbria, a noite e o dia se separam por uma nesga de penumbra. Apenas um grama separa a gordura da magreza. E basta uma informação para se defazerem as sombras da ignorância e se instalar, por fim, a sabedoria.

(Foi em apenas um dia que eu me fiz!)

Há dias que se separam dos outros dias tão comuns, porque neles se percebe a poesia em cada coisa que nos cercam. Numa cerca florida ou num muro encoberto pelo musgo do tempo, no espelho plácido de uma lagoa que dorme entre duas montanhas, nos lábios que se movem sem emitir nenhum som, nos olhos que piscam acelerados e se fixam num lugar que está fora do campo de visão.
Se chove, dá vontade de entrar na chuva, se faz Sol dá vontade de se espalhar em seus raios. Se o dia é morno é o morno que basta, se frio é o frio que refresca o calor do corpo, se é quente, o calor é uma boa desculpa para soltar o corpo e se sentir livre.
Abriu as narinas largamente e aspirou o dia com todos seu gloriosos cheiros. Lá do alto de seu semblante, vislumbrou o que se passava à frente. Começou a caminhar a passos largos rumo ao futuro. Logo após dobrar a esquina o resto de sua vida lhe esperava.
Quase de imediato, cegou. Seria o Sol ou uma explosão atômica? Mil Hiroshimas e quinhentas Nagasakis aqueceram seu coração. Vulcões, tufões,  carnavais, vendavais. O mundo passou a sua frente e ele não viu passar.
Mas a cegueira passou e conseguiu vislumbram os primeiros raios de sua sombra. E depois foi o resto do dia, o resto do ano, o resto do século, o resto da vida.
Pelo menos foi assim que reconstruiu em sua memória aquele dia em que se apaixonou perdidamente. É essa mania que tem os amantes de recriar os acontecimentos e lhes dar nova cor e nova magia.
Parece até que é mentira, mas é assim que se vive de fato! Quando a gente vê o que é como é, a gente está morto.
Se formos perfeitamente racionais e sensatos, seremos como robôs e uma vida assim não vale a pena ser vivida. Se for para sermos como robôs seria melhor sermos substituídos por robôs, pois robôs não erram. Mas se fizermos as coisas com sentimento, faremos sempre diferente e teremos mil motivos para errar e ainda assim sermos perdoados.
Por isso, eu prefiro os robôs mais malucos, mas os seres humanos devem ter um mínimo de sensatez.

7 comentários:

Paula Barros disse...

Putz, adorei o poema.
O poeta que é estrela, que é luz.
Nem li o texto para não me perder na emoção.
abraço

ᄊム尺goん disse...

É no nada que a vida se desdobra.
É no olhar esquecido que percebemos o movimento.
Somos criaturas com olhos para o invisível.


Beij0

Rovênia disse...

Como já filosofaram: a gente vê o virtual. E o amor é a redenção.

"Quando a gente vê o que é como é, a gente está morto."

Abraços!

Bianca Zoccoli disse...

Oi, tudo bem? Faz um tempo você esteve no meu blog, e relendo os comentários antigos, te reencontrei. E foi muito bom ter feito isso, porque uma pessoa que sabe escrever coisas tão bonitas não se encontra assim em qualquer blog! Gostaria de saber colocar os sentimentos de uma maneira tão bonita. Muito obrigada por ter esse talento e alegrar nosso dia com tanta doçura de palavas. Beijão.

ॐ Shirley ॐ disse...

Pareceu-me ver você, numa paisagem solitária, mais exatamente numa estrada, em pé fitando o longínquo horizonte, vento acariciando a pele, pensamentos indomados, esquecido da realidade...Gostei. Benno, beijos!

LUZ disse...

Oi, Benno!

Você é talento, demasiado inteligente e pensamento

Pensa demais e chega a conclusões brutais.

Beijos.

NOTA: pelo muito trabalho na escola,não consigo ter, EM SIMULTÂNEO, meus dois blogues. Assim, se o link comentários de um, estiver fechado, o outro estará aberto. Julgo que me fiz entender.

Não devo

© Piedade Araújo Sol disse...

li o texto, mas confesso que me perdi de amores pelo poema.
gostei muito.
um beijo

:)

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