segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A CARTA

A leitora de Vermeer

Aflita, espero tua carta, sentindo pulsar dentro de mim uma parte de teu ser que deixastes em mim. A distância fica próxima, assim que a recebo e toco no envelope que tocastes ainda outro dia. E sinto, ao mero toque, teus dedos, e no aroma da carta, teu perfume. Nas letras vislumbro teu rosto, na superfície do envelope, teus olhos.
Chego à janela para enxergar melhor tuas letras, ler tuas juras de saudades e de amor. Não importa que o que dizes na carta não faça sentido, ou seja, apenas a repetição do que os amantes se disseram ao longo dos séculos, pois é pleno de sentido para mim. Nas palavras ali rabiscadas, poucas e parcas, vejo teu coração e palpita o meu em um mesmo compasso. E te vejo inteiro e é como se aqui ainda estivesse. Eis aí o mistério das cartas de amor: escritas num código indecifrável para os que não amam, elas conseguem traduzir os sentimentos mais intraduzíveis. Aproximam, mesmo que tudo pareça distante.
É um desafio aos doutos essa comunicação quase sem palavras que traz em si os olhos, a carne, o desejo, o cheiro, e todas essas coisas inexplicáveis que fazem dois seres se amarem.
Meus olhos perdidos no infinito das entrelinhas te fitam e busco nas partes em branco do papel, nas entretintas, nas entreletras, nas entrepáginas, no ar que a dobradura da carta guardava em seu ventre, nos pós e nos entrepós, um vestígio teu ou qualquer coisa que me faça sentir mais próxima de ti e ter certeza que ainda existes e que não fostes só um sonho bom. Quem dera ter aqui um microscópio para poder observar as tuas células, uma lupa para ler tuas impressões digitais ou mesmo ser uma quiromante para ler as linhas que secretamente escondes em tuas palmas de mão. A carta está toda cheia de ti. Abraço-a ao peito, a beijo e me iludo, imaginando um teu abraço, um teu beijo. Mas não é só ilusão, pois bem sabes que agora a abraço e beijo e me sinto tão perto. Tola, tola eu sou, mas que importa? Só a quem ama é permissível ser tolo. Só quem ama é capaz de compreender a tolice de quem ama. Aos que estão cheios de ódio, essa linguagem do amor parece sandice.
Quando voltas? Ainda não sabes ao certo, mas voltas e é isso que importa. Não importa quanto tempo demoras, será sempre igual à eternidade, pois toda espera é eterna. Enquanto te espero, acalento em meu seio tuas cartas e te trago junto ao peito dessa forma.
Por vezes, como tola, as releio, apesar de já declamá-las de cór, pois mais verdadeiras as palavras quando expressas por tua caligrafia.
A cada leitura descubro encantada outro significado maior que me passara despercebido nas leituras anteriores.
Apaixonei-me pelas tuas cartas e se junta a essa à paixão por ti outra paixão de mesma intensidade. Quando junto essas loucas paixões, elas não se somam, mas se multiplicam e se elevam uma à potência da outra.
Ao terminar a leitura dos teus desejos, a leitura da tua falta, a leitura dos teus carinhos, já fico na espera da próxima ou, então, enfim, da tua volta.

3 comentários:

Eu disse...

Nossa Benno, belissima!
Esse reconhecimento de necessidade -vital- da pessoa amada, torna impossivel conservar o "eu" intacto,não é?
Só quem ama/amou.. compreende...

Gostei muito, vou em outro momento retornar, para ler os demais posts.

Beijo!!!

Ava disse...

"...Só a quem ama é permissível ser tolo."

Benno, já dizia o Grande Poeta, que todas as cartas e amor são ridículas...

Amar é ridículo...rs

Nos reduz a condição de incapazes... porque perdemos a capacidade de discernimento...Fazemos e dizemos tantas tolices... que só o amor entende...

Beijo-te, com carinho...

Eu mesma disse...

Lindo Poeta! Quanta sensibilidade! As palavras as vezes são enganadoras, mas os sentimentos e o encantmaneto que despertam, esses sim são sempre verdadeiros.

Pena que hoje quase ninguém escreve cartas de amor e os emails não são tão românticos.

Você está cada vez melhor nos seus escritos.

beijos

(sou eu mesma, a amiga de sempre, cansada de postar como "anônimo")

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