domingo, 24 de julho de 2022

A experiência

(A história a seguir pode parecer bem repetitiva, mas a repetição, faz parte...)

Egberto fazia sempre as mesmas coisas. Acordava à mesma hora, tomava o mesmo café da manhã  e saia para o dia de Sol, pois era sempre Sol e nunca chovia. Bem na hora que ele saia de casa, ele via saindo de sua casa a Sua vizinha, Andréia, loura e de olhos azuis,  e seu vizinho balofo e estranho, Severino. Ele tinha vontade de se declarar para Andréia, mas não o fazia, pois era tímido, mas o balofo e ridículo do Severino soltava uma beijinho para Andréia e ela correspondia. Ele ficava com raiva, fechava a cara e voltava para casa e dormia de novo.

Severino fazia sempre as mesmas coisas. Acordava à mesma hora, tomava o mesmo café da manhã  e saia para o dia de Sol, pois era sempre Sol e nunca chovia. Bem na hora que ele saia de casa, ele via saindo de sua casa a sua vizinha, Andréia, loura e de olhos azuis,  e seu vizinho magrelo e estranho, Egberto. Ele percebia que Egberto  desejava se declarar para Andréia, mas não o fazia, pois era tímido, e, para não perder tempo, ele soltava uma beijinho para Andréia e ela correspondia, mas Egberto ficava com raiva e voltava para casa. Andréia mudava de humor e fechava a cara, voltando para casa para dormir. Severino ficava com raiva também, fechava a cara e voltava para casa e dormia de novo.

Andréia fazia sempre as mesmas coisas. Acordava à mesma hora, tomava o mesmo café da manhã  e saia para o dia de Sol, pois era sempre Sol e nunca chovia. Bem na hora que ela saia de casa,  via saindo de sua casa as seus vizinhos, Egberto, que era magrinho e tímido, e Severino que era gordo e ousado. Ela desejava muito que Egberto, seu preferido, se declarasse, mas era sempre Severino soltava uma beijinho, que ela, para ser educada, correspondia, mas Egberto ficava com raiva e voltava para casa. Andréia, com raiva, fechava a cara e voltava para dormir.

Enquanto isso, um cientista elaborava um programa e enviava os sinais através de um miríade de fios para três cérebros megulhados em cubas fumegantes.
Ainda estava na seção "manhã" do programa, mas, aos poucos ele ia criando "vida" dentro daqueles cérebros. 

Egberto fazia sempre as mesmas coisas. Acordava à mesma hora, tomava o mesmo café da manhã  e saia para o dia de Sol, pois era sempre Sol e nunca chovia. Bem na hora que ele saia de casa, ele via saindo de sua casa a Sua vizinha, Andréia, loura e de olhos azuis,  e seu vizinho balofo e estranho, Severino. Ele tinha vontade de se declarar para Andréia, mas não o fazia, pois era tímido, mas o balofo e ridículo do Severino soltava uma beijinho para Andréia e ela correspondia. Ele ficava com raiva e, batia com uma luva na face de Severino, desafiando para um duelo.

Severino fazia sempre as mesmas coisas. Acordava à mesma hora, tomava o mesmo café da manhã  e saia para o dia de Sol, pois era sempre Sol e nunca chovia. Bem na hora que ele saia de casa, ele via saindo de sua casa a sua vizinha, Andréia, loura e de olhos azuis,  e seu vizinho magrelo e estranho, Egberto. Ele percebia que Egberto  desejava se declarar para Andréia, mas não o fazia, pois era tímido, e, para não perder tempo, ele soltava uma beijinho para Andréia e ela correspondia, mas Egberto ficava com raiva e voltava para casa. Andréia mudava de humor e fechava a cara, voltando para casa para dormir. Severino ficava com raiva também, fechava a cara e voltava para casa e dormia de novo.

Andréia fazia sempre as mesmas coisas. Acordava à mesma hora, tomava o mesmo café da manhã  e saia para o dia de Sol, pois era sempre Sol e nunca chovia. Bem na hora que ela saia de casa,  via saindo de sua casa as seus vizinhos, Egberto, que era magrinho e tímido, e Severino que era gordo e ousado. Ela desejava muito que Egberto, seu preferido, se declarasse, mas era sempre Severino soltava uma beijinho, que ela, para ser educada, correspondia, mas Egberto ficava com raiva e voltava para casa. Andréia, com raiva, fechava a cara e voltava para dormir.

Enquanto isso, em seu laboratório o cientista, entre retortas e cubas, pipetas e tubos de ensaios fumegantes, admirava sua inusitadata, admirável e execrável experiência. Três cérebros humanos, dentre de bolhas de vidro cheias de tubos e eletrodos  que se inseriam em diversos gomos cinzentos, dormiam um sono cheio de cenas que o cientista ia criando,. Ele ainda estava no começo da programação, por isso só havia o inicio da manhã na vida repetida dos três cérebros.

O objetivo, ao final das contas, era ser Deus daquele reduzido mundo. Um Deus o pequenininho, mas ainda assim um Deus.











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sexta-feira, 1 de julho de 2022

Qual desses poemas você prefere?

1- O poeta o papel e a eternidade

o papel em branco
do poema
a eternidade separa

o papel em branco
da eternidade
o poema separa

a eternidade
do poema
o papel em branco separa

separam-se
poema e papel em branco
eternamente

eternos
papel e poema

transitório poeta


2- Sem Maquiagem

Exangue, pálida

e esquálida,

no atáude,

perdida saúde,

reluz a tez,

qual corpo branco

de vela,

extinta a chama,

que a lágrima de cera

percorre

pela última vez.


3- CREDO

creio
piamente
em tua boca
e no céu
que lá existe

(único céu
que ainda me resta
: o outro
para sempre
jaz perdido)

creio no santo poder
dos teu olhos
sobre meu ser
(dos meus
inconfessáveis pecados
faz be-atos)

sob a luz
que emanas
em meu caminho
tudo é sagrado
mas se na escuridão
de tua lamentada ausência
trevas

(só a luz do teu olhar
acende meus faróis)

creio sobretudo
na divindade
de tua pélvis

(apaixonadamente
ali mergulho
: batismo de sangue)

teus olhos são-me guias
abrem olhos antes cegos
a verdade que mora em teu ser
dissipa nuvens eternas
do contumaz ceticismo
que me anuvia
derrete seu calor
neves sempre brancas do meu gelo

trocaria a eternidade
por um breve momento ao teu lado

e todas as minhas idades
vividas ou ainda por viver

todos beijos que já sonhei
por um único beijo teu

resignar-me-ia até à eterna dor
para ter um breve instante do teu amor



4- ARIADNE

Tuas pernas
labirinto
: nelas me perdi

teu sexo
absinto
: em que me verti

(ali eu fui todo
bocas e líquidos)

teus seios
: o vale
...
(que o verso aqui se cale)

era o fio de Ariadne
(teu coração
exsudava uma corrente indômita
que me arrastou)
e me levou
a tua boca

eis ,enfim a saída,
e, mirando teus olhos,
(que me olhavam cândidos)
por fim sorri

Há que se perder
antes de se encontrar

(intessante:
os parênteses,
que quase nunca lemos,
dizem o mais importante)

5-

hei ainda de amar-te
quando teu corpo curvar-se
sob império de muitos anos
e mesmo se os seios murcharem
e a pele toda enrugar-se
como as flores que encantam os dias
e depois perdem suas pétalas
hei de amar-te ainda tanto
quanto te amo nesta hora
pois te amo mais que teu corpo
amo-te mais do que a vida
amo-te ainda mais que me amo



6 - ALPISTE

Deus
não sei se existe
mas acredito
na verdade
do alpiste
e seu dom
de realizar
o milagre do vôo
dos pássaros.


7-

o ouro
a prata
e o ferro

o silêncio
a palavra
e o berro

o infinito
a unidade
e o zero

não necessariamente nessa ordem


8-

olhos fechados
boca velada
silêncio em teu olhar
(antes eles diziam tanto)
morre o dia
esmaece a cor
o amor, antes luz
agora é noite
(apagou-se alguma coisa em mim)

9-

a paixão
é a fogueira
que crepita
em Lua cheia
dissolve-se em fagulhas
mil agudas agulhas
e arde intensamente
mas gradativamente
derrete sua luz
e depois vira noite

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

um dia como outro 

Este dia é um dia qualquer

Mas todo dia mesmo que o mesmo

É um dia para você

esqueci o que queria dizer

mas não esqueci de te amar

tantos dias tantas noites

tantas tardes sem te ver

O vazio deste dia

Ocupa inteiro o teu Ser

Este nada que eu seria

Se não me ocupasse a tua falta

Inteiramente meu viver


Amar ou não Amar?

Tanta diferença faz

Na escuridão da existência

Quem não ama jaz

No sofrimento do desencontro

Quem ama se compraz

Pois neste delicioso penar

O amante vive as mil vidas 

Que quem não ama se desfaz





 


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

 Ruas solitárias, ruas perdidas

como eu, no meio da cidade abandonada

ando lentamente, mentalmente pelas vielas

já faz tempo que não ando por elas

sinto saudades delas cheias, tão vazias que andam

ando tão sozinho aqui dentro de mim

sem ninguém para conversar, converso comigo

sábado, 5 de dezembro de 2020

 Você é o Sol

pois é a luz dos meus olhos

Você é o sal

de todo sabor que eu sinto

Você é mais que ciência

é a essência

de tudo que eu penso

Você é a estrada infinita

é o céu salpicado de estrelas

por onde passeiam meus sonhos


Quando digo o que digo eu não digo

tudo aquilo o que eu quisera tanto dizer

é assim como eu faço o que faço

mas não faço o tanto que eu quisera fazer

sou humano e menor sou do que eu me sinto

e o que eu sinto é muito mais do que eu poderia ser 

uma explosão arde em meu peito da qual você é o estopim

a palavra certamente me falta quando o sentimento transborda

sou como o rio que enche mais 

do que as margens poderiam suportar

sou um primavera que incontida no seio congelado da terra 

se funde por fim em mil flores

e ilumina e colore tudo que eu quisera abraçar 

é o mar, e é o mar que estende além do horizonte, 

se expande pelo infinito em milhares de galáxias

tudo que eu sinto em minha alma

fica muito além do que seria possível dizer

a palavra "impossível" faz minha língua tremer

e a palavra amar toma conta do meu ser

Faltam palavras, mas as palavras que me sobram 

dão uma pálida ideia

de tudo que eu diria se pudesse dizer

 

convém portanto que suponhas

no que lês tudo muito mais do que lês

no que supões mas ainda do que sonhas

 e que adivinhes o que diria seu eu o soubesse dizer

pois além das palavras que exprimo

há outras que nem sequer foram inventadas

mas que a imaginação permite de alguma forma entrever

muito além do além, há o aquém em que existo

e muito mais do que lá incluo eu aqui suprimo

e o inexprimível ainda fica ainda por escrever

a palavra é feita de sílabas,  letras e limites

que constrangem e me deixam pouco a vontade

e o que sinto fica muito além destes simples blocos

com que insisto em tentar me descrever

 

A teoria de inutilidade universal de todas as coisas

Em a Ética a Nicômaco, Aristóteles introduz o conceito do que é útil, A utilidade é aquilo que serve para obter outra coisa. Ou seja, a utilidade tem por essência ser um meio, em não ser um fim em si mesmo. As virtudes são o meio termo entre duas disposições de caráter extremas e opostas, dois vícios, a extrema direita e a extrema esquerda das ações. Por exemplo, a coragem é o meio termo entre o a covardia e a temeridade. No primeiro caso, a covardia ocorre quando a pessoa tem medo mesmo quando existe um bem maior, como a vida, ameaçado, enquanto a temeridade ocorre quando a pessoa arrisca a própria integridade física e, em especial, a dos outros, sem maiores finalidades. Mas nada disso importa aqui, apenas saber que as virtudes, apesar de admiráveis, são úteis e servem para uma finalidade que não elas mesmas. Como consequência, deve-se entender que    quem vive pela virtude não vive com verdadeiros propósitos, se pauta em falsos ídolos e não deve estar entendendo nada do que entendeu nada do que eu estou falando (nem do que Aristóteles estava falando há 25 séculos atrás).  

Os utilitaristas, escola do pensamento que teve como próceres Bentham e John Stuart Mill, elegeram as coisas úteis como as únicas coisas importantes que existem. Inventaram até uma equação para descrever o máximo de utilidade que pautaria as tomadas decisão dos agentes políticos.

É interessante, pois os utilitaristas pareciam doidos que não conseguiam entender direito do que estavam falando. Se uma coisa tem a finalidade em propiciar outra é óbvio que ela não é importante, pois importante seria a outra coisa, ou seja, a coisa a ser obtida. Assim, a utilidade se caracterizaria pela sua falta de importância, ou importância secundária se preferirem. Eles falavam em obter o máximo de bem estar, mas isso é uma coisa indefinível e diferente para cada pessoa.

Assim como Murphy, que lançou as bases para a Teoria da Perversidade Universal da Matéria, que busca explicar porque as coisas dão erradas, eu proponho a teoria universal da inutilidade de todas as coisas baseada no princípio evidente de que as coisas importantes não são as coisas úteis, mas sim as coisa que não são úteis que elas visam, que são fins em si próprias. A utilidade é o adiamento da finalidade. O bem, esta coisa que resta indefinível, seria o verdadeiro propósito de toda utilidade. Já este bem, esta coisa que não serve para nada, é a inutilidade em si. Se as coisas úteis servem tão somente para obter as coisas inúteis, a inutilidade do fim a que se destina a utilidade a contamina e a toda utilidade resta inútil. É esse o princípio básico da teoria universal da inutilidade de todas as coisas. Em suma, se está procurando alguma coisa útil para ler, vá procurar outra leitura.

Por exemplo, a arte não serve para nada assim como os bons livros, os bons poemas, as crianças recém nascidas, as crianças comportadas, as crianças traquinas, as invenções (sim, surpreenda-se, as invenções em sua origem servem para o deleite do inventor e visam obter o ócio e a felicidade, essas coisas de natureza absolutamente inútil, e só se tornam úteis quando um capitalista selvagem as explora e  explora pessoas para obter o máximo lucro através da máxima criação de infelicidade) , os beijos, os lábios da amada,  os abraços, as declarações de amor (desde que sinceras, bem entendido), o próprio amor e, espero, tudo que escrevo, não servem para nada, são completamente inúteis e é pelas coisas inúteis que devemos viver.  Na medida do possível, devem ser afastadas como propósitos em si todas as coisas úteis. O dinheiro, a cultura, o sucesso, a popularidade, os bens materiais e todos os símbolos de status são falsos ídolos que levam a mais retumbante infelicidade quando são tratados como fins em si e não como simples meios para se obter o que verdadeiramente importa. 

Isso não significa. é claro, que você deva doar seus bens e viver na rua. Eu não estou dizendo para ninguém virar trouxa, mas viver com finalidades elevadas, ser uma pessoa boa ao ficar dizendo que é isso para os outros para que acreditem em sua hipocrisia, como muita gente faz hoje em dia, acreditar realmente em alguma coisa ao invés de usar sua crenças como desculpa.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

 era menino
e havia um campo
no qual sonhava amar
mas quisera ter amado em qualquer lugar

( o amor não veio)

o campo é hoje feito de cinzas
os sonhos morreram
o amor se acabou
o menino cresceu
ficou forte seu corpo
mas um coração desapaixonado
repousa calado em seu peito

(quisera ser fraco, mas ter amado
pelo menos por um dia)

o rapaz que ontem seguia em frente
sem medos
envelhecido precocemente
prefere agora ficar quieto
no seu lugar
na segurança absoluta do nada


-x-

Acordou, olhou para os lados. Não sabia onde estava. Voltou a dormir. Em seu sonho (que, como nas televisões e fotografias antigas, era em preto e branco) nada viu. A escuridão mais absoluta o cercava (tanto na vida como no sonho). Seu coração estava gelado, mas a pele ardia em febre. Morreu assim, solitário e adormecido. Não sentiu a vida, nem sentiu a morte. Ninguém chorou por si, nem compareceu ao enterro. Hoje, ninguém se lembra dele e o local onde foi enterrado nascem flores ao acaso. Foi assim seu ocaso.
Mas, em uma outra parte do globo terrestre, uma mocinha cheia de vida cantava a canção da moda.
Numa floresta nem tão distante, gorjeava alegremente um colorido passarinho. Num lago azul pululavam pexinhos. Todos eles e até as flores que brotejam nos bosques, as cascatas que se projetam incólumes nas pedras e todas as coisas que não sabem se são tristes ou alegres, mesmo essas ignoravam totalmente o destino dos que foram abandonados.




segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Me dá um beijo, vai?

Beijo. Queria só um beijo. O que é um beijo? Um
simples momento? Um instante? Um átimo? Qual o mistério do beijo que nos faz delirar na duração de sua fugacidade? De um mero tocar de lábios ansiosos à exploração mútua das línguas, dos céus das bocas, exploração que leva ao céu paradisíaco do amor, todo beijo é a eternidade resumida num momento. Não há instante em que meu coração pulsa mais acelerado, fazendo latejar minhas artérias, minhas veias, meu coração trepida num frêmito oscilando entre a delícia e o gozo, do que o singelo instante de beijar minha amada. É um encontro de almas que se dá através da carne espessa dos lábios. Meu corpo se alucina e dança sôfrego num bailado desequilibrado do mais puro desejo quando vejo teus lábios úmidos, carnudos, pedindo os meus. Quando flexiono meu corpo em direção ao teu e nossos rostos se aproximam, o primeiro sinal do teu desejo é teu gostoso hálito que me inebria e aquece. Nunca toco teus lábios com os meus olhos olhando teus olhos, pois fecho os meus para me concentrar só na umidade da tua carne. A aí conversamos esta conversa sem palavras e sem sons que é o beijo. A sintaxe do meu beijo é a exploração sem destino certo da minha língua que erra perdida nos prazeres de tua boca que neste instante se torna infinita e inescrutável. Não há momento mais mágico que este quando nossas bocas se unem e se entendem, se exploram e se descobrem, se perdem e se acham. E se por um lado o beijo se concentra nas bocas, por outro se reflete no corpo todo, nos pulmões que se expandem em busca de ar, nas veias que pulsam irrigando as mucosas das bocas e até mesmo nos fios de cabelos que se espalham no veludo da pele que se eriçam como se estendessem os braços aos céus agradecendo tanta ventura numa eterna prece. Se o beijo que traz em si a alma e o corpo é fugaz e eterno, o que dizer do beijo que nunca te dei, mas com que sonho desde toda eternidade. O beijo sonhado, o beijo que se desenha com os dedos no ar com traços imaginários. O beijo que ocupa todos desejos e que existe sem nunca ter existido. O beijo prometido, o beijo pedido, o beijo implorado. Este beijo que almejo com todas as forças que ainda tenho e te imploro, eu te peço. Me conceder este beijo é me condenar pela eternidade a te amar. Antes mesmo de todo primeiro beijo os enamorados se beijam, pois "o primeiro beijo, seja isso bem claro, não o dão os lábios mas os olhos"(O K Bernardi, Don Juan) . Que beijo mais saboroso pode haver do que aquele, que apesar de negado em palavras se concretiza. Uma moça inteligente é a que sabe como recusar um beijo sem se privar dele. Beijo.. no sonho ou na carne, não tem como explicar este doce mistério da vida. Não quero saber por que me inebria ou me enfeitiça, não quero saber tuas razões nem teus paraquês e nem porquês, só quero sentir o mel de teus lábios adocicando para sempre os meus, pois o beijo, mesmo depois de terminado, permanece nos lábios da lembrança para sempre.
Benno

Ansiedade

 Sou apressado e quero que as coisas venham antes da hora. Tenho pressa em viver e acabo deixando a vida de lado. Não sinto o cheiro de terra molhada pela chuva, não presto atenção no Sol se pondo e as canções nunca chegam ao fim.

Aprendi tantas coisas, mas esqueci de aprender o que era essencial, pois quando "você trata cada situação como uma questão de vida ou morte, morrerá muitas vezes" (Dean Smith). Este o meu problema, ficar morrendo muitas vezes por dia na ânsia de viver muito. Tudo me é preocupante e sei que não deveria temer, pois " a coisa que se deve ter mais medo é o próprio medo" (Montaigne) e "não há infortúnio maior do que esperar o infortúnio" (Calderón de la Barca). Mas, apesar de tudo, eu temo.


Os problemas, não são problemas, mas medo, ansiedade, a espera de um infortúnio que só deveria causar medo quando se tornasse realidade. Pode-se perfeitamente precaver contra infortúnios sem sofrê-los, mas não é isso que faço. Eu sofro por golpes imaginários.

Sei o que devo fazer, mas de que me adianta o saber se não sei aplicá-lo? Será que o saber é uma coisa que só vale quando já não serve? Pois é só quando estamos velhos que nos arrependemos de não ter aproveitado a juventude. Reclamamos da falta de tempo, mas não sabemos o que fazer com ele quando ele sobra e acabamos ficando entediados. São perguntas que me faço, que sei responder, mas as respostas de nada me servem, pois não as aplico.

-x-

Perdura verso que escrevo
muito e muito além
deste seu pobre autor
sobreviva ao nobre sentimento
que um dia o inspirou
e mesmo muito depois
de sua amada não mais ser sua
e de muitos outros a terem amado
que sobreviva o sentimento
no calor pulsante do verso
e mesmo após a explosão
da imensidão do universo
que ainda alguém o diga
com profunda emoção

e mesmo quando as mãos
descarnadas e enrugadas
do seu encarquilhado escritor
não puderem segurar nem um lápis
que ainda exista a lembrança
desde imenso e eterno amor

domingo, 29 de novembro de 2020

 Faz tanto tempo que eu não vinha aqui. Andava tão esquecido do meu blog. Tanta coisa aconteceu nesse meio tempo, nem sei se ainda sou o mesmo. Surpresa saber que ainda existe um blog onde eu o havia deixado. Por vezes a gente pensa que o passado não deixa marcas, mas ele na verdade é onipresente em todos nóes. Sempre fica alguma coisa do que deixamos para trás. 

Agora, são outros dias. Dias de pandemia, mudou tanto tudo a minha volta, não consigo mais me reconhecer nem reconhecer ninguém que já tenha conhecido? Acho que ficaram dos passado as boas lembranças, das ruins prefiro nem lembrar. Logo agora, quando eu estava pertinho de eu deixar Natal e o nordeste, voltando para o Rio de Janeiro, tive essa volta adiada pela pandemia. Me enchi de esperanças de viver um novo tempo. Sei que agora vivo num mundo diferente e é por isso que preciso me reinventar. Mas é um mundo certamente pior. 

As pessoas não se entendem mais e não querem ouvir ou ler, fora a si mesmas. Tempos de negação, tempos terra plana e outras idiotices ainda piores. Realmente é o fim da picada, chega a dar vergonha de pertencer ao tempo idiota como esse. por outro lado, não estou nem um pouco a fim de discutir com gente que pensa desse jeito. Sei que é uma perda de tempo e não tenho mais paciências para ouvir besteira. Realmente, não pense mais naquele cara tolerante de antes. A burrice é realmente perdoável. Mas eu descobri que ela não consegue ser humilde, ele só sabe ser arrogante e é por isso que eu não a perdoo. Ela me faz lembrar de certa vez que uma pessoa, que não era muito de ler, me perguntar se eu tinha lindo um best seller que não me interessava. Perguntou se eu era o único que ainda não o tinha lido. Eu perguntei se ela já tinha lido algum livro de Dostoievski e ela, obviamente, respondeu que não. Bom, eu estava em atraso alguns dias, mas ela estava atrasada quase 100 anos. Que vou fazer? Deixa para lá. Acho que ela ficou sem entender. Talvez eu não fosse capaz de entender também.

Vamos falar de coisas melhores. Andei relendo alguns textos. Já nem lembrava do que havia escrito um dia. Abandonei miseravelmente as letras. Mas será que ainda servem a alguém palavras de reflexão? Será que alguém usa um pouco a caixola, num tempo que as cabeças ficam dedicadas só a seus próprios pensamentos. Não vejo mais espaço para o amor. São tempos de ódio. Achei que eles tinham ficado num passado remoto, mas acabaram voltando. Será que tem alguém que ainda quer ler um poema? Os poetas se calaram para sempre ou não os querem ouvir? Alguém, me responde o que é que é, o andar do ponteiro de relógio, as palavras perdidas no vão das portas, a solidão das quarentenas se acumulando junto ao pó nos cantos das paredes, no silêncio infinito das esquinas. Onde foram todos? Não sei mais dizer o que tenho a dizer nem a quem dizer, talvez nem queiram me ouvir ou ler.  Ou seja, não sei se tenho coisa melhor para falar, apesar de ter tentado. Será que consigo encontrar dentro do meu coração o que andava perdido. Será que poderia encontrar aquele  vontade que eu tinha de deixar minha almas nas palavras, mesmo se elas não significassem nada para ninguém?

a solidão é o beijo que ao vento se solta
o prisioneiro sem escolta
a lágrima que o túmulo percola
uma vazia garrafa de coca cola
é o filho que ainda não nasceu
ou o  filho que já morreu
é a pedra que se atira ao solo
o amor que faltou declarar
a garrafa jogada ao mar
é a mãe sem bebê ao colo
é a goiaba que apodrece no galho
é uma casa sem assoalho
a solidão que é um tipo de morte
uma certa falta de sorte
que pouco a pouco me vai secando
uma faca qualquer que bem afiada me corte





domingo, 25 de novembro de 2018

Falando de Baratas, Natureza e Solidão



As baratas são indestrutíveis. Elas existem desde o inicio dos tempos, muito antes do homem aparecer na Terra e permanecerão ainda muito tempo depois destes se extinguirem. O homem sempre tentou exterminar a barata, mas esta é uma batalha perdida. Basta você lembrar das tantas vezes em que você acertou uma sapatada em cheio em uma barata e ela ainda saiu se movendo de forma repugnante, arrastando os pedaços destroçados, para saber que elas são quase indestrutíveis. Mesmo que conseguisse matá-la, de nada adiantaria, pois os ovos que deixou logo eclodiriam em miríades de baratinhas. Por incrível que pareça, as baratas surgiram naturalmente e não são fruto de qualquer experiência genética mal sucedida. A laranja, por outro lado, é uma fruta que foi criada pelo ser humano. Ela é um híbrido entre o pomelo e a tangerina. Muitas frutas são híbridas e aperfeiçoadas geneticamente. As frutas naturais são muito menos saborosas do que as criadas. O que nos causa repulsa ou medo, nem sempre vem da maldade, como a repulsa que todos temos, assim como o medo que as mulheres, em especial,  têm de baratas. Por outro lado, nem sempre o que é criado pelo homem é pior ou faz mal.
Jonas pensava diferente. Ela considerava a natureza uma coisa completamente amiga do homem. Ao pensar isso, ele desconsiderava totalmente os desastres naturais, os muitos venenos que existem em frutas e outros vegetais e as feras do mato. Não há verdade alguma no lema dos defensores da cannabis sativa, que o que é natural não pode fazer mal, os cogumelos, as raízes, as serpentes, as águas vivas e outros seres naturais venenosos que o digam.
Jonas tinha apenas medo do ser humano. Desejou ser um ermitão e resolveu ir morar na floresta. Ele imaginou  ser assim como uma espécie de Henry Thoreau, que viveu sozinho numa cabana por dois anos dois meses e vinte e dois dias. O problema é que ele não sabia muito a respeito de como viver na floresta, nunca tinha lido Walden de Thoreau ou mesmo Robinson Crusoe de Daniel Defoe. Não sabia que Santo Tomás de Aquino, de forma totalmente aristotélica, havia dito que o ser humano é um ser social, excetuando os casos em que ele se considera um Deus, muito superior aos demais, quando é um animal ou quando tem má sorte, como no caso do Náufrago, atirado a um ermo lugar acidentalmente, mas ele não era nada disso. Não sabia como construir uma habitação segura, ou fazer fogo, procurar água potável, não conhecia as frutas da floresta, como se proteger dos animais, como caçá-los, e muito menos como se orientar.
E foi assim que, iludido com a doce quimera da natureza gentil, que ele partiu para a floresta.
Lá sofreu horrores, se perdeu, passou fome e sede, foi atacado por animais, comeu frutas que lhe causaram vômito e diarreia, o que ainda mais o debilitou.
A sorte dele foi ter encontrado um grupo de caçadores que o ajudou a sair daquela situação.
Ficou alguns dias com o grupo e pode aprender a viver um pouco mais em sociedade. Deixou de ser antissocial e passou até a gostar dos seus semelhantes. Ainda assim, continuou sonhando com as coisas da floresta. Passou a ler coisas sobre a floresta. Leu Walden. Leu Robinson Crusoe. E aprendeu que ali estava a natureza, mas também estava o homem, que mesmo estando sozinho, se socializava com seus semelhantes compartilhando sua experiência, afinal, Thoreau visitava os seus vizinhos e deixou a solidão da floresta voluntariamente após o período que programara experimentar, alegando ser aquela apenas uma das vidas que queria viver. Robinson Crusoé precisou de sexta-feira. E O Náufrago vivido por Tom Hanks precisou imaginar que uma bola fosse Wilson para não pirar de tanta solidão. Conhecer a natureza é um pouco isso,  é conhecer também a relação do ser humano com a floresta, como pode haver simbiose entre coisas distintas. Isto é entender também sobre o ser humano, aceitar suas diferenças. Aqueles que ignoram o ser humano e levam em conta apenas a natureza, acabam sendo destruídos por ela ou contribuem para acelerar sua degradação. São bem parecidos com aqueles que não levam em consideração nem seus semelhantes nem a natureza. Em tempos de ódio, cada vez fica mais evidente como este se auto-alimenta e cria uma situação cada vez pior. É bem comum encontrar nos dias quem se sinta um daqueles três solitários de Santo Tomás de Aquino, se sentindo um Deus, quando na verdade é um animal que teve a má sorte de nascer entre outros tantos animais.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

O Dente da Girafa


Chegou o grande dia. Teresa finalmente vai casar com um lindo mancebo. Pedro. Bem situado na vida e elegante, lá vem o noivo, com seu fraque eum lenço no bolso. Dentro daquele bonito lenço porém, há um segredo escondido. Todo mundo traz um segredo, nem sempre no bolso, muitas vezes no coração. Este segredo estava apenas no bolso e no passado de Pedro. Qual seria? Deixemos o casamento rolar, que isto vai por si só se esclarecer.
Agora, vai entrando a noiva com seu pai e, logo a seguir as damas de honra. Quando o noivo vê uma das damas de honra, ele fica gelado de pálido, tudo porque a dama de honra que estava prevista foi substituída por outra, e ele não fazia ideia que a melhor amiga de infância e que ela tinha perdido contato, era justamente a Maria Helena, que tem tudo a ver com o segredo que ele esconde dentro do lenço.A mesma Maria Helena que ele havia conhecido quando adolescente num lugar bem distante dali alguns anos atrás.
Tudo começou quando Pedro foi participar de um safári na África. Ele queria ver finalmente uma girafa em seu habitat natural, como tantas vezes ele já havia visto nos episódios que ele assistia no mundo animal. Foi lá que ele aprendeu que as girafas são seres muito diferentes. São os animais mais altos do mundo. Nisto, tanto ele como Maria Helena se pareciam, pois eram muito altos. Já Teresa, a noiva, era baixinha.
Por outro lado, as girafas dormem em pequenos cochilos e ficam em pé quase o tempo todo.
Nisto também são parecidos Maria Helena e Pedro quase nunca dorme, ao contrário de Teresa  que dorme muito.
As girafas, apesar de serem muito altas correm muito rápido podendo atingir quase 70 quilõmetros por hora, no que se parecem muito com Teresa que, apesar de ser baixinha, foi campeã de 100 metros rasos nos jogos universitários.
Reza uma lenda africana que a troca de dentes girafa, quando acompanham uma jura de amor no dia em que a mulher perde a virgindade, possui grandes poderes. Tem o poder de realizar qualquer desejo.
Pois não é que Maria Helena era guia no safári? Durante o safári, eles se envolveram e acabaram fazendo juras de  amor, tiveram sua primeira relação sexual em que Maria Helena perdeu sua virgindade, e se ´prometeram  casar um dia e serem felizes. Tudo isso acompanhado de troca de destes de  girafa, como havia sugerido um feiticeiro dias atrás.
Quando acabou o safári, os dois de separaram e Pedro esqueceu Maria Helena, mas não do dente. E Maria Helena esqueceu do dente de girafa mas não de Pedro,
Passados os anos, Maria Helena nunca tivera notícias de Pedro, Tinha o dente guardado no fundo do baú e não se lembrava deste pequeno detalhe. Não acreditava na lenda. Mas lembrava de todo o resto, do seu romance com Pedro, das juras de amor, de prometerem se reencontrar já com as vidas feitas e se casarem, terem filhos e serem felizes.
Pedro, por outro lado, rapidamente esqueceu Maria Helena. Mas trazia sempre guardado em um lenço o dente de girafa e, sempre que tinha uma dificuldade, o dente de girafa o assistia.. Foi assim que cresceu na vida, se tornou bem sucedido, hoje estava rico. Era hora de casar e constituir familia, Nem pensou em suas promessas ou em Maria Helena. Ela fora apenas uma aventura de férias, nunca levou isso a sério. Não sabia que não se podia prometer e descumprir para uma moça apaixonada. Não sabia também, e esta era uma parte da lenda que ele havia esquecido ou não prestara atenção quando o feiticeiro o alertou, que o demônio ou entidade que era invocada pelas juras de amor quando da cerimônia da troca de dentes de girafa, não perdoava o descumprimento das promessas e, caso isso acontecesse, ela viria depois cobrar.
Dias atrás, qual não foi a surpresa para Maria Helena, quando sua antiga amiga de infância, disse que ia casar e a convidou para ser dama de honra em lugar de uma outra amiga que tivera que viajar repentinamente. Ainda maior foi sua surpresa quando viu estampado no convite o nome de Pedro. Na carta, Teresa havia incluido uma foto de seu noivo. Não havia dúvida, era o mesmo Pedro por quem continuava apaixonada.
Agora era chegado o dia do casamento e lá estava Pedro, com seu fraque e com seu talismã secreto o dente de Girafa. Teresa sorrindo, Maria Helena escondendo o choro, Pedro apertando o seu dente de girafa. Antes de vir para a igreja, Maria Helena finalmente lembrara do dente de girafa, procurou e achou no fundo do baú onde o havia deixado. De uma hora para outra, lembrou-se da lenda e de que a voto descumprida conferia poder a talismã de propiciar a vingança do amor traído.
Como soube que Pedro melhorara muita de vida depois de sua aventura na África, ela supôs que o talismã fora responsável pelo sucesso, mas o outro dente de girafa que nunca fora usado ainda esta novo, com sua fonte de poder ainda intacta.
Esclarecidas as coisas, voltemos ao momento do casa que ensejou esta retrospectiva. Na hora do casamento ante o espanto de Pedro, Maria Helena invocou o dente e pediu que acontecesse alguma coisa com o vestido de noiva, que ele levantasse. Um vento forte soprou um vento muito forte mesmo, soprou e levantou o vestido de noiva, A noiva, desesperada, tentava controlar o vestido, mas o vento era mais forte. O vestido subiu e subiu e subiu muito alto, Agora todos já podiam ver, em todo esplendor, a calcinha, o sutiã e o rosto vermelhos de Teresa. Maria Helena, muito feliz, pediu que o vestido queimasse. No mesmo instante, o vento fez uma vela cair sobre o vestido de Teresa, e o vestido ardeu rapidamente. Pedro, desesperado,  correu para acudir e tirar o vestido, ao mesmo tempo que tentava apagar o fogo. Teresa urrava de dor pelas muitas queimaduras que havia sofrido. Maria Helena pediu ao dente que Pedro perdesse o seu dente de girafa para sempre. Em meio ao combate as chamas, o lenço de Pedro caiu de seu bolso. Outra pessoa que tentava também ajudar, pisou em cima do lenço e na mesma hora, o dente se partiu em mil pedaços, virando poeira.
Maria Helena, satisfeita, saiu e fez ainda um último pedido. - Que o teto desabe e o dois noivos morram... Sentenciou.




quarta-feira, 15 de novembro de 2017

O Giz e as Borboletas Azuis

O novo professor de matemática era sério, mas bonitão. As moças ficaram logo encantadas, especialmente Regina. Ela era uma aluna mediana que não gostava muito de matemática, mas, com aquele professor, ela começou a se interessar. Nunca antes quisera saber de logaritmos, trigonometria ou álgebra, apenas de batom, maquiagem e roupas sexys. Aquilo tudo de matemática parecia uma grande embrulhada. Mas a voz do professor, profunda e máscula, lhe mexia as entranhas, provocava sua libido, atiçava até quem diria, a sua curiosidade.
Começou a se interessar pelas coisas da matemática que de uma embrulhada passou a ser o código que regia o mundo. A música, aprendeu a partir de então, que tanto lhe embalava o espírito, era uma tradução daquele código antigo, como uma simbologia druídica que animava os seres vivos e não vivos.
O que Regina não sabia é que tinha um grande admirador secreto logo ao seu lado. O estranho Paulo, que não desgrudava os olhos da menina. Ele achava nela tudo de atraente e encantador, mas nunca revelara nada a ninguém. Não se achava merecedor, mas mesmo assim sonhava e todo mundo pode sonhar sem interferência se mantiver seu sonho só para si. 
Mas, coitado, não havia nascido com atrativos e as moças não davam bola para ele. Os outros meninos também não gostavam dele. Ele sabia disso e por isso não se atrevia a se declarar para Regina. 
Todo dia ele acordava cedo e se aprontava antes dos outros para ir observar a menina indo para a escola.
Ficou com um verdadeiro ódio quando percebeu que todas as atenções dela se concentravam no professor. Lhe causava mais ódio ainda o fato de ele adorar matemática e ela odiar e, também, a mania que ela tinha de pegar o giz que o professor usava durante a aula e guardar na bolsa. Todo dia ela pegava um giz e colocava na bolsa. Para que ele não podia adivinhar e justamente por isso ele detestava aquele hábito.
Um dia, cismado com a mania de colecionar giz usado pelo professor, pensando que, talvez, o giz fosse para ela um elemento erótico, percebeu que uma borboleta azul o seguia. Ele sentou num banco de praça e percebeu que a borboleta pousou em seu ombro. Ficou observando a borboleta, mas não a conseguia ver pois só conseguia ver Regina. Ali estava, a sua disposição, em todas as suas cores o esplendor natural de uma borboleta, que por qualquer motivo desconhecido o confundira com uma flor. O mundo todo rejeitara Paulo, mas Paulo rejeitara a borboleta porque não conseguia ver nada além de Regina e o professor de matemática, as fontes de todo o seu amor e ódio. Talvez a borboleta azul fosse atraída exatamente o que rejeitavam os humanos.
A borboleta o seguiu o dia todo, mas ao final da tarde encontrou uma flor onde pousou e desistiu de Paulo. A partir desse dia, sempre havia uma ou mais borboletas por perto de Paulo, mas ele deixou de repara nisso.
Regina, por sua vez, chegava em casa, olhava para o seu giz e imaginava ele todo cheio do cheiro do professor. E imaginava-se perdendo em seus braços, misturando seu corpo ao dele.
Ela começou a segui-lo. Não percebeu que por sua vez era seguida. Um dia, o viu entrar em um café. Ela se decidiu e entrou em seu caminho, dando uma trombada e caindo em seus braços. Seus olhos, fingindo surpresa e esbanjando sedução, pousaram nos olhos  do professor e este se sentiu fortemente atraído. Não era para menos, Regina nascera com aquele encanto que deixa os homens desarmados. Ele pediu desculpas e a convidou para tomar uma café. Em pouco tempo estavam conversando como velhos conhecidos. Ela e o professor esbanjavam tudo que tanto faltava a Paulo. Não demorou e ele a convidou para sua casa. O que lá aconteceu não foi conhecido mas adivinhado por Paulo, que não parava de os seguir. Ele fotografou tudo. Eles se encontrando no café, conversando, entrando na casa do professor, saindo horas depois com um sorriso de felicidade no rosto. Sim, Tinha sido a primeira vez de Regina, Enfim, seu primeiro homem. E ela ficou completamente apaixonada. Ele, nem tanto, Era só mais uma. Era casado e aproveitara o fato da esposa estar viajando para dar uma fugida e, apesar de Regina ser linda, ele não queria comprometer sua vidinha arranjada e pacata.
Paulo, morrendo de ódio, levou as fotos para a diretoria. A diretoria, ao saber do acontecido, convocou o professor e o demitiu, 

Regina, ao saber que o professor sido demitido e havia mudado de cidade, entrou em desespero. Dois dias depois, foi encontrada morta, abraçada a  um saco cheio de pedaços de giz molhados por uma substância que depois constataram provir de lágrimas. 

Nunca mais ouviram falar de Paulo. 
Um ano depois, quando ninguém mais lembrava da tragédia, uma garota desapareceu da escola. Encontram-na dias depois na mata, seu corpo nu e sem vida na floresta. A arma do crime, sua calcinha e sua bolsa foram mais do que suficientes para incriminar o zelador da escola, apesar deste alegar não saber como aquelas coisas foram para ali. Ninguém reparou que a vítima era muito parecida com Regina e seu corpo fora encontrado coberto de borboletas azuis.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017


Sergisvaldo era assim desde menino. Com seu olhar, dominava a todos. Os pais, os amigos, os professores, adultos, velhos e crianças morriam de medo daquele olhar. Ele se acostumou com aquilo e obtinha tudo que queria com um simples olhar. Seu olhar era uma ordem e pronto. Nunca ninguém havia tentado descobrir o que aconteceria em caso contrário.
Sempre foi assim, até conhecer Marisnalva. Ela tinha o olhar ainda mais poderoso, pelo menos para ele. Ela também foi a primeira a contestar seu olhar e a sua primeira mulher de verdade também. Foi amor a primeira vista e foi a primeira vista que ele se entregou  aos seus comandos. Se casaram em pouco tempo.
Ele obedecia e tinha medo. Ela o surrava vez por outra com um terrível chicote e ele simplesmente não conseguia reagir àquele olhar. El,e que de mandão virou submisso, de lobo se viu transformado em cordeiro,  aguentou aquela situação apenas por algum tempo. Um ano e meio, para ser mais exato.
Um dia, quando ele quis de verdade realizar uma fantasia sexual e Marisnalva não o permitiu, apesar de suas insistência e apesar de ele nunca ter se recusado nada a ela, por mais estranho e humilhante que fosse. Não só recusou como acabou o surrando com o chicote e enchendo suas costas de lanhos sangrentos, e o amor se transformou em ódio, na mesma intensidade só que ao contrário.
Ele decidiu que só tinha um jeito. Era matar Marisnalva ou se condenar a submissão por todo o sempre. Ficou com a segunda opção, é claro.
Ele deixou um facão sob a almofada do sofá. Não havia perigo dela descobrir pois ele é quem arrumava a casa. Isto ela deixou claro desde o princípio. Mas, chegado o momento dele executar seu plano, aproveitar que ela estava distraída e golpeá-la pelas costas, ela se virou e o fuzilou com seu olhar mais indiscutível e ele recuou e desistiu como sempre.
Num primeiro momento, ele desistiu da ideia, mas depois descobriu por acaso que ela o estava traindo com outro homem e resolveu-se novamente a enfrentá-la. Mas, para isso, primeiro precisava treinar. Talvez, se se acostumasse a matar, enfrentasse a situação e se acostuma-se a ela, talvez não recuasse numa outra tentativa. Resolveu começar com alguma vítima ao mesmo tempo aleatória e indefesa.
Uma criança. Porém as crianças tem pais. Mesmo assim, é um bom começo, não tem força nem experiência para se defender.
Foi ao parque. Os brinquedos ficam ao lado de uma floresta. Um lugar muito estratégico. Observou o parque a procura de uma mãe distraída. Havia uma que deixava sua filha a vontade, enquanto lia. Durante uma hora, apenas uma vez foi verificar como estava a filha. Depois, continuou lendo. Ele atraiu a menina oferecendo um pirulito. Foi a chamando em direção a floresta. Lá chegando, viu a criança a sua disposição. O seu lindo pescocinho a disposição para ser esganado. Mas, que nada. Sergisvaldo ficou com pena. Pensou consigo - O que é que estou fazendo? Matar uma criança ? Que covardia. Deixou a criança ir.Foi seu primeiro fracasso.
Da segunda vez, resolveu atacar uma velhinha. Sim, uma velhinha seria uma boa. Indefesa, já viveu bastante e tem pouco por viver. Como treino seria legal.
Soraia, tinha oitenta e dois anos. Foi sua primeira vítima. A coitadinha mancava e não enxergava bem e, por isso, não pode oferecer muita resistência. Para começar foi bom. A velhinha gostava de passear com seus gatos à noite e fio fácil surpreendê-la numa viela escura e solitária, dessas que existem em quase todos arrabaldes pobres das cidades.
Da terceira vez foi mais ousado. Acompanhou um rapazinho por dias, estudou seus movimentos. Viu que ele era calado e solitário e, por isso, sofria bulying dos colegas. Não tinha amigos e gostava de buscar os caminhos mais longos e solitários tanto para ir para a escola como para voltar para casas. Era claro que o menino não se sentia feliz nem em casa nem na escola, ou seja, não era feliz em lugar algum. Começou a encontrar um sentido nas coisas que estava fazendo. Matar aquele rapaz seria livrá-lo de um peso. Sentiu orgulho e percebeu que começara a gostar do que estava fazendo, esquecendo por completo das muitas vezes que humilhara seus colegas na escola quando ainda era um menino. Desta vez, ao praticar seu ato atroz, não sentiu nojo. Teve até prazer no que fez. Em seu delírio chegou a ver gratidão nos olhos que na verdade expressavam pavor na hora da morte.
E aí foram muitas vezes, muitos assassinatos. Ele foi para as manchetes dos jornais - Assassino em série atava de novo. E foi ficando viciado em matar. E foi adiando seguidas vezes o assassinato que no inicio serviu de pretexto para ele se tornar o que era. Um psicopata cruel que sente prazer no sofrimento dos outros.
Porém não praticara todos aqueles assassinatos. Pois não é que um outro assassino lhe seguia os passos e imitava seus métodos. Boa parte dos assassinatos não fora ele que cometera, mas outro ou, quem sabe, outros assassinos que atuavam na região. Este outro era até mais cruel, pois sempre deixava sinais de ter torturado a vítima o que causava mais horror. 
Finalmente, já se sentia seguro para concluir seu plano, ou seja, assassinar a mulher. Ele já se sentia forte o suficiente para enfrentar aqueles olhos dominadores.
Entrou decidido foi procurar debaixo da almofada do sofá onde havia  escondido o facão com que pretendia golpear a sua última vítima. Sim, última. Decidira abandonar aquela vida de crimes após atingir sua meta final. Sabia que era errado continuar aquilo. O outro assassino acabaria recebendo a fama pelos seus crimes, mas ele não se importava com a repercussão. 
Mas, surpresa! O facão não estava lá. Alguém o tinha retirado, tinha certeza. Quando começou a se ligar de quem poderia ter sido, já foi tarde demais. Recebeu o primeiro golpe pelas costas e caiu no chão, prostrado e inerme. Logo em seguida, escutou a voz de sua esposa. 
- Você achou mesmo que poderia ter feito tudo isso sem que eu descobrisse? Não só descobri como fiz o mesmo. Eu sabia que você ia querer me matar, que era para isso que você estava treinando para pegar coragem. HAHAHAHA. Que ridículo que você é. Quando você vai, eu já estou voltando, será que ainda não entendeu isso?
Golpeou várias vezes até vê-lo bem morto, afogado em uma poça de sangue. 
Ao terminar, ouviu as sirenes dos carros de polícia ao redor da casa. Saiu de braços levantados e gritou. 
- O assassino era o meu marido, descobri ontem e tenho provas disto. Ele ia me matar. Deixou isto escrito em seu diário. Eu o matei em legítima defesa. Ele está aqui no chão da cozinha mortinho da Silva. 
Será que Marisnalva ia conseguir explicar a razão de tantas facadas. Só o ódio as poderiam explicar.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

A coisa



Era já noite avançada e eu dormia a sono solto. Despertei ouvindo um ruído, cacos de vidro partindo, estilhaços, rangidos, um misto de tudo isso e ainda mais. Depois, não ouvi mais nada, só o silêncio da noite. O silêncio da noite é como um sussurro, que não diz nada, mas diz tão profundamente que assusta.


Foi em meio a este silêncio que se seguiu ao ruído, que a coisa, um vulto obscuro e tenebroso, se aproximou de mim . Não sabia se era uma sensação ou alguma outra coisa. Se era real ou imaginário. Só sei que estava ali, se aproximou e me tomou e eu passei a ser dois ao invés de apenas um. Senti que era uma coisa terrível que vinha de algum lugar tenebroso e o qual iria conviver por muito tempo. Era alguma coisa que, perdida e sem corpo, procurou um para compartilhar e achou o meu.

Agora, eu não sou apenas eu, mas sou dois. E este outro com que compartilhava tudo, digo até que contra a minha vontade, era mais forte do que eu.

Pensei em me matar, mas a coisa me tomava e dizia - fique, tenho outros planos para nós, mas não era bem assim que ela dizia, pois dizia algo assim como se fosse um sussurro, sem palavras distinguíveis, como tentáculos que nos apertam a garganta e nos fazem sufocar, mas que eram tão convincentes que não restava outra senão atender sua ordem. Ordem! Comando! Sim, era assim que a coisa comandava a mim e a meu corpo. E entendia que não podia haver mais ninguém em minha vida.


A partir deste dia  fui eliminando as pessoas que faziam parte da minha vida, pois agora minha vida era ser o veículo em que a coisa realizaria seus propósitos, desculpa se insisto em chamá-la de coisa, mas não sei mais do que chamar. Ela não se apresentou, só possui meu ser e pronto.


Naquela mesma noite, Sueli, minha namorada, vinha me visitar. Era o dia da semana em que nos encontrávamos. Namorada não é bem o termo, pois só nos encontrávamos para ter sexo. Ela era casada, mas o marido havia arranjado uma amante e acabaram fazendo aquele acordo tácito em que cada um podia procurar satisfação fora do casamento.  Era meu dia favorito da semana, pois ela era linda e sensual. Seu cheiro me inebriava. Não sei como o louco do marido a deixava para mim. Talvez pensasse assim apenas por não conhecer a outra.


Bom, ela veio esta noite vestida para matar. Se fosse eu sozinho a estar dentro de mim, eu a teria agarrado ali mesmo e a amado como todos meus poros, suor, coração e lágrimas, teria fundido as nossas carnes numa erupção ardente de brasas.

Mas a coisa não me deixou reagir do jeito que eu costumava, como o ardente amante que eu sou. A coisa começou me dizendo - você precisa se livrar dela. Somos só eu e você agora. Não precisamos e ninguém para nos atrapalhar. E aí eu respondia para a coisa - o que quer dizer com se livrar dela? - Mate-a, estragule-a, sufoque-a. Deixe-a sem ar e sem vida. Na verdade ele nada me dizia, mas eu ia traduzindo, em total sintonia, o que ele me transmitia telepaticamente.

Mas fazer isso como ?  Eu nunca fiz isso, nem sequer cogitei matar alguém, acha que é assim, que basta dizer mate e a pessoa já sabe matar?  Mas a coisa, ao invés de responder me deixou claro, telepaticamente, indiscutivelmente o que era para eu fazer. E todo o método frio e desumano de matar alguém me surgiu pronto na mente, como se fosse o resultado de anos de reflexão, mas tudo se deu em apenas segundos.

Sem pensar comecei a preparar tudo. Ela estava deitada, esperando meus carinhos. Eu começava sempre por um beijo demorado. Ela gostava de sentir minha língua e me perguntar qual era o sabor que eu sentia.

A coisa me fez entender de forma diferente o que ela queria com aquela pergunta. Não sei se era isso, acho que não, sempre pensei que ela queria saber se estava saborosa, cheirosa, mas a Coisa me induziu a pensar que, talvez, eu pudesse sentir o gosto de outro beijo.  Me subiu uma raiva e a sufoquei, sem pensar,  com o travesseiro. Senti ela perdendo as forças. Aquela vadia. Quando dei por mim, vi que quem dizia aquilo era a Coisa e não eu. Por um momento , ela assumira o total comando, tempo o suficiente para que Sueli tivesse morrido asfixiada.  Tive que destruir as provas. A coisa foi me dizendo o que fazer. Na verdade, a coisa não dizia nada para mim. Iam surgindo os comandos na cabeça, sem que ninguém precisasse dizer nada. Realmente, é uma coisa difícil de explicar, tenho certeza que ninguém vai entender porque fiz o que fiz. Não foi por escolha, mas por que eu tinha que fazer, eu não podia contradizer aquilo que me invadiu no silêncio da noite, para me fazer de instrumento dos seus desígnios. Como eu dizia, eu cortei o corpo em pedaços e os dissolvi em ácido. Ácido, que ácido? O ácido apareceu lá. Estava no fundo do porão. Não sei porque algum dia eu teria precisado de ácido sulfúrico e clorídrico, mas meu subconsciente havia pedido e eu atendi sem saber o porque. Era como me a coisa não apenas tivesse tomado a mim, mas ao meu passado, à minha história. Era se ela possuísse a minha identidade. Mas, eu juro. Não era eu que estava ali, era apenas a Coisa exercendo sua tirania sobre mim.

Da mesma foram todos os outros, os amigos, os parentes, fui convidando um por um para ir lá em casa e os fui eliminando até não sobrar mais ninguém. Aí a coisa disse para eu seguir em frente com a execução dos seus planos.Nunca tive consciência do que ela pretendia e até hoje não sei. Ela sempre se recusou a me explicar seus planos.

Eu era apenas uma peça no seu tabuleiro de xadrez. Não tinha consideração por mim e apenas usava o meu corpo, pois ela não possuia  um que fosse seu. Quer dizer, meu corpo era seu, por assim dizer,  mas eu ainda existia ali, de uma certa forma. Eu era como um ser mantido vivo apenas para ser consumido. Acho que se não houvesse mais eu dentro de mim,  meu corpo iria junto e é por isso que ela me mantinha vivo, como que respirando por máquinas e mantendo as funções vitais apenas para que meu corpo não morresse.

Sei que parece absurdo, mas eu garanto ser verdade. Há muita coisa além da ciência e da realidade. Além disso, há o mistério. Quem é que poderia viver sem ele?

Depois de ter eliminado uma por uma as pessoas que poderiam interferir, me deixando só neste mundo, a Coisa colocou seu plano em ação. Qual ele seja, não sei. Ela nunca me contou. Tentem entender vocês, pois eu não consigo compreender.

Primeiro, ela me fez ir ao cemitério e, diariamente, comecei a roubar os corpos dos túmulos. 



Nossa amada Leninha, descanse em paz. Descanse eternamente, pai. Passant, ne pleure pas ma mort, Si je vivais tu serais mort.. Passei a colecionar mentalmente epitáfios. Acho que era para distrair a mente do horror que eu fazia. É que nem por um momento deixei de ter consciência que aquilo era errado, que não devia se desrespeitar os mortos, que não se devia mexer com as coisas do além. Me perdoem os familiares e as almas dos que violei o túmulo. Eu não tinha alternativa.

Acho que foram centenas. E a Coisa me fazia acumular aqueles restos mortais no porão. Cada um em uma caixa e eu tinha que escrever o nome do falecido na caixa.

Depois, foram as velas, uma para cada corpo, uma faca de prata, um serrote, um martelo, uma foice, uma picarta, algemas e outros itens de tortura e macabros. E a cada novo item, ia se formando aquele ritual macabro e satânico. Não consigo compreender o que ele queria. Acho que queria formar uma legião se zumbis, ou sacrificar ao diabo ou ao vampiro as almas daqueles mortos.
Enfim, o item que faltava. Uma criança, um inocente. O sangue de um inocente tinha que ser derramado, não sei bem com que propósito, era, provalmente, parte essencial do ritual, para que seus desejos lúgubres fossem atendidos.

Não sei e nunca vou descobrir para que tudo aquilo, pois vocês chegaram bem a tempo de evitar a catástrofe a hecatombe. Quando eu estava com o machado pronto para decapitar aquela pobre crinaça, vocês chegaram e impediram que a Coisa realizasse seu ritual. Vinham me seguindo desde que deram pelos primeiro túmulos violados. Me surpreenderam justamente quando eu iria iniciar o ritual dos mortos.

Não acreditaram em mim, não acreditaram que havia realmente a Coisa. Achavam que eu tinha inventado tudo aquilo para escapar da culpa, para escapar da pena. Claro que não, jamais deixei de me dizer culpado, só queria que atentassem para a Coisa e que a parte maior da culpa recaísse sobre ela.

Sob tortura, acabei confessando o que não era verdade, que fui o responsável consciente pelos meus atos e que a Coisa tinha sido inventada por mim. Isso é que o pior, saber que a Coisa vai continuar solta por aí, tomando o corpo e a vontade de outras pessoas. Dizem que eu menti, mas dizem isso por nunca terem tido a coisa dentro de si. Não tenho motivos para mentir, tanto é que prefiro a morte. Eu exigi que me condenassem a morte, tal o horror que tinha ao pensar que  a Coisa, que depois que fui preso me deixou, volte e me tome novamente.

Oh, desgraça, me condenaram a apenas trinta anos de prisão.

Sei que o que fiz é o horrível, mas não fui eu e tenho medo de ter que fazer novamente, pois a Coisa prometeu que volta assim que vocês me soltarem após eu cumprir minha pena. Só de pensar nisso, tenho calafrios. É por isso que resolvi me suicidar e deixar esta carta, me desculpando com as muitas pessoas que prejudiquei.


OBS : Esta carta foi encontrada firmemente segura pelos dedos hirtos e endurecidos do priosioneiro, que usou tolhas e lençóis para formar uma corda e se enforcar.


sábado, 15 de julho de 2017

Eu tenho este estranho hábito de ler os quadros de avisos. Todo mundo acha que num quadro de avisos só tem coisas bem pouco interessantes, tipo :

- Geladeira nova a preço de usada! - teria cabimento geladeira usada a preço de nova?

- Aluga-se formoso apartamento de frente para praia, e que tal, ao invés, aluga-se formoso apartamento de frente para os fundos? Eu fico brincando de anúncios! É divertido. Assim, é possível transformar uma coisa chata numa coisa divertida. 

Por exemplo, quando  acontece de estarmos assistindo uma aula ou palestra bem chata, sabe daquelas que dá vontade de dormir mesmo sem ter sono?
Não que eu ache aulas chatas quando não são. Tem muita gente que acha chata qualquer aula, mesmo as que não são. Gente chata, pois só acha tudo chato quem tem a chatice dentro de si. Eu tendo a achar legal o que é chato para todo mundo e chato o que é legal para todo mundo.
 Não se trata de ser do contra, mas de ser diferente mesmo.Tem gente que acha que faço isso para ser do contra, mas, como não é por isso, tendo a manter em segredo o que acho legal e o que acho chato. Querer ser maior é diferente de querer ser diferente, se é que o que é sem sentido possa fazer sentido. Esta é a direção sobre a qual se deita o meu destino. O plano osculatório onde se espalham meus planos.  

Quando eu estou assistindo uma aula de matemática, por exemplo, o professor explicando a equação do círculo : 

- O círculo é o lugar geométrico dos pontos equidistantes de um ponto chamado de centro do círculo - imagina aquela voz modorrenta dizendo isso. Eu adoro matemática, mas até isso pode ser chato numa voz dessas. E aí, ele contínua : Não confundam círculo com circunferência, pois o primeiro é   a figura o outro o seu comprimento ou perímetro.
Um círculo é um polígono regular de infinitos lados... aí eu imagino, um infinitógono. hahaha, uma piada matemática. E que tal um infinitaedro, ou seja, uma esfera? E que tal o infinito, tadinho, apenas um oito dormindo, porque tanta empáfia? O oito dormindo como é representado o infinito é uma grande lição para os que se acham grandes, cheios de empáfia, mas que não conseguem entender a grandeza desta pequena lição e não passam de um oito dormindo, sem jamais atingir a grandeza do infinito que este símbolo representa. Será que, quando uma esfera se deita, se é que seria possível pensar numa esfera deitada sem se valer de uma quarta dimensão,  vira um octaedro? Só se for regular e convexa, naturalmente. 

Aí, quando ele vai explicar que, a partir da expressão da distância no plano cartesiano, ou seja, que a distância é a raiz quadrada da soma do quadrado das coordenadas, se deduz que o quadrado do raio do círculo é igual a soma do quadrado das coordenada e isso expressa a equação de um círculo com centro na origem e que, para expressar um a equação de um círculo de centro em um ponto qualquer x0, y0 basta fazer uma translação de eixos, ou seja x´ = x - x0 e y = y - y0 e agora x' ao quadrado mais y' ao quadrado igual ao raio ao quadrado. 

Todo mundo dormindo, mas eu imaginando o professor vestido num barril por ter perdido a roupa e que,  vestindo  também um chapéu de mestre cuca, vai ensinando uma receita de bolo de chocolate, a uma turma que, ao invés de dormir, como oito deitado que são, olha embasbacada a infinitude absurda de um bolo de chocolate.

Todo mundo dormindo, eu rindo.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Entre a aspirina, o anão e o passaporte


Estava eu com uma tremenda dor de cabeça, daquelas de rachar o crânio. Eu não gosto de tomar remédio, mas daquela vez não estava dando para aguentar mesmo. Como não costumo tomar remédio de espécie alguma, especialmente analgésicos, o efeito dele é tiro e queda. É tomar e passar  a dor, ao contrário dos que são hipocondríacos e vivem se encharcando de fármacos. A dor é  bastante edificante e não porque se render ao primeiro sintoma, enfim, não entendo tanta fraqueza. Mas, quem sou eu para julgar os outros. Cada um é que sabe de si, pois não sabemos de fato se a dor que sentimos é a mesma dor que outra pessoa sente. Deve haver pessoas mais sensíveis a dor do que outras.
Mas, onde encontrar remédio na casa de alguém que não toma remédio? É porque não tomar remédio chega a se uma doença em mim. Procurei em todo canto e não encontrei. Encontrei todo tipo de coisa que estava perdida, as chaves que me fizeram trocar a fechadura da casa, os documentos que tive que tirar uma segunda via, tudo menos o maldito analgésico.
Não queria sair de casa me sentindo daquele jeito, mas não via alternativa.
Procurei em todas gavetas de todos os armários e não encontrei sequer uma aspirina. Sabe, eu prefiro tomar aspirina, não sei porque não quero saber de dipirona, paracetamol, e outros analgésicos populares.
Enfim, decidi ir até a farmácia.
Quando lá cheguei, havia um anão sendo atendido pelo único atendente disponível. E o anão, além de ser muiiiiiiiiiiito baixo, era muiiiiiiiiiiiito chato. Sabe daquele que acha que todos os remédios são caros ou não prestem e pedem sempre uma opção alternativa que não serve também e pedem mais outro até desistir de comprar. E quando desistem de comprar para procurar em outra farmácia, passam para outro item de uma lista interminável de remédios. Pois o anão, além de baixo e chato, também era hipocondríaco. E assim, foi rachando aos poucos minha cabeça, quando, de repente me lembrei que naquele dia era o último dia para eu ir pegar meu passaporte e acabei me esquecendo por causa da dor de cabeça. Caramba, vou ter viajar dentro de um mês e ainda tenho que providenciar o visto.
Seria uma viagem de negócios. Meu chefe me pediu para participar de uma reunião com um cliente no exterior. Seria a primeira vez que sairia do meu país. E esta dor de cabeça para atrapalhar.
O que seria mais importante? O passaporte ou a dor de cabeça?São tantos dilemas que temos que enfrentar pela vida. Isso ou aquilo! Sempre resta a dúvida e uma grande lição que aprendi na vida foi lidar com este grande algoz que é a dúvida.
Coitadas das pessoas que não entendem que uma parte das grandes questões que lhe atormentam são coisas nebulosas que ninguém sabe ao certo a resposta e que as respostas talvez nem existam. Tudo é fácil quando é com outras pessoas ou se é meramente hipotético, mas quando se entra no jogo a dúvida é uma verdadeira tortura.
Certamente, todos diriam:  O passaporte! Isso porque não sabem a dor que estou sentindo e isso porque eu sou uma pessoa quase imune a dor. Tenho vários exemplos para citar. Teve aquela vez, quando eu era menino e um menino que eu havia encrencado foi buscar sua patota para me dar uma surra e como fiquei orgulhoso de não ter dado um pio. Eles ficaram tão impressionados, que fugiram assustados. Me senti um espécie de super herói. Mas, de que vale ser um superherói se não se aguenta uma dor de cabeça? Eu devia era dar umas porradas no anão, mas me acusariam de discriminação. Eu não tenho nada contra os anões. Só contra aquele anão que não acabava nunca sua lista infinita de remédios de que não precisava ou não queria comprara. Era um anão que veio ali apenas para irritar o vendedor. Era uma verdadeira vingança contra todos os anões vilipendiados, humilhados e discriminados que havia no mundo. Mas a vítima da vingança agora era eu. Logo eu que sempre fiquei ao lado dos fracos e oprimidos. Se soubessem a minha revolta quando soube que na França havia uma competição de arremesso de anões a distância. Não que não fosse engraçado imaginar o pequenino sendo pego pela perna por um fortão que ia girando, girando e girando loucamente em torno de sua cabeça, enquanto isso o anãozinho urrando, até soltar e ir correndo ver a que distância que ele havia caído. A vontade que dá da gente rir, vem certamente de um espírito cruel que habita nosso subconsciente. Mas, pensando bem, não havia nada de revoltante imagina AQUELE anãozinho chato sendo arremessado.
Aí imaginei o Samurai Gourmet. Seu samurai entrando feroz na farmácia e dizendo tudo que eu desejaria ter a coragem de dizer. E arremessando o danado do anão, é claro, lá no meio da rua e uma caminhão passando sobre o anão, engatando uma ré e passando de novo, até que o pequeno e chato anãozinho tivesse virando uma simples pasta confundindo-se com a tinta do asfalto.
Ei, que legal! Meus pensamentos malvados me fizeram distrair e, quando dei por mim, a dor de cabeça havia definitivamente passado. Agora podia ir pegar meu passaporte. A imaginação é um santo remédio.


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Adilson queria presenciar um milagre. Via um passarinho e pedia aos céus para o passarinho pousasse em sua mão. Mas o passarinho seguiu seu caminho, não dando a mínima atenção ao pedido de Adilson.
Isso acontecia todos os dias. Adilson esperava acontecer o milagre e o milagre insistia em não acontecer. Ele achava que era por não ter suficiente fé, mas se ele precisava tanto daquilo era exatamente para não perder o pouco de fé que ainda tinha. Se Deus estivesse ouvindo, certamente iria atender suas preces. E a medida que tentava crescer sua fé, sua fé diminuía.
Um dia, cansado, resolveu seguir seu caminho e ignorou o passarinho. Então, aconteceu o que ele tanto queria: o passarinho voou e pousou em sua mão. Logo agora, quando ele já não mais cria.
A partir desse dia, o passarinho o seguiu, como se segue um amigo que se deseja confortar, como se conforta um amigo que havia perdido a fé.

Eduardo estava apaixonado por Luiza. Mas Luiza não o queria.
Todos os dias, Eduardo insistia e dizia : Te amo Luiza, namora comigo, vai?
Não, ela respondia. Eu não te amo. Não posso te amar, pois amo outro rapaz.
Mas Eduardo não desistia. Eu te amo, Luiza, ele dizia.
E ela sempre respondia, Eu Não te amo Eduardo, eu amo outro rapaz, de olhos claros e cabelos louros. Um príncipe lindo e rico. Você é pobre e feio, por que eu iria te amar?
E Eduardo dizia, por que eu te amo e é muito bom ser amado, pois eu queria muito ser amado por você.
Chegou o dia, pois sempre haverá um dia que será o dia para tudo que ocorreu ou ocorrerá, o dia em que Eduardo disse que desistia. Foi até Luiza e disse que havia se cansado e ia seguir seu caminho, procurar outra pessoa. Esquecer seu amar e reinventá-lo em outros olhos, em outro coração, reconstruir esse amor com outros tijolos, outros materiais de construção, recortá-lo em múltiplos pedacinhos e depois colar com outra cola, uma daqueles que não desgrudam por nada desse mundo, pois era desperdício de amor amar tanto alguém que não nos ama de volta, pois seria desperdiçar o bem mais precioso, o amor, deixá-lo guardado para alguém não o queria.
- Mas logo agora, respondeu Luiza, logo agora que descobri que o rapaz que amo não me ama e que, pior ainda,  ama outra. Logo agora que havia resolvido te amar para sempre, que havia descoberto como és bonito, como é bonito e desejável seu amor. Logo agora que resolvi te amar que tu desistes.
E Eduardo, radiante, resolveu que seria a vez dela insistir. Será que um dia ela consegue dobrar a inquebrantável vontade de Eduardo de não mais amá-la? O amor é assim : feito de desencontros.
- Eu te amo, Eduardo, não desista de mim, dizia ela todos os dias.

Afrânio queria estudar medicina.
Como não tinha dinheiro suficiente, tinha que ser em uma universidade pública. Mas passar em uma delas é bem difícil, é preciso estudar muito.
Estudou e não passou. Tentou de novo e não conseguiu mais uma vez. Tentou outra e mais outra e, enfim, conseguiu passar.
Ficou feliz, mas seria só o começo. Seguir adiante, sempre, era no que ele pensava. 
No primeiro dia de curso, foi atropelado por um caminhão no percurso. Seus sonhos viram um monte de frangalhos espalhados nos asfalto.
Para uns as coisas caem dos céus e nem precisam fazer força para conseguir o que desejam. Para outros, apesar de todos os esforços, só caem dos céus desgraças.
Todos dias são iguais. Aqueles que correm atrás, não conseguem e se  decepcionam, aqueles que resolvem desistir e seguir em frente, são as coisas que já não queria  vão atrás deles, talvez até por que antes fizeram.

É tipo quando a gente estuda um assunto difícil e se toca de que não está aprendendo nada, e joga o livro na parede e quando o livro se estilhaça em mil frangalhos no chão, dá um estalo e percebe que o esforço não havia sido em vão e agora finalmente aprendeu, pois a medida que se aprende de fato, a pessoa vai se tornando mais humilde ao perceber o quanto não sabia e, então, corre-se a colar os pedacinhos do livro e se ajoelha humildemente ante os tesouros ali contidos. A arrogância só pertence aos ignorantes e é um tremendo indício dele, isto a vida me ensinou. Já percebeu como tudo é fácil para quem nada fez, pois para ele é só ir lá e fazer, mas é justamente isso é que difícil, fazer, saber o que fazer e fazer é coisa que se consegue apenas com humildade e só os que fazem, sabem como é difícil fazer. Por isso, não aprecio jornalistas e críticos, digo, desses que nunca fizeram nada, mas ficam dizendo apenas o que está errado em tudo, pois fácil demais achar o erro em alguma coisa, mas não quer dizer que achar o que está errado é saber fazer, longe disso. É como jogar o jogo dos sete erros - a gente encontra os erros mas não por isso vai saber fazer o desenho melhor que desenhista. Nos textos dos críticos é normal não encontrar soluções alternativas propostas. E quando se encontra uma, é bem provável que não vá funcionar.
 De nada adianta a ansiedade, pode-se dormir tranquilo. O que virá, certamente virá. só nos resta aceitar o demora ou pressa que as coisas vem, pois elas virão tarde demais ou antes do tempo.  Por outro lado, coitado de quem não tentar, pois só se conquista tentando, mas a chance de conseguir, infelizmente, é muito pequena, mas não tentar é ter a certeza de que não vai conseguir.
O desejo sexual explode quando ainda não se sabe quando conquistar uma mulher, mas, a medida que nos tornamos experientes e confiantes, ele definha. A sabedoria nos chega ao final da vida quando já não serve de nada, nem mesmo para transmiti-la, pois o jovem não a pode entender. Perdemos a saúde quando a temos para ganhar dinheiro para depois perder esse dinheiro para recuperar a saúde. Pois esbanjamos saúde quando não temos dinheiro suficiente para aproveitar a vida, mas esbanjamos dinheiro quando a saúde nos faz falta.
É preciso enfrentar com coragem os paradoxos da vida. Saber que o milagre só acontece quando não o esperamos, saber que o amor nasce ao mesmo tempo que morre. Saber que quando finalmente se chegou lá onde se queria, percebeu também que tudo terminou .
 



quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Em uma caverna, em plena idade média, três bruxas discutiam suas mais novas poções. Elas evocaram as forças sobrenaturais para que agissem conforme suas vontades e começaram a disputa.
Elinora foi a primeira: 
- Minha poção é feita com escamas de couro de crocodilo, uma pitada de teria de aranha, três pedacinhos de unha de cavalo, uma mecha de cabelo de bebê e dois olhos azuis femininos, mistura tudo e deixa ferver no caldeirão. Serve para picada de mosquito, coceira no dedão e pulga.
- hahahahaha! foi sua terrível e sinistra gargalhada, E a sua poção, como é.
Agora, era a vez de Narda: 
- A minha é bem simples. Ferve leite de magnésia e derrete, aos poucos, cubos gelados de sangue de canário. Depois, basta um pitadinha de de gelatina de ovo de serpente e a mistura explode, espalhando uma fumaça verde e fagulhas cor de rosa. É lindo demais. Mas não serve para nada, só para assustar -hihihihihihihi, Riu-se a beça. - E você, Dindalina? O que tem para mostrar desta vez?
- Puxa. Estou sem graça (Dindalina era uma bruxinha nova, inexperiente, tinha lindos olhos e mechas douradas lhe caiam sobre as bochechas). Minhas poções são tão sem graça perto das suas... Sou tão inexperiente.
Mas mesmo assim, tenho este creme que fiz para manter minha cutis macia e delicada. Querem provar.
Elinora e Narda, que eram horrorosas, feias enrugadas e tinham o rosto cheio de verrugas cabeludas, correram apressadas e espalharam o creme no rosto.
Subiu uma fumaça e elas se transformaram em poeira que um vento leve soprou pela janela.
Dindalina, saiu cantando, saltitante e feliz e se embrenhou no ventre negro da floresta.