segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Ainda não voltei. é só um alôzinho
 
vou dizer o tanto quanto
gosto de você
numa breve palavra
eu! e só eu,
eu ... esse simples sopro que faz a boca
essa subpartícula da língua-mãe
pois é minha própria essência esse gostar
eu e só eu, essa é a palavra
e não você ou nós ou uma outra qualquer
pois você faz parte de mim
como um braço, uma perna
ou até meu próprio coração
eu, pois dentro de mim
está tudo que eu preciso
eu, você e o sentimento
carne, alma, lingua, sangue e poros
e como resposta a esta simples sílaba
uma outra sílaba assim tanto me basta
sim e apenas sim e nunca não
sim, significando que superou
assim do mesmo jeito que fiz 
o seu e o meu próprio ego
e me aceitou e se aceitou 
do jeito que é o jeito que sou

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Fechado para balanço!
-x-

Todo dia fazia a mesma coisa. Até os passos contava e os sabia decor. Algumas vezes contava de trás para frente, só para ver se acabava a contagem em um.
Um dia quis fazer diferente e mudou seu caminho. Viu tantas coisas, tudo era diferente. Não estava acostumado com o caminho e se distraiu ao atravessar a rua (sempre aquela mania de contar os passos!), acabando por ser atropelado e morreu. Agora está morto (ou será que estava morto antes?).

-x-

Primeiro, doeu muito a separação. Mas foi curando, transformando-se em cicatriz. Por tanto tempo trouxe a chaga em seu peito que acabou acostumando. Virou apenas uma vaga lembrança. Hoje nem se percebe. O coração está pronto para sofrer mais um golpe e, por isso, ele anda soltando uns olhares sedutores para as moças.

-x-


Tomou um gole para ver se esquecia. Não esqueceu. Daí tomou um segundo, e nada.
Continuou tomando, até tomar todas. Esqueceu o que queria esquecer e hoje vive de lembrar que é sempre dia de beber.

-x-

Pela milésima vez escutou a mulher reclamando de tudo. Tudo o que fazia era motivo. E ele aceitava a reclamação calmamente mesmo quando sabia ter razão (o que nem sempre era verdadeiro). Um dia foi comprar um machado. Usou uma desculpa qualquer, uma árvore que estava atrapalhando a vista do jardim, qualquer coisa. Chegou em casa com aquele embrulho esquisito e a mulher reclamou como sempre. Chegou a pensar em disparar um golpe certeiro no pescoço para silenciar aquela ladainha, mas acabou derrubando a árvore. Aguentou as reclamações por muitos anos até que se atirou da ponte. O corpo nunca foi encontrado. E mulher continua a reclamar apesar de falta de platéia.

-x-

Gostava de cantar enquanto tomava banho. Foi cantando, cada vez mais alto. Na sua imaginação, cantava divinamente. Porém, como todos sabem, não se ouve de si próprio a voz como ouvem os demais. Sua voz zunia como a taquara que ao vendaval se racha. Para piorar, a parede do banheiro era fina, tão fina que a vibração que produzia, tinha o terrível efeito de multiplicar a intensidade da péssima voz e o eco que os tijolos ocos produziam em seu interior intesificam o insuportável som de taquara rachada. Não se importava com o vizinho.
Enquanto isso, seu vizinho sofria a punição que pensava não merecer. Rezava todos os dias para que cantor silenciasse para sempre. Como não teve atendidas suas preces, acabou por tirar a enferrujavada pistola da gaveta, invadir a casa do vizinho de descarregá-la na cabeça do pretenso rouxinol.

-x-

Sentia dor... e não conseguia dormir.
Tentou de tudo. Contar carneirinhos, prestar atenção na respiração, imaginar a ponta de um lápis. Voou para bem longe, mas não conseguiu dormir.
Cantou e não dormiu. Leu e não dormiu. Pensou e não dormiu... sonhou e não dormiu.
Sua vida se encheu da falta de sono. Tudo que via lhe lembrava do sono, ou melhor, da falta de sono.
Foi enlouquecendo.
Estourou os próprios miolos e dormiu enfim o sono eterno.

-x-
Ai, quanta desgraça. Caberia bem uma piadinha aqui para contrabalançar, mas não me ocorre nehuma no momento. O negócio é rir da vida!