Um dia,
andando pela minha rua, uma rua que margeia um belo rio de águas agitadas, vi
um cão maltrapilho, desses que aceita qualquer osso, esquálido, faminto, de
pelos maltratados pela ação do tempo. O cão parecia não ter dono. Era um cão
sem pão, sem tostão, um cão sem sim, sem não, o fel à face e o mel distante. A
mim, que sou cheio de dúvidas e tenho mais nãos do que sims em minha cartola e
no meu bolso, me pareceu que o cão tinha apenas nãos e não tinha mão que lhe acariciasse os pelos ou lhe desse o que comer.
Fiquei com pena do cão,
dei-lhe meu pão e fiquei sem pão.
Mas o cão, ao invés de abanar a cauda
agradecido, pegou o pão e correu para bem longe de mim. O cão sumiu de vista
num instante. Plácido, continuei meu caminho rumo ao nada. Logo depois, vejo o cão e um menino rolando
pela grama de felicidade, migalhas de pão espalhadas a sua volta, migalhas de
breve felicidade contrastadas com minha perene tristeza.
A felicidade sem
motivos ante a tristeza sem razões.
Os restos do pão que antes fora meu agora estavam
espalhados pelo chão como que demarcando o caminho de saída da floresta da
solidão em que eu vivia. Bem que eu poderia ser uma bruxa horrorosa e
amaldiçoar a felicidade que eu havia propiciado aos dois, mas o sorriso dos
dois era tão doce que fiquei feliz por eles. Segui meu caminho solitário, porém
satisfeito pensando que, se é verdade que quem dá um pão, perde o pão e perde o
cão, e foi isso o tudo e pouco que perdi, por outro lado o sorriso que se é
capaz de propiciar dando algo parco como um pão bem que vale à pena.
splotzFlezp
No lugar
mais irremediavelmente isolado e perdido, passa uma estrada, que ninguém sabe
para quê foi construída. Afinal de contas, ninguém passa por lá. Obviamente,
ninguém pode presenciar um mendigo que anda à toa por ali. Um mendigo que
chutas latas, mas não há latas por ali. Apenas um buraco fumegante. O que faria
um buraco fumegante ali? O que o teria provocado. Infelizmente, apenas o
mendigo o viu e pára ele não se tratava de um mistério a ser desvendado, mas
apenas um buraco fumegante. Dentro de um buraco fumegante, para um faminto
mendigo que nem ao menos latas tem para chutar, um buraco fumegante só vale à
pena se contiver dentro de si algo mais, algo que se possa comer ou beber.
Ninguém pode
presenciar, por isso apenas creiam no que digo. O mendigo olhou dentro do
buraco e... splotzFlezp... Foi o barulho que fez uma caixa ao saltar de dentro do buraco,
quase atingindo o rosto esquálido e vincado do mendigo.
Ele abriu a caixa, ainda um pouco assustado e ... splotzFlezp! Foi o ruído que a caixa fez ao abrir. Dentro da caixa, milhares de bonequinhos de olhos profundos e estranhos, hipnóticos, que faziam a cabeça rodar loucamente e entrar num sonho em forma de vórtice, como se um pequeno tornado se fizesse no vácuo da cabeça.
- splotzFlezp! splotzFlezp! splotzFlezp! Repetiam os bonequinhos.
De repente,
sem pensar, o mendigo soube o que deveria fazer. Devia vender os bonequinhos e ficar
rico.
Quando
chegou
na cidade, ele já não parecia um mendigo. Parecia um vendedor. E vendeu
todos os splotzFlezp, o nome que deu aos bonequinhos. Era tão fácil e
podia
pedir a quantia que quisesse às pessoas,
que elas pagavam sem titubear. E cada um que saia por aí com seu
splotzFlezp já não se pertencia. Cada qual pertencia ao splotzFlezp que
pensava
lhe pertencer. As pupilas de seus olhos começavam a girar
excentricamente em
torno do centro de seus olhos e começavam a agir estranhamente,
roubando coisas triviais e sem valor, ficando aborrecidos por qualquer
coisinha. Apaixonadas
pelo seu splotzFlezp, um bonequinho ridículo que nada fazia a não ser
repetir
aquele sou asfixiante e hipnótico:
- splotzFlezp! splotzFlezp! splotzFlezp! (Infelizmente, a bateria tinha duração infinita).
Era o
som que se ouvia pela cidade. splotzFlezp! E ai daquele que não possuísse o seu splotzFlezp, pois
seria considerado completamente “out”. A moda, assim como as manias, os vícios e as psicoses, é uma coisa terrível.
A caixa era mágica, pois quanto mais splotzFlezp o ex-mendigo vendia, mais splotzFlezp havia na caixa. E ele foi ficando rico. Cada vez mais rico. E mais rico ainda. Ficou tão rico como seria possível ser.
E por causa
dos seus splotzFlezps, as pessoas começaram a brigar entre si, cada uma achando
que o seu splotzFlezp era melhor do que o dos outros. Certos grupos formaram
associações defendendo o seu ponto de vista de que os seus splotzFlezp eram os
melhores pois pronunciavam splotzFlezp de forma mais suave e melodiosa que os
outros.
Formou-se a CPMS "Confederação dos Proprietários dos Melhores splotzFlezp", a AFS "Associação dos Fanáticos por splotzFlezp" e, até o MSS "Movimentos dos Sem splotzFlezp" formada pelos desafortunados e despossuídos que não puderam comprar um splotzFlezp. Houve confrontos violentos e muitas pessoas morreram. Todos se
envolviam na briga sem saberem porque faziam o que faziam. Apenas com os olhos
girando, tontos, envolvidos por um
vórtice que não permitia mais pensarem com discernimento.
Entrementes,
num planeta distante, seres de oito pernas e quatro braços, cada qual com duas
mãos de dez dedos cada, sendo dois deles polegares opositores, com cabeças
gigantes portanto cérebros de geléia de framboesa com cobertura de chocolate fazendo às vezes de crânio, monitoravam
as pessoas na Terra.
Através dos seus SplotzFlezps controlavam os seres humanos,
fazendo-os trombarem uns contra os outros, roubarem coisas tolas como canetas
esferográficas, bobs, grampos de cabelo, fitinhas do Bonfim, e perderem coisas
importantes como as chaves de casa, documentos de identidades, pastas de
contratos, fazendo-os brigarem entre si por causa dos seus inúteis splotzFlezps e fazendo o
planeta Terra se transformar numa grande confusão, uma batalha campal que era uma
verdadeira terceira guerra mundial.
E tudo por pura diversão. Eles riem
muito dos ridículos habitantes do planetóide azul chamado Terra.
Sua risada ribomba pelos quatro cantos das
galáxias, uma risada tenebrosa e nunca antes ouvida nos confins mais recônditos do universo : BLARRRRRRRRRRRGFHHHHHHHH!
Mais um dia
perdido no mar de gente das cidades.
Caminhava apressado.
De repente, vislumbro
o rosto de Carlos Augusto, velho conhecido meu que não via há anos.
Tento falar
com ele, mas ele passa adiante, sem reparar em mim. Logo à frente, outra pessoa
que percebo ter o rosto de Calos Augusto. Mas como pode? Nunca havia visto um
rosto que se parecesse com o de Carlos Augusto, em poucos minutos vejo dois.
Dois, não, três, pois já vejo outro.
Quatro, cinco, seis.
Logo são mil Carlos
Augustos. E todos se viram e vão embora sem me olhar. Enfim, todos se voltam para
mim e começam a me encarar. Percebo que não estão satisfeitos. Estão com raiva,
muita raiva. Querem me matar, me devorar, me enforcar e me esganar. Eles me
querem.
Eu corro, mas meus pés estão atados ao chão. Quero partir, mas não
posso. Quero berrar, mas não encontro a minha boca em minha face. Não há mais
língua, nem lábios, nem dentes. Sou um ser sem boca, sem nariz, nem olhos. Não
tenho mais expressão. Não tenho mais identidade. Começo a me transformar, meu
rosto vai se parecendo cada vez mais com o de Carlos Augusto. Agora eu sou
Carlos Augusto e não lembro mais quem eu era. Morri para mim mesmo.
Uma mão encosta-se
em minha testa. Só pode ser a mão do Senhor! Sinto o suor rolar pela minha
testa.
Sinto minha pele arder em febre. O Senhor Deus me diz calmamente.
- Foi só um
mal estar.
Mas como?
Deus só tem isso a me dizer?
- Você
desmaiou. Tudo não passou de um simples desmaio.
Ou seja,
tudo não passou de um sonho ou pesadelo.
Não era Deus
nem nada, nem eu era Carlos Augusto. Eu era eu mesmo e estava deitado na
calçada daquela mesma rua movimentada em que eu vira tantos e infinitos Carlos
Augustos.
Voltei para
casa, me sentia melhor. Mas qual a razão daquele sonho?
Só podia ser
visita. Carlos Augusto ia me visitar. Fora claramente uma premonição.
À noite recebi
uma inusitada visita. Mas não era Carlos
augusto nem nada. Era Matilde, minha Irmã.
É por isso
que eu não acredito em presságios.
-x-
Lembre-se de algumas regras importantes.
1 - Existem 3 regras para compor um conto. Infelizmente, ninguém sabe quais são.
2 - Alguém disse isso, mas não lembro quem foi. Depois eu digo.
3 - As melhores histórias de vampiro não são histórias de vampiros.
4 - As melhores histórias de fantasma não são histórias de fantasmas.
5 - As melhores histórias de ficção científica não são histórias de ficção científica.
6 - A melhores histórias, independente do assunto que tratam, não são histórias sobre o assunto que tratam.
7 - A arte consiste em dizer uma coisa diferente da qual se quer dizer.
9 - Quem estabeleceu a regra número 1 foi Sommerset Maugham autor de inúmeros romances famosos, como "Um gosto e seis vinténs", "O Fio da Navalha", "A Servidão Humana"


7 comentários:
Benno, fazendo um primeira leitura. Não sei as regras para compor um conto. No entanto acho-gosto da forma que você desenvolve seus contos. Dos nomes dos personangens.
abraço
Benno, meu querido, és "o caminhante das letras" e quem caminha pelas ruas da cidade encontra cães abandonados, homens que se abandonam. Enquanto isso, os poderosos nos seus planetinhas perfeitos e ascéticos, gargalham. E que gargalhem enquanto durar a sua ilusão de poder. Você, meio Kafka, meio João Antonio, meus preferidos, te gosto muito.
Mas hoje eu quero Natal, isso mesmo, aquele Natal bagunçado onde dizemos coisas que não vamos cumprir, onde compramos bolinhas brilhantes...e depois o carnaval [risos].
Amigo, é um prazer ter acesso ao seu imaginário. Obrigada pela visita! Beijos...
Olá estimado Benno,
Aprendiz de escritor e poeta, diz você?
Me deixe rir. As regras, que nos apresentou não encaixam aqui, sabia?
Li seu texto, suas reflexões com muito interesse e atenção, como sempre.
Fico "grudada", extasiada e contemplativa.
Como é que alguém, de carne e osso, pode dizer, e ainda mais sendo aprendiz, frases como: A FELICIDADE SEM MOTIVOS ANTE A TRISTEZA SEM RAZÕES.
Você vai ao "fundo" e é profundo.
TARDA, MAS QUANDO CHEGA ARRASA. É isso mesmo, que faz e que eu sinto.
Você tem toque, distinção, classe.
Gostei da história do cão vadio, a quem deu o pão e não ligou mais pra você. É assim, Benno, a sociedade.
O FEL À FACE E O MEL DISTANTE! Espantoso, divinamente colossal.
A outra história é, igualmente, profunda e moralista.
VOCÊ DIZ SEMPRE COISA COM COISA, acredite.
Agradeço, emotivamente, o belo poema, que deixou em meu blog. CHICO BUARQUE, está tudo dito.
Quero, que seu estado de espírito não seja aquele.
Ouvi já a canção dele. Se sonha, um pouco.
Volte depressa e traga no olhar e na boca mel de palavras.
Beijos de luz.
mais do que regras para escrever um conto, é preciso ter talento e criatividade e isso você tem de sobra ;)
encantada Poeta, como sempre.
beijos
De regras e normas o mundo anda cheio, e confesso que eu ando farta de tanta normatização...
Eu prefiro ler os seus textos, refletir com eles e deambular a partir do que eles causam em mim. Eu nunca saio daqui como chego, vou sempre com uma emoção nova, porque não me farto da sua prosa. E deixo beijo e desejo de uma ótima e produtiva semana!
Sensibilidade! Essa é a chave de tuas escritas me deixarem tão enternecida.
Bom matar as saudades vez em quando...
Beijos mil!
Perguntei-me durante às horas insones – quais são as razões que nos move na areia movediça da leitura.?
E descobri, que após a leitura da obra, fica-nos o breve silêncio e a sensação de que não há nada mais por ser dito.
Bem queria conseguir me calar, mas preciso te dizer:
Benno, sua escrita fluente, suas várias conotaçoes e sua forma desregrada. palavras te tomam por dedos, braços e corpo todo, convulsionando nestas páginas um sacudir corporal e emocional. Causa-me torpor, fico atingida diante de tanto dom, pensamento e expressão.Como a pura sensação de embriaguez com minha taça de vinho x tua fantasia: Aplaudo-te!!
Bendita seja tua influência sobre os que te lêem.
Todo meu carinho e admiração, poeta!
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