O amor que
quando posto à prova
é descrente
é o amor que não se ama
é o amor que não se sente
é o amor que entedia
é o amor indiferente
O amor que
quando posto à prova
é humilde
é o amor que se ressente
é o amor que se apequena
é o amor que sofre tanto
é o amor que aliena
O amor que
quanto posto à prova
é brutal
é o amor que não existe
é o amor que se odeia
é o amor que é tão triste
é amor que arromba a veia
O amor que
quando posto à prova
é sereno
é o amor que sempre vinga
é o amor que só floresce
é amor que se respeita
é o amor que me aquece
-x-
A tristeza olha para os lados, para ver se está sozinha. Encontrar outra tristeza não a consola. Pensa que a vida é só dor e sofrimento e perde a esperança. Mas se vê felicidade a sua volta, entretanto, sofre ainda mais, pois sente inveja.
A felicidade, por outro lado, se basta. Ela não precisa ver nada a sua volta. Se por acaso encontra felicidade por aí, fica mais feliz. A felicidade não faz sombra à felicidade. Muito pelo contrário, faz mais luz. Se encontra tristeza, sente pena, tenta consolar, mas não sente tristeza.
Uma flor é capaz de ignorar o sofrimento e, mesmo sobre um túmulo, se alimentar das lágrimas que ali foram derramadas, germinar e, enfim, desabrochar.
-x-
Uma sombra me persegue. Sei que ela quer me dizer alguma coisa, mas não diz. Fica apenas ali, me seguindo, indo por onde eu for, acompanhando tudo o que eu faço, me avaliando cegamente, me criticando mudamente, com a sua sua obscura e indecifrável face.
-x-
Imagino teu pranto
imagem que é-me feita
na espreita
de tantos anos passados
ainda recordo
meus dedos largos
a fenda estreita
à força movente de um carinho
alargavam-se os caminhos
desbravando as matas
(pensava eu então
-"no aperto úmido
de tuas coxas
ainda me matas")
distante meu ninho
embriagado
deste estranho vinho
adocicado e carente
que brotava inocente
pelas vertentes
de tuas estranhas
e profundas entranhas
os gemidos mais vagos
agora liquefazem-se
meus desejos em lagos
roucos cantos
esmaecidos encantos
nos músculos rijos
das tuas coxas
de meus apertos
ainda tão roxas
anda me expulsam e afagam
mas depois derretem-se
e em meus vales se alagam
este é um passado
que não me deixa
esta lembrança
que agora é uma queixa
és agora, imagino,
de outro qualquer
a nova gueixa
esta intolerável imagem
é a que rumino
quisera-te antes sozinha
chorosa no orvalho sereno
da tua boca carmim
do que teres cravado em teu seio
um outro qualquer ao invés de mim
-x-
Em todos esses tons, os azuis, de olhos, escolhos do mar, entulhos do lar.
Os poentes descrentes em todos anis, nos anos que passam, nos anos futuros, ora quase verdes, ora puramente azuis. Verdes ainda nem nascidos, azuis amadurecidos. O hematoma nasce, azul e, ao contrário das frutas, vai se tornando verde, mas morre amarelo como todos.
O azul é a cor da promessa a cor que colore os sonhos. O azul dos meus olhos é meu giz que mancha a lousa da tua tez, o raio celeste azul e eletrostático, um potente eletroimã que atrai e repele, magnetiza o orvalho que para no ar repelido pelas estática da grama.
Ora o azul é neutro, ora azucrina a crina azul da quimera que galopa em meus sonhos. Tem o azul gélido da tristeza que a beleza pinta nos cumes nevados de tuas distâncias. E as reentrâncias carnudas vermelhas e profundas em meu lagos azuis se fixam e penetram, buscam lá o seu fim, o elemento final, o leito eterno em jaz meu corpo.
Azul do céu, só em sonho almejo. Quisera voar através do azul escuro das noites, salpicadas de manchas, o estrelato, fazer dos laivos caminhos serenos pelas entranhas dos entreastros.
Asteróire, esteróide, viagem. Me perdi nesta infinita dimensão. A sinfonia que ouço é silenciosa. Me faz dormir, sonhar, por fim acordar. Quisera estes panos que me cobrem serem teus braços. O traversseiro teu colo em que me recosto e me entristeço. As lágrimas de despero em que me afogo num passe de mágica seria transmutadas em esmeraldas como se do líquido azul pudesse inexplicavelmente brotar a solidez do verde.
Azul, quimérico e poderoso azul, a força com que me possuis me deixa fraco.
Qual o mistério deste azul que invade céu mar e a distância? O mistério está no ar. O azul é o oxigênio que respiro e tanto me falta na hora do agudo desespero.
O azul está na cor que o Sol emite, viaja pelos céus misturada a uma população infinita de cores, mas a atmosfera o separa do populacho é o deixa reinar sozinho nos céus.
-x-
Cercado de livros por todos os lados, ilhado na solidão de sua insuperável ignorância, reflete o sábio.
Tendo por companheiro, apenas os livros, estes amigos que não respondem, apenas ajudam a perguntar.
Um livro, o que me diz um livro? Palavras, tantas palavras, fazem esquecer que o mundo existe lá fora, um mundo de palavras também, mas formadas por bocas carnudas e suculentas.
Gostaria de ter a sabedoria de minha lavadeira que nada tendo de seu, é feliz em sua despercebida ignorância. E ainda acha que sabe de tudo e é cheia de certezas.
-x-
Fitando profundamente a bola de cristal, diz a vidente:
- Você ama sua namorada?
- Sim.
- Então se afaste dela sempre dela, nem me pergunte a razão.
O que estou fazendo aqui? - se pergunta o rapaz quase rindo.
- Eu prefiro saber, diga! Afinal, estou pagando!
- É que a vejo num futuro bem próximo ensanguentada a teus pés.
Rindo-se, pagou e foi embora.
Mais tarde, contou o acontecido a sua amada esperando que ela desse boas risadas. Mas ela ficou preocupada.
No dia seguinte foi à vidente só para confirmar. A previsão foi de que deveria abandonar seu namorado pois seria assassinada por ele, pois a via num futuro próximo ensanguentada atirada aos pés do namorado.
Ficou apavorada. Resolveu terminar o namoro, dizer que não poderia suportar a possibilidade, o medo. Quando se aproximava do namorado, tropeço e se machucou no joelho que sangrou muito.
Caída. aos pés do namorado e sangrando no joelho, percebeu que esta era a imagem que foi vista pela vidente.
Deu muita risada e esqueceu.
(baseado em um conto de Bram Storker, aquele do Drácula).
- Ouvindo Panelas
ora, ouvir panelas!
será melhor porventura
que ouvir estrelas?
pois quem há de comê-las?
que se ouça então as panelas
é já ouvir alguma coisa
com conteúdo comestível
e bem melhor do que ficar sem elas
pelo sim e pelo não
de certa forma é ir para céu
sem ter saido do chão
- Sem ter o que dizer
vesti uma pele
de um animal qualquer
bem peludo
mas me disseram que mais correto
seria vestir veludo
pois veludo não pertence
ao reino animal
porém, contudo
animal não faz mal
(só ao coitado
pois por triste fado
por sua bela pele
não há quem vele
mas há quem consuma
por exemplo a perua
quando se arruma
e a veste quando sai a rua)
mas o veludo é coisa
que me dá uma coceira danada
digo isso pois sou poeta
mas para dizer não tenho nada
que dizer então?
algo que rima?
mas a rima foi esquecida
na parte de cima
do meu grande armário
seria bem melhor
ficar ouvindo o canário
e seu canto sem sentido
mas ainda bem pior
seria eu ter mentido
ou inventado um problema
só para compor um poema
-x-
O poeta por vezes não tem o que dizer. E fica inventando alguma coisa do nada. Ora, alguma coisa é melhor do que o nada. Seja um poema inventado, seja um problema real.
Só o nada e a mesmice entediam de verdade.
Mas fico pensando nas tantas pessoas que só querem ficar conversando abobrinhas, dizendo que papo com conteúdo é muito chato, que lhes dá coceira um papo aveludado, que a cultura e a arte são coisas para boi dormir.
Acham chato qualquer coisa :
Matemática, tecnologia e informática.
História, física e química.
Literatura só se for da mais besta, daquelas que já se sabia o que se ia ler, pois se não se sabia, seria difícil entender e obrigaria a pensar, essa coisa tão chata. É até compreensível considerar algum assunto chato, ainda que a chatice resida mais no chateado do que no chateante.
Mas achar tudo chato é demais.
Pobre dos entediados. Eles se consideram críticos, mas são apenas tristes. A pior doença é a apatia. Olham com desconfiança o olha cheio de luz e graça dos que são felizes e se interessam por muitas coisas. Como nunca foram felizes, acham que é tudo mentira e fingimento.
O interessante é que a outra face da moeda não lhe é igual. A pessoa feliz compreende a pessoa triste e sente pena dela, pois todo mundo ficou infeliz e entediado em algum momento.
Por isso eu lhes digo que chato é o nada e o vazio. Chata é a falta de assunto.Chato é o mesmo de sempre.
Mas quem conversa alguma coisa, pode perfeitamente conversar a respeito do nada e fingir não ter assunto. É dever das pessoas que se interessam fazer os apáticos despertarem do seu sono.
O nada por vezes pode ser um assunto filosófico. Os sábios escreveram volumosos tratados sobre o nada.
É que quem pode o mais pode o menos, mas ai daqueles a quem só resta o tédio do menos. De fato, não pensar é uma coisa que não dá trabalho nenhum, mas não se pode dizer que é divertido.
Ficar de papo pro ar é gostoso, mas cansa e entedia. Quem sabe alguma coisa, sabe bem o que é não saber, pois já não soube. Quem já pensou um dia, sabe o que é não pensar, pois já não pensou. Quem já leu um dia, sabe o que é não ler, pois já não leu. Só quem sabe, pensa ou lê sabe se é mais chato não saber, não pensar ou não ler. Quem sabe, pensa ou lê não tem problema em conversar sobre coisa alguma ainda que prefira conversar sobre alguma coisa. Mas quem não sabe, não pensa e não lê tem certeza absoluta de que essas coisas são chatas, aquela certeza que só têm os que não têm qualquer razão para tanto. A certeza é o fruto mais retumbante e invencível da falta de pensamento, pois o pensamento é feito de dúvidas e as dúvidas são a negação da certeza.
"A dúvida é desconfortável, mas a certeza é absurda." - Voltaire.
A ignorância não é um mal, pois é involuntária.
Então, longe de mim condená-la ou maldizer a superficialidade.
O pior mesmo é arrogância dos que não sabem, não pensam e não lêem pois garantem do alto do seu trono que uma coisa que não conhecem é chatice. É como achar chato um filme que não assistiu.
Eu acho chato tudo o que eu não sei, confesso. Por isso me interesso pelas coisas não sabidas. Quem sabe, ao sabê-las, elas se tornem saborosas? Fico assim, à caça de coisas que me interessem. E cada vez me interesso por mais coisas.
(Juro a vocês, só gostava de matemática e ciências, e já supus ser a poesia coisa chata! Hoje sei como eu estava errado)
O saber potencializa o sabor, porém, o saber sem sabor é uma doença ainda pior que a ingorância.
As coisas que eu não sei são misteriosas. Adoro livros de mistério. Me interesso pelas páginas que não li, as que li já não me interessam. É obrigação do sábio abandonar seu saber em troca do sabor.
Aviso aos ignorantes :
- levar sempre o papo para o nada é perder uma oportunidade de se acrescentar com algum conteúdo, optando por continuar vazio;
- o nada é sempre menos que alguma coisa;
- toda emoção é precedida de um pensamento, pois uma coisa que se não chegou a se formar no pensamento nem chegou a existir;
Aviso aos sábios :
- saiba que o mundo é como é, e as pessoas têm o direito de ser como bem o desejarem;
- a intolerância é a pior de todas as ignorâncias;
- arrogância é a pior das intolerâncias;
- não esqueça de saborear as coisas depois de pensá-las e, sobretudo, não esqueça depois do seu sabor;
- permita-se conversar sobre abobrinhas, tanto das verdes como das maduras, pois a ignorância é perdoável (ainda que a arrogância nem tanto).
Eu, de minha parte, prefiro conversar com alguém que me seja superior em conhecimento (devo reconhecer que há muitas), mas não me incomodo em conversar com alguém que saiba ainda menos do que eu.
É sempre divertido conversar com as pessoas e há sempre alguma coisa para aprender com elas mesmo que não tenham pensado muito a respeito. A intuição é conselheira falha, porém profícua.
Eu, de minha parte, quando não tenho nada para conversar eu invento alguma coisa.
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1 comentários:
Olá querido Benno,
Ah! Está enganado. Eu tentei três vezes deixar comentário, mas e depois de eu ter uma dissertação feita, o blogger não aceitava o comentário.
Adoro a sua forma de escrever.
As suas considerações sobre o Amor são especiais, muito reais e filosóficas.
Aquele texto sobre a cor azul é demais.
A ignorância e a sabedoria. A história da vidente e aquele poema, que me deixou de "pernas para o ar".
Mas, o poeta é um fingidor, dizia Fernando Pessoa.
Beijos de luz.
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