sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

1 - Lindomiro

Lindomiro é uma pessoa incomum. Ele vê coisas, mas não acredita nelas.
Tudo começou bem cedo em sua vida. Morava no campo, numa fazenda bem distante da cidade. Só uma vez ou outra ia até a cidade. Gostava do campo, da mesmice dos dias, do doce nada fazer. O repetir eterno dos nasceres e dos pores do Sol, do ciclo continuo das chuvas e das secas, do encher e esvaziar dos rios e lagos, das indas e vidas dos pássaros migratórios, dos esverdear e amarelecer das folhas, dos mugidos e dos sons dos animais. Gostava de ver as cores do dia se espalhando na noite, aquela eternidade sem sentido da natureza, que constantemente se transformava sem entretanto em nada mudar. Gostava dos odores que emanavam os verdes das campinas. Mas via coisas no céu, nas nuvens nos sonhos e na vigília. 


Ele sabia que não eram verdadeiras, mas não sabia explicar de onde vinham. Eram coisas fantásticas, assustadoras que se moviam entre seus olhos e as coisas existentes. Não, não se tratava de sombras, mas de coisas realmente inexistentes e sombrias. Mas como pode uma coisa que não existe existir? É que o existir a que me refiro quando digo que existiam é o existir dos sentidos. Se uma coisa existe para os sentidos, de certa forma existe mesmo que seja fruto de um sonho. Já a inexistência refere-se ao fato de as outras pessoas não sentirem. Se uma coisa existe daquela primeira forma, então ela existe apenas para a pessoa que a sente. Porém, para existir na segunda forma  sentido ela precisa existir para outros.

Ora, mas se ele via, como dizer que via uma coisa que só ele via se a outra pessoa não 
via? Ele passaria por mentiroso.

O mais interessante é que as coisas que via pareciam ter alguma relação com as coisas 
futuras, passadas ou presentes, mas uma ligação fraca que não permitia prever qualquer 
coisa, mas depois que as coisas aconteciam parecia que havia alguma relação. Era como as previsões de Nostradamus, que nunca permitiram prever coisa alguma, pois só fazem sentido depois das coisas acontecidas. Era como a numerologia, que permite sempre se obter uma relação entre os números e o que aconteceu, mas nunca e jamais permitiu prever algum evento futuro. Era como um coisa que parece, mas não é.

Na fazenda, via coisas à frente do gado e das plantações. Quando estava observando um 
nabo, não era um nabo que via, mas uma outra coisa, uma coisa com vida, que se movia. 
Quando admirava com olhos embevecidos um lindo lago, era outra coisa, muito maior e 
profunda, que admirava, uma coisa que brilhava um brilho etéreo, pululando de fantasmas e 
monstros, afogados e loucos. Nas árvores, via enforcados. Nos cemitérios, gente de todo 
tipo, principalmente anciãos . 


Tentara dizer para outras pessoas que não via um lago ou uma árvore, mas esta outra e assustadora coisa, mas ninguém acreditava. Achavam que era ilusão. Será que era louco? Essa pergunta  o perseguia através dos anos. Ele se sentia uma espécie de Cassandra às  avessas. Cassandra, para quem não sabe foi amaldiçoada por Apolo, por não lhe corresponder o amor, a ver o futuro, ter certeza dele, mas suas previsões soarem sempre falsas de forma a ser considerada uma louca. Ele via, mas era ele mesmo que não cria.

A sensação de mistério diante da vida era imensa. Maior ainda era a incapacidade de 
compreender.


Até que um dia, ele conheceu outra pessoa, Orivaldo, que via coisas semelhantes às que 
ele via. Só que Orivaldo acreditava no que via, mas ninguém mais acreditava. O 
interessante é que Lindomiro achava que o que ele via era exatamente a mesma coisa que 
Orivaldo via, mas Orivaldo considerava tudo diferente. O efeito do encontro entre os dois 
foi que Lindomiro passou a acreditar serem reais as coisas que via e Orivaldo passou a 
não acreditar.



7 comentários:

paula barros disse...

Ah, coitado de Orivaldo

"Se uma coisa existe para os sentidos, de certa forma existe mesmo que seja fruto de um sonho." Eu penso assim, e sofro e sorrio por sentir, mesmo que seja fruto da imaginação.

Tem momentos da vida que olhamos tudo com mais sentir e tudo se tranforma, e tudo fica mais bonito.

Adorei, adorei!!!

LUZ disse...

Olá Benno,

Há quanto tempo!
Li sua postagem e, à excepcão dos nomes dos personagens, mas eu sei, que eles são brasileiros, e daí, nomes pouco vulgares, é uma história bem interessante e motivadora.
Sabe, o contraditório, está presente, aqui.
Nossos olhos vêem o que querem e o que não querem, tudo depende do estado de espírito.
Se você olhar um belo cisne, é mesmo um cisne, que você vê, mas a mente, alucinada ou não, pode ver outra coisa.
Bom domingo.

Beijos de luz.

。♥ Smareis ♥。 disse...

Oi Benno, linda postagem. Acho que mente é muito misteriosa, e por vezes precisa de certos cuidados. Tem coisas que as vezes é difícil explicar, só a ciência mesmo. Abraço e ótima semana.

LUZ disse...

Bom dia Benno,

E que seu dia seja excelente, de todo o coração.
Me chatear com você? Impossível e sabe porquê? Você é o homem, que melhor escreve na Blogosfera.
Extasiado ou não, você é sempre insuperável.

Beijos de luz.

Aceita um convite meu? Está me olhando? Quem cala, consente, diz o povo.
O espero, ansiosamente. Obrigada.


singularidadesdahistoria.blogspot.com

。♥ Smareis ♥。 disse...

Oi Benno,boa tarde!

Sua definição sobre o texto foi de uma sabedoria e de uma inteligência louvável no comentário da minha postagem.Eu acho que a inveja é tão perigosa, que ela não deseja só o que o outro têm, mas também o que o outro é, isso é uma forma incompetente de admirar.Muito obrigada mesmo meu amigo, receber você sempre é muito prazeroso...
Um abraço e ótima semana.

Claudinha ੴ disse...

Olá Benno!
Eu conheço alguém assim. Acredite!
Mas o choque entre o incomum causou mudanças drásticas. Por que somos tão complicados e simplesmente não aceitamos o que nosso cérebro codifica como percepção? Existem pessoas com olhos de ver, acredite(o)!
Adorei seu texto! Um beijo!

。♥ Smareis ♥。 disse...

Oi Benno, dei uma passadinha pra ver as novidades e desejar uma excelente semana.
Abraço meu amigo!

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