Em inícios de primavera, qual o interior do frasco vazio de um perfume requintado, o ar fica repleto de odores.
Ávidas de humus, como ninfas mágicas, prenhes as plantas explodem em flores.
As árvores frondam-se em mil verdes ramagens.
As copas acenam dizendo sim ao vento.
Extensos galhos, farfalhando, mutuamente em verdes se abraçam.
A natureza toda se transforma, a luz se espalha sobre as escuridão de grotas esquecidas, iluminando o que andava escondido
O que estava morto, súbito, adquire vida própria. Por onde quer que se passeie com os olhos, só se encontra a vida.
Andava eu pelo campo, admirando a paisagem, quando lembrei de coisas esquecidas. A primavera interior, pela qual as vezes passo, pode acontecer a qualquer momento.
A primavera, tanto a externa que tem data certa, como a interna que pode acontecer até em pleno inverno, tem este poder sobre mim. O da lembrança.
A lembrança, construída aos poucos, dia a dia. No gotejar lento das horas, nos escoar espiral e sem volta do tempo.
O lembrar, quando possui o filtro adequado, aquele que nos faz ver as dores como lições e as boas lembranças como coisas que podem ser revividas indefinidamente, me faz sentir um poderoso Mago.
Um Mago que tem o poder de despertar um sorriso. Ai, quem me dera ter o majestoso dom.
Um mago que guarda uma ânfora secreta no fundo da qual repousa o a gora mágica do voltar do tempo
Foi assim que lembrei de certos poemas esquecidos... afinal, todo mundo faz coisas que depois esquece.
-x-
na palma
da tua mão
uma quimera
repousa inerme
qual doçura matutina
e a sola do teu pé
pisa encantada
o solo eterno
em soberana purpurina
e os olhos
arredios miram
prefixos
do tal destino
que promete
o horizonte
além da torre
intransponível
há uma ponte
que dá passagem
ao inevitável
e o impossível
-x-
não acredito no Sol
mas em sua luz
e a beleza da flor
não é a flor
mas a interseção
de seu contorno
com a linha de visada
dos meus olhos
a música
não é o seu som
mas seu silêncio
pois a cada nota que soa
reverenciam mudas
infindas tantas outras
de crenças e descrenças assim me faço
do ontem ao amanhã no hoje eu passo
em ti e em mim sou cego crente
e dá-me forças de ir em frente
no uno a fé que em mim dissolve
o que em ti é incréu ao fim resolve
da união do que é tão diferente
surge homogênea sob a dura lente
a mais fadada perfeição eterna
a trançar maluco das nossas pernas
-x-
Se tuas mãos são minha
casa
e teu olhar é o meu
destino
se teu corpo é meu
alento
e teu ar de minha vela é
vento
para quê ainda existo à
parte
se em teu ser sou
simples arte
mera consequência dos
teus atos
versos meus nada revelam
se meus gestos nem me
são inatos
e meus lábios
silenciosos selam a jura eterna
e condescendente que
sopro aliviado entre os dentes
inflorescências
olhos meus são tua luz.
quinta-feira, 18 de julho de 2013
quarta-feira, 10 de julho de 2013
não repare esta ruga
que vinca bem fundo
meu carregado sobrecenho
e nem na voz triste e mortiça
e o tom meio roquenho
mas o sorrir cheio de gosto
vivaz e bem esperto
que ainda insiste
em cortar todo o meu rosto
pois é bem simples a lei
que deste sempre sei
que rege o meu olhar
sem menor pestanejar
e que registra a minha face
- a noite sempre cai
mas vem o dia e me renasce -
não observe a curvatura
produzida no corpo
pelos meus doridos anos
-tantos anos
tantas marcas
tantas barcas
tantos danos -
mas repare a minha cultura
e o olhar corajoso
e jamais depoente
que ostento orgulhoso
sobre os meus vis oponentes
não repare o lado poente
em que o meu Sol triste mergulha
um lado escuro e sem memória
perdido na História
e do qual ninguém se orgulha
mas me espere amanhã
com aparência leve o louçã
enfrentando a ventania
pois eu hei de nascer de novo
e iluminar sempre o teu dia
que vinca bem fundo
meu carregado sobrecenho
e nem na voz triste e mortiça
e o tom meio roquenho
mas o sorrir cheio de gosto
vivaz e bem esperto
que ainda insiste
em cortar todo o meu rosto
pois é bem simples a lei
que deste sempre sei
que rege o meu olhar
sem menor pestanejar
e que registra a minha face
- a noite sempre cai
mas vem o dia e me renasce -
não observe a curvatura
produzida no corpo
pelos meus doridos anos
-tantos anos
tantas marcas
tantas barcas
tantos danos -
mas repare a minha cultura
e o olhar corajoso
e jamais depoente
que ostento orgulhoso
sobre os meus vis oponentes
não repare o lado poente
em que o meu Sol triste mergulha
um lado escuro e sem memória
perdido na História
e do qual ninguém se orgulha
mas me espere amanhã
com aparência leve o louçã
enfrentando a ventania
pois eu hei de nascer de novo
e iluminar sempre o teu dia
quinta-feira, 4 de julho de 2013
Dia de Sol, depois de tanta chuva
Feliz daquele que, sempre distraído, passou pelos problemas da vida e superou-os sem mesmo ter percebido que eram problemas. Problemas nem mesmo existem : são só o nome com que denominamos certas situações que exigem alguma ação. Se não tiverem solução, nem problemas são. Os problemas não existem, bem me disse uma coruja que voava ao longe sem me dizer palavra. Foi no silêncio da existência que aprendi a deixar de lado o que me acabrunhava.
O segredo estava em ser como o vento, que supera obstáculos, escala íngremes montanhas, mergulha como suicida nos mais elevados despenhadeiros, sem se perceber, sem mesmo saber aonde vai.
O segredo é ser como a rosa, que desperta nas manhãs sem perguntar a hora ou notar que o pintor nela se inspira. É viver como se fosse um sonho, uma tênue e delicada fantasia, algo que oscila entre os extremos mais opostos sem saber-se meio, é vencer e ignorar os louros, é perder e se erguer de novo sem sentir o tombo.
Delicio-me com o vôo sem sentido e cheio de rodeios de uma colorida borboleta sem me perguntar ao menos aonde vai assim com tão caprichoso vestido e, ao som do canto esquizofrênico das cigarras, vou dançando a dança da vida, aprendendo a não me perguntar tanto o porquê das coisas.
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